Roberto Romano: Filósofo analisa os resultados das eleições
Roberto Romano: Filósofo analisa os resultados das eleições
Atualizado em 02/10/2006 às 14:10, por
Gustavo Simon e da Redação.
Roberto Romano : Filósofo analisa os resultados das eleições
PorO escândalo dos dossiês enfraqueceu as lideranças petistas, mas foi apenas um entre os diversos erros cometidos pelo PT durante a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A sucessão de escândalos deixou o partido sem liderança e com pouca coordenação. Esta é a opinião de Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia Política da Unicamp, que acredita que a imprensa foi parcial durante as eleições.
Nesta entrevista para o Portal IMPRENSA, Romano comenta os erros das pesquisas e a situação política depois da apuração dos votos.
IMPRENSA - O escândalo dos dossiês foi o responsável pelo segundo turno?
Roberto Romano - Não, eles apenas fazem parte de um conjunto extremamente complexo de erros da campanha de Lula e do PT. O primeiro deles foi confiar demasiadamente no voto das classes C e D do Nordeste, sem considerar o fator "abstenção", que se aproximou de 18% nesta eleição. Não se pode ignorar este fato. Segundo: o dossiê levou ao enfraquecimento de lideranças petistas envolvidas na campanha, num processo que começou ainda com o Mensalão: caíram Genoíno, Dirceu, Palocci, João Paulo Cunha... todos aqueles que tinham posição de conciliação e costuras internas e externas. Isso deixou a campanha sem comando coletivo; até porque quem chegou depois não resolveu. O Berzoini assumiu com problemas, o Tarso Genro não foi capaz de realizar essas tarefas e o Marco Aurélio Garcia foi um bombeiro de última hora. Numa campanha cruenta como a que tivemos, o PT teve uma série de erros sucessivos, com total falta de coordenação. Isso foi determinante.
IMPRENSA - As pesquisas falharam no Rio Grande do Sul, onde Gemano Rigotto (PMDB) era tido como favorito e não foi ao segundo turno, e na Bahia, onde Jaques Wagner (PT) elegeu-se ainda em primeiro turno. Como explicar este fenômeno?
Romano - O objeto da pesquisa é algo muito fluido. Por mais que elas sejam comprovadas nos campos das ciências sociais, acabaram se transformando em armas de propaganda muito eficazes. Funcionam de acordo com o conceito de "Maria vai com as outras": a massa vai para onde a maioria está. Analistas políticos e de campanha não têm tempo para analisar todas as variáveis presentes em uma pesquisa. Se eles têm, não possuem contato direto com o meio jornalístico para divulgar essas análises. Quem se baseia apenas nas pesquisas comete um erro grave.
IMPRENSA - Para a disputa no segundo turno, Alckmin sai favorecido?
Romano - Acredito que ambos têm forças equilibradas para proporcionar um debate, porque não possuem comando homogêneo na campanha. No PSDB, Alckmin precisa harmonizar interesses internos: Tasso Jereissati é um general sem exército; do outro lado da campanha, no PFL, Jorge Bornhausen está na mesma situação. E, no PT, os operadores eficazes foram todos queimados.
IMPRENSA - A cobertura da imprensa foi determinante para o segundo turno, favorecendo algum candidato?
Romano - Acredito que não. Acompanhei mais a cobertura do Estado de S. Paulo, da Folha, dos portais de Internet, como o Terra e o UOL, e também da TV Globo. De maneira geral, eu as senti equânimes, sem privilégios. Mas é claro que, quando se tem um candidato forte que já é presidente, como Lula, é até natural que ele apareça mais que os outros candidatos.
IMPRENSA - No caso do escândalo dos dossiês, acha que a imprensa se focou muito mais na existência destes documentos do que no conteúdo deles?
Romano - Há, para mim, uma distribuição muito clara de tarefas: a imprensa divulga os fatos que definem o debate; e a investigação da origem do dinheiro, do conteúdo dos dossiês, cabe muito mais ao Ministério Público e à Polícia Federal. São funções diferentes. Mas tivemos a Polícia Federal sendo pouco transparente em relação à divulgação das imagens do dinheiro, impulsionada pela estratégia do Ministro da Justiça [Márcio Thomaz Bastos] de não oferecer a foto para não prejudicar a campanha do candidato dele; um argumento que não me convence e que revela um problema nesse Ministério, que já vem de outros governos e acredito que vai continuar. O Ministro da Justiça tem que responder ao presidente, mas sendo vinculado ao Poder Judiciário, ele não pode ser funcionário do presidente. Mas ficou evidente, de uma maneira geral, que houve uma "forçação" de barra: como é que os Vedoin, nos depoimentos à Polícia e às CPIs, não acusaram ninguém e, depois, durante as eleições, aparece um dossiê contra determinadas pessoas? Mas a mídia não pode ser culpada de tudo, como quiseram fazer acreditar alguns candidatos e pessoas da própria academia que, alias, são meus colegas.






