Sala de Imprensa: Sua Santidade e os gravadores

Sala de Imprensa: Sua Santidade e os gravadores

Atualizado em 26/04/2006 às 18:04, por Rodrigo Manzano*.

Sala de Imprensa : Sua Santidade e os gravadores


Enquanto esperava a tradução de suas repostas às perguntas feitas em coletiva de imprensa nesta tarde (26), Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama - líder religioso mais importante entre os budistas da tradição tibetana - cuidava dos gravadores dos jornalistas. Se não eram duas dúzias de gravadores em cima da mesa, eram quase duas dezenas. E, como deve ser, passados 30 minutos de entrevista, o lado das fitas chegou ao fim. Porque, como reza o budismo, nada é permanente. Nem mesmo as fitas de 90 minutos, aquelas que duram mais. Então, Sua Santidade, o Dalai Lama, verificava aqueles pequenos aparelhos que desligaram automaticamente, virava as fitas e os ligava novamente. E foi assim durante os 50 minutos de entrevista coletiva: percepção atenta às perguntas, aos jornalistas, aos gravadores e aos microfones em cima da mesa, obstruindo o caminho entre sua xícara de chá e a garrafa térmica prateada de onde a bebida do Dalai Lama era servida.

É bem possível que a intimidade do Dalai Lama com os gravadores seja herdeira de um antigo hábito, o de abrir, desmontar, montar e fechar relógios, um hobby de Sua Santidade que, ao tempo, tratou de substituir os pequenos e frágeis relógios de pulso por máquinas maiores. Ele não confessa, mas a vista não ajuda mais para o lazer com maquinarias tão pequenas. Aos 70 anos, reconhece que se algo mudou desde que veio ao Brasil pela primeira vez, em 1992, vez foram duas coisas: o Brasil e a idade dele.

Bastidores da coletiva
Nesta visita, Dalai Lama fica três dias em São Paulo, para uma maratona que inclui a divulgação de seu novo livro, "Compaixão ou Competição - Valores Humanos nos Negócios e na Economia", algumas palestras e eventos ecumênicos. Se tivesse um tempo na apertada agenda, deveria visitar o Palácio do Planalto e mostrar à equipe de comunicação do governo federal a importância das entrevistas coletivas. Cada jornalista foi convidado a escrever uma pergunta e depositar em urnas temáticas - "Espiritualidade e Ciência", "Política e Futuro" e "Economia e Ética Secular" - para que fossem sorteadas, de acordo com a proporção de perguntas por tema. A primeira das perguntas, escolhida ao acaso da urna cujo tema era política, aparentemente desagradou o líder religioso. Era da Reuters e indagava se o desenvolvimento econômico da China poderia, de alguma maneira, ameaçar a edifício cultural tibetano, já que o Tibet foi anexado à República Popular da China no processo expansionista de Mao Tsé-tung. Dalai Lama tem evitado falar sobre as relações com a China. Assume, hoje em dia, que a anexação do território tibetano acabou sendo positivo. A luta pela independência do Tibet e pela harmonia entre os povos lhe rendeu, em 1989, o Prêmio Nobel da Paz. Contrariado, afirmou que o capitalismo pode incentivar comportamentos competitivos e isso, sim, seria prejudicial não apenas aos tibetanos mas a todo e qualquer homem.

Ao todo, Dalai Lama respondeu a seis perguntas. Ao fim de cada resposta, ele mesmo solicitava. " - Next question ", num inglês cujo sotaque só é possível na Ásia. Ao falar de temas mais complexos, como cosmologia budista e ciência, Sua Santidade preferia o tibetano, que era traduzido para o inglês e que, por sua vez, ganhava uma tradução em língua portuguesa. Daí apenas a meia-dúzia de perguntas em quase uma hora de entrevista.

Lições de Jornalismo e Zootecnia
Se ainda não é pop como o Papa, em especial aquele que incluiu o Vaticano na grande agenda da imprensa e que morreu no ano passado, Dalai Lama reconhece o papel da mídia para a difusão das suas idéias e princípios: terminou sua entrevista coletiva com pequenas recomendações aos jornalistas presentes.

"A mídia tem um papel muito importante a desempenhar na promoção da paz e de novas condições humanas", afirmou, agradecendo a presença dos jornalistas e arrumando as pontas de suas vestes vermelhas como em sinal de que a entrevista terminaria logo. "Numa sociedade democrática e sob o Estado de Direito, cabe aos profissionais da mídia a obrigação de informar de forma correta", disse, "a obrigação de todo jornalista é investigar e transmitir, sejam resultados positivos ou negativos, de forma correta", aconselhou. "O nariz dos jornalistas precisa ser como a tromba de um elefante", comparou, "para farejar tudo o que é necessário". Os perdigueiros, vê-se, podem se comparar a um outro animal. "Mas é preciso motivação sincera, sem preconceito".

A turma do Planalto precisava receber o Dalai Lama para uma audiência.

Foto : www.dalailama.org.br

* Rodrigo Manzano é jornalista, editor da seção de livros da Revista IMPRENSA, professor de Jornalismo e budista da tradição japonesa da Terra Pura.