Resenha: O rei e o embaixador, por Rodrigo Manzano

Resenha: O rei e o embaixador, por Rodrigo Manzano

Atualizado em 27/06/2006 às 09:06, por Rodrigo Manzano.

Resenha: O rei e o embaixador, por

Por A abertura política na década de 80 permitiu que a imprensa brasileira inscrevesse o leitor como consumidor de um produto. O leitor era (ou devia ser) o rei. E, quando a Folha cria seu cargo de ombudsman, envia um embaixador do leitorado a um território de inimigos. A história, já contada por Caio Túlio Costa em 1991, é relançada pela Geração Editorial, em versão ampliada e atualizada.

Caio Túlio Costa é um jornalista que experimentou as fronteiras de dois tempos da imprensa brasileira, ao longo de sua trajetória profissional. Recolheu os entulhos da repressão militar e vivenciou a abertura, foi um dos atores protagonistas da digitalização no país, com a criação do UOL, do qual fundador e diretor presidente entre os anos de 1996 e 2002. No entanto, a mais reconhecida ação de Costa na imprensa brasileira foi o de ter inaugurado o posto de ombudsman na Folha de S.Paulo , em setembro de 1989. Com sua função, situou-se entre outras dois territórios históricos: a imprensa minimamente engajada a favor da democracia e a apreensão dos proprietários dos meios de comunicação brasileiros de que a abertura política exigia novos modelos editoriais e de gestão. O cargo de ombudsman surge neste contexto de transição.

Entre os anos de 1989 a 1991, Caio Túlio Costa precisou adaptar o conceito sueco de ouvidor à realidade das redações brasileiras, em que a profissão de jornalista e o papel do jornalismo foram sendo acrescidos, ao longo dos anos, de uma notada subjetivação. Em outras palavras: o jornalista sempre acredita ser mais do que é, de fato. E, nesse sentido, alguém que fosse pago para apontar os erros e deslizes do veículo certamente atingiria os tiros a quem escreve as notícias. Estava criado o caldo que deu origem a várias polêmicas durante o mandato de Costa no cargo de ombudsman.

Essa sua experiência foi publicada em livro pela primeira vez em 1991, logo após terminar os dois anos em que esteve à frente da função. Rapidamente a edição se esgotou e, neste ano, o livro "Ombudsman - O relógio de Pascal" volta às livrarias não apenas para atender às demandas insatisfeitas com a fato de que a edição se esgotou como também para atualizar e amplias as informações sobre a função nestes últimos 15 anos na Folha.

O livro tornou evidente os bastidores das tumultuadas relações entre os leitores, jornalistas e o próprio ombudsman - a polêmica com Paulo Francis e a história do leitor insatisfeito porque uma pergunta cujo tema era a passagem do finito ao infinito, endereçada ao editor de Ciência, não havia sido respondida são os pontos alto do livro. Sob um outro ponto de vista, a experiência de Costa nos fornece subsídios para compreender a maneira como a imprensa precisou tornar-se, de certa maneira, articulada com leis que ultrapassavam as maniqueístas dualidades verdade/mentira e interesse público/interesse privado, inscrevendo, entre esses pares de oposição, a figura de um leitor que é, antes de mais nada, consumidor. E, como consumidor, seus desejos e necessidades devem ser, pelo menos segundo os princípios do capitalismo mais eficiente, senão atendidos, considerados.