Rodrigo Vianna: Demitido da Globo, repórter afirma que emissora manipulou cobertura eleitoral

Rodrigo Vianna: Demitido da Globo, repórter afirma que emissora manipulou cobertura eleitoral

Atualizado em 20/12/2006 às 10:12, por Redação Portal IMPRENSA.

Rodrigo Vianna : Demitido da Globo, repórter afirma que emissora manipulou cobertura eleitoral

O repórter Rodrigo Vianna, funcionário da TV Globo em São Paulo desde 1995, foi informado nesta semana que não terá seu contrato renovado com a emissora.

Depois da demissão, ele divulgou uma carta de despedida e agradecimento aos colegas, na qual aproveitou para fazer duras críticas à direção do Jornalismo da emissora, confirmando a tese de CartaCapital de que o canal manipulou a cobertura eleitoral deste ano e afastou Franklin Martins pelo posicionamento do comentarista.

A mensagem foi divulgada na revista virtual de Bob Fernandes, o Terra Magazine.

No início de sua carta, ele afirma que a Globo fazia bom jornalismo sob a gestão de Evandro Carlos de Andrade e que ele tinha orgulho de estar na equipe; mas que a chegada das eleições presidenciais mostrou que tudo foi "ilusão".

"O que vivemos aqui entre setembro e outubro de 2006 não foi ficção. Aconteceu", escreve, para em seguida descrever: "Intervenção minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação: `o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto´".

Chamando os chefes de Jornalismo do canal de "aloprados", Vianna diz acreditar que a cobertura "botou por terra anos de trabalho".

Apontando uma série de fatos pontuais nas matérias sobre os escândalos dos dossiês e das sanguessugas, especialmente as veiculadas pelo "Jornal Nacional", ele afirma que o clima na Redação paulista da Globo se tornou muito pesado durante e depois das eleições.

"Ao lado de um grupo de colegas, entrei na sala de nosso chefe em São Paulo, no dia 18 de setembro, para reclamar da cobertura e pedir equilíbrio nas matérias: `por que não vamos repercutir a matéria da IstoÉ , mostrando que a gênese dos sanguessugas ocorreu sob os tucanos? Por que não vamos a Piracicaba, contar quem é Abel Pereira? Por que isso, por que aquilo...?´", conta. "Nenhuma resposta convincente. E uma cobertura desastrosa. Será que acharam que ninguém ia perceber?".

"Não vi matérias mostrando as conexões de Platão com Serra, com os tucanos. Também não vi (antes do primeiro turno) reportagens mostrando quem era Abel Pereira, quem era Barjas Negri, e quais eram as conexões deles com PSDB. Mas vi várias matérias ressaltando os personagens petistas do escândalo", aponta. "E, vejam: ninguém na Redação queria poupar os petistas (eu cobri durante meses o caso Santo André; eram matérias desfavoráveis a Lula e ao PT, nunca achei que não devêssemos fazer; seria o fim da picada...)".

Classificando a cobertura eleitoral da Globo de "furada", ele critica também alguns pontos do "Manual" da emissora. "Está difícil continuar fazendo jornalismo numa emissora que obriga repórteres a chamarem negros de `pretos e pardos´. Vocês já viram isso no ar? Sinto vergonha...", escreve. "Mas, também, o que esperar de uma Redação que é dirigida por alguém que defende a cobertura feita pela Globo na época das Diretas?".

Vianna diz acreditar que a missão dos jornalistas que permanecem na Globo de fazer um bom Jornalismo não será fácil. "Olhem no ar. Ouçam os comentaristas. As poucas vozes dissonantes sumiram. Franklin Martins foi afastado. Do `Bom dia Brasil´ ao `JG´, temos um desfile de gente que está do mesmo lado", constata. "Nunca, nem na ditadura (dizem-me os companheiros mais antigos) tivemos na Globo um jornalismo tão centralizado, a tal ponto que os repórteres trabalham mais como bonecos de ventríloquos, especialmente na cobertura política! (...) Fico apenas preocupado por ver uma concessão pública ser usada dessa maneira".

Ao final de sua mensagem, o repórter afirma que está aliviado de não mais conviver com personagens "pretensiosos e arrogantes", mas que sentirá saudades das pessoas e dos colegas mais próximos: editores, chefes de reportagem, cinegrafistas. E encerra: "Perdi cabelos e ilusões. Mas, não a esperança".

Para ler a carta na integra, clique . Para quem duvide de sua veracidade, o "Conversa Afiada", blog de Paulo Henrique Amorim no iG, garante que a mensagem é verdadeira.