Public Editor: ombudsman do The New York Times se manifesta sobre Judith Miller
Public Editor: ombudsman do The New York Times se manifesta sobre Judith Miller
Atualizado em 24/10/2005 às 18:10, por
Denise Moraes | Redação Portal Imprensa.
Public Editor: ombudsman do The New York Times se manifesta sobre Judith Miller
O ombudsman do NYT , lá conhecido como Public Editor , Byron Calame, dedicou toda sua coluna de ontem sobre o caso da repórter Judith Miller. Para refrescar a memória, Judith é a jornalista que passou 85 dias presa por ter se recusado a revelar o nome de uma fonte. O NYT , jornal onde trabalha, gastou vários editoriais defendendo-a e criticando o sistema judiciário norte-americano. Mais: transformaram Judith em um símbolo da ética jornalística. O problema é que a ética de Miller continha algumas falhas que têm sido reveladas homeopaticamente (enquanto este texto é redigido, provavelmente, já devem ter descoberto alguma nova). Uma delas foi o fato de Judith não ter revelado sequer a seus superiores quem era a sua fonte, a saber, o chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Lewis Libby. Outra, mais grave: no artigo que escreveu para o Times no domingo passado, ela havia jurado de pés juntos que Libby havia condicionado as informações ao seu anonimato. No entanto, Libby declarou que havia autorizado Miller, por escrito, a revelar seu nome.Calame inicia a coluna tentando mostrar descontração com um assunto que tem tirado o sono dos engravatados do jornal, mas, logo no segundo parágrafo, seu texto começa a mostrar a que veio: "as práticas jornalísticas da senhora Miller e dos editores do Times possuíam mais falhas do que eu temia", disse, lamentando o fato de os editores terem transformado em mártir uma repórter cujas atitudes foram questionáveis inclusive em relação a seus superiores. A pior de todas refere-se a uma conversa entre Judith e o promotor público Patrick Fitzgerald. Ao ser perguntada sobre a apuração de uma matéria sobre Valerie Plame, a agente da CIA, ou seu marido, Joseph C. Wilson IV, Miller disse que havia recomendado a sua editora que a história precisava ser apurada, mas recebeu um não como resposta. Jill Abramson, editora de Judith à época, garantiu a Calame: "A senhora Miller nunca me solicitou que apurasse a matéria".
Após esse episódio, não apenas a reputação de Miller foi manchada, como também a do NYT . Para o ombudsman , três fatos preocupantes foram trazidos à tona: primeiro, a demora dos editores em corrigir os problemas causados pela cobertura pré-guerra; segundo, os atalhos jornalísticos utilizados por Judith Miller; e terceiro, o tratamento diferenciado que a repórter recebeu por parte de seus superiores, que falharam ao não investigar a fundo o problema quando ele ainda não era um problema.
Calame ainda aborda os vários artigos publicados por Judith no NYT entre 2002 e 2003, todos sugerindo que Saddam Hussein possuía um arsenal de armas de destruição em massa, o que, se soube depois, era mentira. Na ocasião, Bill Keller, que acabara de assumir como editor executivo do jornal, pediu a Miller que não cobrisse mais assuntos de guerra. No ano passado, antes de o jornal tomar conhecimento de que as acusações sobre o arsenal de armas de Hussein eram falsas, Keller reiterou a recomendação à repórter, com um adendo: Judith não deveria cobrir qualquer assunto relacionado à segurança nacional. No entanto, já era tarde.
É justamente essa demora do jornal em se posicionar que rende as maiores críticas de Calame. O próprio Keller admite que sua demora em responder as críticas a respeito da cobertura pré-guerra feita pelo jornal pode ter contribuído para surpreender negativamente leitores e redação com a forma como o Times protegeu as fontes de Miller em uma investigação falha. "Eu suspeito que nossos críticos - ao menos os honestos - estão bem menos inclinados a suspeitar que, DESTA vez, o jornal estava colocando a defesa de sua repórter acima de seu compromisso com os leitores", desabafou Keller.
Para Calame, "o Times precisa rever as práticas jornalísticas da senhora Miller o mais cedo possível". Ele admite que tanto Bill Keller, o editor executivo, quanto Arthur Sulzberger Jr., publisher do jornal, não se esforçaram muito em investigar os contatos de Judith Miller, nem as versões dadas por ela ao longo de toda a confusão. Ao finalizar a coluna, o ombudsman relata que, em conversa com a repórter, ela lhe disse que pretendia retornar ao jornal após um período de férias.
No entanto, em um tom quase fúnebre, ele finaliza: "Me parece que quaisquer que sejam os limites postos a ela, os problemas que ela encara dentro e fora da redação tornarão bastante difícil seu retorno ao jornal como repórter".
Leia na íntegra (em inglês) a coluna de Byron Calame:






