RPG sofre preconceitos gerados por desinformação | Por: Elara Leite - UFPB (PB)
RPG sofre preconceitos gerados por desinformação | Por: Elara Leite - UFPB (PB)
Atualizado em 05/12/2005 às 10:12, por
Por: Elara Leite*.
RPG sofre preconceitos gerados por desinformação | Por: Elara Leite - UFPB (PB)
"Comecei a jogar em 1999, quando vi um pessoal de onde eu estudava jogando. Me apaixonei à primeira vista. E como sempre gostei de teatro, a semelhança me cativou muito. Hoje, formado e trabalhando, continuo jogando RPG porque é algo que me diverte." É o que diz Rodrigo Gustavo Gallacci, paulista, jogador de RPG desde os 19 anos de idade.Criado em 1974 nos Estados Unidos, o primeiro jogo de RPG chamava-se Dungeons and Dragons (em tradução literal, Masmorras e Dragões). RPG significa "Role Playing Game", "Jogo de Interpretação de Papéis" em português. Participar de qualquer jogo deste tipo implica interpretar um personagem, fingir ser uma pessoa, agir como ela agiria e pensar como ela pensaria. Funciona como uma espécie de teatro, com a diferença que não há roteiro, isto é, a história vai acontecendo à medida que os personagens tomam suas decisões. O jogador cria um personagem fictício, que vive na imaginação dele e dos amigos que participam do jogo.
Sentados à volta de uma mesa, normalmente munidos de suas fichas de caracteres de personagem e alguns dados, os jogadores são norteados pelo Narrador. Ao jogar, participam de viagens épicas, batalhas, aventuras e inúmeros desafios. O Narrador descreve o que acontece aos personagens como resultado do que os jogadores dizem ou fazem. Seu dever é garantir que os outros jogadores se divirtam.
Existem vários tipos de RPG, porém os mais comuns são os eletrônicos, como Age of Empires, O Senhor dos Anéis e Warcraft. Breno Pascal, baiano de 18 anos começou com esta modalidade do jogo. "RPG eletrônico jogava todos que encontrasse, mas os que me cativaram mesmo foram os da série Final Fantasy, o 7 em particular", revela.
Dungeons and Dragons, o primeiro livro de RPG lançado tem por temática a fantasia medieval, mas atualmente existem jogos de RPG das mais variadas temáticas. O paraibano Bruno Nóbrega, 20 anos, prefere os jogos futuristas. "Sempre fui fascinado por filmes futuristas, isso me fez criar maior identificação com a temática do que com elfos, anões e seres mitológicos que normalmente estão presentes no RPG de fantasia medieval. Prefiro armas de fogo e realidade virtual. Acho que a adrenalina de narrar uma cena de tiroteio é mais emocionante", comenta.
RPG no Brasil. O primeiro livro de RPG publicado em português foi Gurps, trazido dos EUA na década de 80 por universitários que falavam inglês. Lançado em 1990 pela editora Devir, conquistou público e incentivou a criação de livros e sistemas de jogo totalmente brasileiros. "Tagmar" e "O Desafio dos Bandeirantes" foram os primeiros livros de Role Playing Game produzidos no Brasil.
Marcelo Deldebbio, paulista, criador de sistemas de RPG, considera muito importante que existam RPGs brasileiros. "Hoje temos o 3D&T (de autoria do Marcelo Cassaro), o Nexus (de João Lucena) que é voltado para a educação e cultura e desenvolvemos recentemente um sistema chamado RPGQuest, que é feito pensando em jogadores iniciantes, para tentar ocupar esse nicho aberto do mercado", declara.
Deldebbio considera ainda que seja viável utilizar o RPG como ferramenta didática em sala de aula e ressalta que foram realizados três encontros em São Paulo com educadores que utilizam o RPG em suas aulas. Este tipo de prática em sala de aula já foi utilizada também em escolas na Paraíba e em Santa Catarina.
