Racismo?: Polícia investiga incêndio criminoso em alojamento de estudantes africanos na UNB, em Brasília

Racismo?: Polícia investiga incêndio criminoso em alojamento de estudantes africanos na UNB, em Brasília

Atualizado em 29/03/2007 às 16:03, por Redação Portal IMPRENSA*.

Racismo?: Polícia investiga incêndio criminoso em alojamento de estudantes africanos na UNB, em Brasília

Foto: Estudantes da Unb durante reunião com o reitor Timothy Mulholland. Crédito: Unb Agência

Na madrugada desta quarta-feira (28/3), um incêndio atingiu quatro apartamentos de um alojamento da Universidade de Brasília (Unb), onde moram estudantes africanos. Suspeita-se de incêndio criminoso porque foram encontradas toalhas encharcadas com gasolina nas portas dos apartamentos. Ninguém se feriu.

Na última quinta-feira (29/03), deputados da Comissão de Relações Exteriores forma à universidade para acompanhar as investigações sobre o incêndio ocorrido na Casa do Estudante Universitário (CEU), nome dado ao alojamento da instituição. Existe a possibilidade de ter sido um ato de racismo.

A Polícia Federal (PF), responsável pelas investigações, afirma que ainda não é possível confirmar que os incêndios tinham a intenção de ferir ou matar os moradores dos apartamentos queimados. Em entrevista coletiva na quarta-feira, o delegado Francisco Serra Azul, da Delegacia de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente e o Patrimônio Histórico (Delemaph), disse que já foram coletadas as impressões digitais no local do crime, bem como o material inflamável utilizado para atear fogo às portas dos dormitórios. O prazo para a divulgação do laudo oficial não foi estipulado.

Se a intenção de matar for comprovada, a pena dos culpados poderá aumentar. "A investigação se inicia com um fim: investigar os danos ao patrimônio. Isso não quer dizer que ela não pode terminar de uma outra maneira", afirmou o delegado.

Alguns moradores da CEU e testemunhas já foram entrevistados por agentes federais sobre os acontecimentos e devem ser convocados para depor nos próximos dias. "Temos mais de um suspeito, mas não podemos precisar esse número por enquanto", afirmou Serra Azul. "Não temos pressa para apontar culpados. É preciso seguir com as investigações com calma", ressaltou.

O delegado disse que também não se pode garantir que os autores do crime sejam estudantes da UnB. Caso sejam descobertos, os culpados pelo incêndio serão enquadrados no artigo 250 do Código Penal, que prevê pena de três a seis anos de reclusão por "causar incêndio, expondo a perigo a vida, a integridade física ou o patrimônio de outrem". "Como a Casa do Estudante é patrimônio público, o crime se torna duplamente qualificado, o que aumenta a pena para um período de cinco a dez anos de reclusão", detalha o delegado.

Reitoria

Em resposta, o reitor da Unb, Timothy Mulholland, recebeu os estudantes africanos e outros alunos no gabinete no início da tarde de ontem. Mulholland ouviu as demandas do grupo (cerca de 30 pessoas), e se comprometeu a fomentar o debate contra o racismo dentro da instituição.

Foi definida na reunião - que durou quase duas horas - a criação de um Programa de Combate ao Racismo e Xenofobia Institucional. Segundo a assessoria de imprensa da universidade, o programa pretende "conscientizar a comunidade acadêmica sobre a importância da vinda de jovens de outros países para a UnB e da ação apara promover a tolerância entre raças e nacionalidades diversas".

Como medida emergencial, os estudantes vítimas do atentado serão transferidos para outros imóveis da instituição.

Atualmente, cerca de 100 estudantes estrangeiros da África e da América do Sul estudam hoje na UnB. Através do Programa de Estudantes Convênio (PEC), que funciona tanto na graduação quanto na pós, entre 15 e 20 novos alunos, com proficiência em Língua Portuguesa, ingressam na UnB todos os anos.

Segundo informações do site da instituição, a UnB passou a fazer parte desse programa no início dos anos 1990. A seleção é feita pela embaixada brasileira nos países natais dos estudantes por meio de provas e entrevistas. São reservadas 5% das vagas na CEU para estudantes estrangeiros. O convênio favorece as relações diplomáticas brasileiras com os países que enviam seus estudantes

Manifestação

Cerca de 300 estudantes de vários cursos da UnB se reuniram na tarde de ontem (28/03) na frente do C.A.(Centro Acadêmico) do Departamento de Sociologia para uma manifestação contra o incêndio criminoso nos apartamentos da Casa do Estudante Universitário.

Em entrevista à UNB Agência, a estudante do 7º semestre de Sociologia, Mbalia Queta, 28 anos, presente à manifestação e uma das vítimas do atentado, diz: "Sou africana e vim para a UnB estudar e não para morrer. Queria que aqui fosse um lugar de paz", afirma.

Queta foi uma das estudantes que tiveram a porta do apartamento incendiada na madrugada de terça para quarta. "Achei que fosse morrer", disse a estudante que, apesar do ocorrido, comemora a solidariedade dos outros alunos da Unb, presentes à manifestação. "Hoje de manhã me senti muito sozinha e perdida em um país estrangeiro. Agora vejo que tenho pessoas com quem posso contar", diz.

O curioso (ou trágico, no caso) é que um dia antes do ocorrido causou muita polêmica a declaração da ministra Matilde Ribeiro (Secretaria de Promoção da Igualdade Racial) à BBC Brasil : "É natural que negros não gostem nem queiram conviver com brancos, embora eu não recomende essa atitude, reconheço como reação natural do açoitado contra aquele que sempre o açoitou".

Clique para assistir um vídeo (produzido por alunos da Unb) que mostra imagens das portas incendiadas e da manifestação.

* Com informações da Agência UNB .