Roberto Carlos em detalhes: "A essa altura da carreira, ele não deveria protagonizar um episódio tão vergonhoso", diz Paulo César de Araújo
Roberto Carlos em detalhes: "A essa altura da carreira, ele não deveria protagonizar um episódio tão vergonhoso", diz Paulo César de AraújoPor Contar em pormenor, narrar minuciosamente, particularizar.
Atualizado em 18/05/2007 às 18:05, por
Thaís Naldoni e Lucas Krauss/Redação Portal IMPRENSA.
"A essa altura da carreira, ele não deveria protagonizar um episódio tão vergonhoso", diz Paulo César de Araújo Por Contar em pormenor, narrar minuciosamente, particularizar. Essas são as definições que o dicionário Aurélio dão para a palavra "detalhes". Segundo o autor do livro sobre a vida do cantor Roberto Carlos, Paulo César de Araújo, a publicação de fatos relacionados à vida pessoal do cantor corresponde a 10% da obra.
Entre os detalhes tão pequenos de Roberto Carlos, porém, o autor do "ensaio biográfico" - como ele mesmo define sua obra - conta, por exemplo, os pormenores do dia 29 de junho de 1947. Nessa data, o cantor, com apenas seis anos de idade, perdia parte de sua perna direita ao ser atropelado por uma locomotiva em sua cidade natal, Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo.
Tirado de circulação no dia 27 de abril passado, o livro "Roberto Carlos em detalhes", de 500 páginas, terá cerca de 10 mil cópias de seus exemplares reciclados. Um "assassinato cultural", segundo Paulo César.
Confira abaixo a entrevista que o autor cedeu ao Portal IMPRENSA.
IMPRENSA: Como foi o trabalho de pesquisa para a elaboração do livro? Fez alguma entrevista com ele?
Paulo César: Foram 15 anos de pesquisa e reflexão sobre o tema. Iniciei este trabalho de forma autônoma em 1990, quando realizei as primeiras entrevistas e pesquisas em jornais e revistas na Biblioteca Nacional. Na época, eu estudava e trabalhava e tive que realizar a pesquisa nos intervalos entre uma atividade e outra. Por tudo isso, não me foi possível concluir este trabalho em quatro, cinco ou sete anos. Eu estava decidido a publicá-lo apenas quando tivesse todas as respostas para as questões que propus. E assim foi feito, pesquisando todas as fontes possíveis, me infiltrando em todas as coletivas que Roberto Carlos deu ao longo desse tempo. Ao mesmo tempo em que conseguia entrevistas exclusivas com artistas como João Gilberto, Caetano Veloso e Maria Bethânia, tentava um depoimento de Roberto Carlos. Falei com secretários, assessores, empresários, mandei cartas, e-mails. Em 2003 assinei contrato com a Planeta e a editora também tentou por várias vezes que o artista concedesse uma entrevista exclusiva para o livro. Não conseguimos.
IMPRENSA: Qual foi sua primeira intenção ao escrever o livro? Você escolheu o "rei" por ser um fã ou simplesmente por ele ser um personagem interessante, que mereceria ter a história registrada em uma biografia?
Paulo: Este livro nasceu a partir de duas motivações: uma afetiva e outra intelectual. Eu cresci ouvindo canções de Roberto Carlos, pois todos lá em casa eram fãs dele. Mais tarde, quando me interessei pelo estudo da história do Brasil e, particularmente, pelo estudo da história da MPB constatei uma grande lacuna na historiografia: um trabalho que analisasse em profundidade o fenômeno Roberto Carlos: de onde ele veio, como pensa, como construiu sua carreira, qual a sua repercussão, por que ele é chamado de rei? O livro nasceu a partir dessas duas motivações. Ressalte-se, contudo, que não fiz estritamente uma biografia de Roberto Carlos. Ali trato das últimas cinco décadas da cultura brasileira: falo de bossa nova, tropicalismo, jovem guarda, festivais da canção, era do rádio, etc... Enfim, meu livro é um trabalho de pesquisa e reflexão sobre a história da moderna música popular brasileira, tendo Roberto Carlos como fio condutor. A expressão "ensaio biográfico" é mais apropriada para este livro.
IMPRENSA: Acredita que se R.C. autorizasse a publicação de alguma biografia dele, ele supriria determinadas informações que você colocou no livro?
Paulo: É muito provável que sim.
IMPRENSA: Quais informações contidas no livro que vc acha que desagradaram mais a ele?
Paulo: Ele reclama no processo de fatos relacionados à sua vida pessoal, o que corresponde a menos de 10% do conteúdo do livro. O problema é que no caso específico de Roberto Carlos não dá para separar história púbica de história privada porque ambas estão entrelaçadas em sua obra musical. Ele é um artista autobiográfico, pois canta o que vive e o que sente. Como analisar, por exemplo, uma canção como Lady Laura sem falar da relação do artista com sua mãe (vida privada); ou uma canção como Amigo, sem falar de sua amizade com Erasmo Carlos (também vida privada); ou as muitas canções de amor que ele também ofereceu publicamente para as esposas Nice, Myrian Rios e Maria Rita?
IMPRENSA: Por que a editora Planeta não "abraçou" a causa/briga de forma mais contundente? Como foi o acordo?
Paulo: A editora explicou que fez o acordo porque considerou o contexto desfavorável. A justiça brasileira, diferentemente da justiça norte-americana, não privilegia a liberdade de expressão e sim o direito à privacidade. Evocando este direito, Roberto Carlos ingressou com duas ações, uma cível, no Rio, outra criminal, em São Paulo, em ambas pedindo a proibição da venda do livro e indenização por danos. Na ação civil o cantor obteve em caráter liminar uma decisão a seu favor. E o juiz justificou sua decisão evocando o art. 5º, inciso X, da Constituição da República que, segundo ele, determina que para que alguém escreva uma biografia é necessário que obtenha a prévia autorização do biografado. A gota d água, porém, ocorreu naquela fatídica tarde de 27 de abril no fórum da Barra Funda, em São Paulo. O juiz da causa, juntamente com dois promotores, fizeram diversas advertências a mim e aos representantes da editora. O juiz chegou a dizer que fecharia a editora na segunda-feira seguinte, caso o diretor da Planeta, que sequer havia sido citado para aquela audiência, não comparecesse. Os promotores também enfatizaram os riscos de carregarmos um processo criminal nas costas. Enfim, diante desse quadro os advogados da Planeta entenderam que era melhor fazer a tal da conciliação.
IMPRENSA: Sente-se recompensando financeiramente com as vendas? Quantos exemplares foram vendidas?
Paulo: Não sei exatamente quantos livros foram vendidos, pois ainda não foi feita a prestação de contas.
IMPRENSA: Acredita que tenha havido favorecimento na sentença proclamada pelo juiz por tratar-se de uma ação envolvendo o Roberto Carlos?
Paulo: Sem dúvida alguma. Por tudo o que eu já disse e também pelo fato dos processos cível e criminal terem andado muito rápidos. Nós sabemos o quanto a justiça é morosa em nosso país.
IMPRENSA: Qual a avaliação que você faz deste episódio?
Paulo: Tudo isso é lamentável e me deixou muito triste, principalmente por envolver um livro que, na opinião unânime de críticos e fãs, engrandece a vida e a arte de Roberto Carlos. Lamento por mim, pela história, pela justiça, pelo mercado editorial e pelo próprio artista. A essa altura da carreira ele não deveria protagonizar um episódio tão vergonhoso. Destruir livros é barbárie. É um assassinato cultural que nos remete ao nazismo e a tantas outras ditaduras cruéis.
Entre os detalhes tão pequenos de Roberto Carlos, porém, o autor do "ensaio biográfico" - como ele mesmo define sua obra - conta, por exemplo, os pormenores do dia 29 de junho de 1947. Nessa data, o cantor, com apenas seis anos de idade, perdia parte de sua perna direita ao ser atropelado por uma locomotiva em sua cidade natal, Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo.
Tirado de circulação no dia 27 de abril passado, o livro "Roberto Carlos em detalhes", de 500 páginas, terá cerca de 10 mil cópias de seus exemplares reciclados. Um "assassinato cultural", segundo Paulo César.
Confira abaixo a entrevista que o autor cedeu ao Portal IMPRENSA.
IMPRENSA: Como foi o trabalho de pesquisa para a elaboração do livro? Fez alguma entrevista com ele?
Paulo César: Foram 15 anos de pesquisa e reflexão sobre o tema. Iniciei este trabalho de forma autônoma em 1990, quando realizei as primeiras entrevistas e pesquisas em jornais e revistas na Biblioteca Nacional. Na época, eu estudava e trabalhava e tive que realizar a pesquisa nos intervalos entre uma atividade e outra. Por tudo isso, não me foi possível concluir este trabalho em quatro, cinco ou sete anos. Eu estava decidido a publicá-lo apenas quando tivesse todas as respostas para as questões que propus. E assim foi feito, pesquisando todas as fontes possíveis, me infiltrando em todas as coletivas que Roberto Carlos deu ao longo desse tempo. Ao mesmo tempo em que conseguia entrevistas exclusivas com artistas como João Gilberto, Caetano Veloso e Maria Bethânia, tentava um depoimento de Roberto Carlos. Falei com secretários, assessores, empresários, mandei cartas, e-mails. Em 2003 assinei contrato com a Planeta e a editora também tentou por várias vezes que o artista concedesse uma entrevista exclusiva para o livro. Não conseguimos.
IMPRENSA: Qual foi sua primeira intenção ao escrever o livro? Você escolheu o "rei" por ser um fã ou simplesmente por ele ser um personagem interessante, que mereceria ter a história registrada em uma biografia?
Paulo: Este livro nasceu a partir de duas motivações: uma afetiva e outra intelectual. Eu cresci ouvindo canções de Roberto Carlos, pois todos lá em casa eram fãs dele. Mais tarde, quando me interessei pelo estudo da história do Brasil e, particularmente, pelo estudo da história da MPB constatei uma grande lacuna na historiografia: um trabalho que analisasse em profundidade o fenômeno Roberto Carlos: de onde ele veio, como pensa, como construiu sua carreira, qual a sua repercussão, por que ele é chamado de rei? O livro nasceu a partir dessas duas motivações. Ressalte-se, contudo, que não fiz estritamente uma biografia de Roberto Carlos. Ali trato das últimas cinco décadas da cultura brasileira: falo de bossa nova, tropicalismo, jovem guarda, festivais da canção, era do rádio, etc... Enfim, meu livro é um trabalho de pesquisa e reflexão sobre a história da moderna música popular brasileira, tendo Roberto Carlos como fio condutor. A expressão "ensaio biográfico" é mais apropriada para este livro.
IMPRENSA: Acredita que se R.C. autorizasse a publicação de alguma biografia dele, ele supriria determinadas informações que você colocou no livro?
Paulo: É muito provável que sim.
IMPRENSA: Quais informações contidas no livro que vc acha que desagradaram mais a ele?
Paulo: Ele reclama no processo de fatos relacionados à sua vida pessoal, o que corresponde a menos de 10% do conteúdo do livro. O problema é que no caso específico de Roberto Carlos não dá para separar história púbica de história privada porque ambas estão entrelaçadas em sua obra musical. Ele é um artista autobiográfico, pois canta o que vive e o que sente. Como analisar, por exemplo, uma canção como Lady Laura sem falar da relação do artista com sua mãe (vida privada); ou uma canção como Amigo, sem falar de sua amizade com Erasmo Carlos (também vida privada); ou as muitas canções de amor que ele também ofereceu publicamente para as esposas Nice, Myrian Rios e Maria Rita?
IMPRENSA: Por que a editora Planeta não "abraçou" a causa/briga de forma mais contundente? Como foi o acordo?
Paulo: A editora explicou que fez o acordo porque considerou o contexto desfavorável. A justiça brasileira, diferentemente da justiça norte-americana, não privilegia a liberdade de expressão e sim o direito à privacidade. Evocando este direito, Roberto Carlos ingressou com duas ações, uma cível, no Rio, outra criminal, em São Paulo, em ambas pedindo a proibição da venda do livro e indenização por danos. Na ação civil o cantor obteve em caráter liminar uma decisão a seu favor. E o juiz justificou sua decisão evocando o art. 5º, inciso X, da Constituição da República que, segundo ele, determina que para que alguém escreva uma biografia é necessário que obtenha a prévia autorização do biografado. A gota d água, porém, ocorreu naquela fatídica tarde de 27 de abril no fórum da Barra Funda, em São Paulo. O juiz da causa, juntamente com dois promotores, fizeram diversas advertências a mim e aos representantes da editora. O juiz chegou a dizer que fecharia a editora na segunda-feira seguinte, caso o diretor da Planeta, que sequer havia sido citado para aquela audiência, não comparecesse. Os promotores também enfatizaram os riscos de carregarmos um processo criminal nas costas. Enfim, diante desse quadro os advogados da Planeta entenderam que era melhor fazer a tal da conciliação.
IMPRENSA: Sente-se recompensando financeiramente com as vendas? Quantos exemplares foram vendidas?
Paulo: Não sei exatamente quantos livros foram vendidos, pois ainda não foi feita a prestação de contas.
IMPRENSA: Acredita que tenha havido favorecimento na sentença proclamada pelo juiz por tratar-se de uma ação envolvendo o Roberto Carlos?
Paulo: Sem dúvida alguma. Por tudo o que eu já disse e também pelo fato dos processos cível e criminal terem andado muito rápidos. Nós sabemos o quanto a justiça é morosa em nosso país.
IMPRENSA: Qual a avaliação que você faz deste episódio?
Paulo: Tudo isso é lamentável e me deixou muito triste, principalmente por envolver um livro que, na opinião unânime de críticos e fãs, engrandece a vida e a arte de Roberto Carlos. Lamento por mim, pela história, pela justiça, pelo mercado editorial e pelo próprio artista. A essa altura da carreira ele não deveria protagonizar um episódio tão vergonhoso. Destruir livros é barbárie. É um assassinato cultural que nos remete ao nazismo e a tantas outras ditaduras cruéis.