Vencedores e perdedores. Não existe um vencedor único em um jogo de RPG: o objetivo não é derrotar os outros jogadores. Para vencer é preciso cooperar com os outros. Sendo um jogo de narração de histórias, não há como uma determinada pessoa sair vitoriosa. Os personagens, através de suas motivações, buscam sobreviver e alcançar objetivos. A diversão deve ser mútua, visando entreter a todos os envolvidos no jogo.
Recentemente, entretanto, com o assassinato ocorrido no Espírito Santo, o RPG aparece como motivador do crime. Fato análogo acontecido em Ouro Preto, Minas Gerais, no ano de 2001, em um suposto ritual de magia negra que teria envolvido o jogo, originou igual repercussão midiática.
Guilherme Inojosa, 15 anos, alagoano, refere-se ao caso com indignação. "Eu fiquei muito chateado quando assassinaram aquela garota em 2001. Isso pega muito mal para os rpgistas. Desde então a imprensa critica muito os jogadores dizendo que são satanistas. Nem todos somos assim. Certamente alguns rpgistas, uma minoria, deve ser satanista, mas é como qualquer outra opção religiosa. Por acaso criticam alguém porque ele é católico?", desabafa.
Este primeiro caso, aliado ao acontecido recentemente no ES, motivou discussões em muitas esferas sociais. Na camada política, cogita-se a proibição do jogo. Luis Henrique de Sousa Teodoro, paulistano, supervisor de um site especializado em RPG, a SpellBrasil, considera a atual discussão em torno do jogo como falta de informação.
"Simplesmente sem fundamento a argumentação tentando aproximar o crime ao RPG. A mídia deveria se preocupar em fazer mais do que sensacionalismo atrás de ibope, deveria cumprir com seu papel de informar apenas fatos verdadeiros. Fechar os olhos para todos os benefícios que o RPG traz para uma pessoa é simplesmente pedantismo, omissão e falta de profissionalismo," declara Luis.
Para Luis, não há como sobrepor todas as vantagens do RPG em detrimento dos atuais fatos noticiados. "Os meios de comunicação fazem vistas grossas, negligenciam aspectos do RPG importantes para o desenvolvimento do ser humano. Hoje o RPG é usado como ferramenta de trabalho por psicólogos, funcionando como um "desinibidor" para pessoas com problemas de interação e integração, dada sua timidez. Instiga os praticantes a conhecerem o teatro e a ler mais. Ensina a viver em sociedade, superar problemas do dia-a-dia dentre tantas outras coisas. Diga-se de passagem, é utilizado até como processo de treinamento para um emprego, conhecido popularmente por "dinâmica de grupo". Mas tudo isso passa desapercebido perto de um caso envolvendo pessoas desequilibradas que, por acaso do destino, jogavam RPG," esclarece.
Preconceito. Olga Gomes Hazin, 21 anos, pernambucana, relembra a primeira vez que se deparou com o preconceito contra o jogo, em 2001, como uma experiência chocante.
"Tudo começou quando houve o incidente em Ouro Preto. Eu estava no cursinho e não vi a matéria, mas alguns professores sabiam que eu era jogadora de longas datas. Um deles me chamou para um canto, no intervalo, me comentou esse incidente, completamente assustado e perguntou se rpg tinha dessas coisas de apostas e rituais satânicos. Obviamente chocada, eu esclareci ao professor o que era o rpg: um jogo de interpretação, nada mais. O professor ficou aliviado em ouvir isso. E agora essa noticia sobre o assassinato no ES, nos colocando em xeque e piorando cada vez mais nossa situação. Somos obrigados a jogar escondidos," conclui Olga.
Como Olga, muitos RPGistas sofrem de preconceito, muitas vezes provocado por falta de informação dos profissionais da comunicação.
Elara Leite* é estudante de jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (João Pessoa/PB)
contato:elara.leite@gmail.com






