Pensata: Escrita e violência, por Ivanisa Teitelroit Martins
Pensata: Escrita e violência, por Ivanisa Teitelroit Martins
Atualizado em 25/05/2006 às 09:05, por
Por: Ivanisa Teitelroit Martins*.
Pensata: Escrita e violência, por Ivanisa Teitelroit Martins
Neste artigo exclusivo para o Portal Imprensa, a psicanalista Ivanisa Teitelroit Martins, esposa do jornalista Franklin Martins, faz uma avaliação, do ponto de vista da psicanálise, dos últimos acontecimentos envolvendo seu nome e de seu marido, acusado pelo colunista da Veja, Diogo Mainardi, de fazer tráfico de influência.O mal-estar na cultura que Freud tão bem articulou é vivido no cotidiano das instituições e das estruturas. Pela saturação imaginária, provocada pelas diversas CPIs em curso no Congresso, em que se comete excessos no ato de acusar, em que depoentes já estão condenados por antecipação sem provas, produz-se um ruído de fundo e um rumor de mal-estar transformado em peste moral que cresce sem parar, loucamente, e ameaça, em alguns momentos, destruir tudo e causar a disrupção da razão. Há pelo menos dois tipos de destruição, que não cabe trazer a esta reflexão, mas diferente destes, há a lógica do campo de concentração, exercida com maldade burocrática a frio, construindo o estado de exceção. O extermínio só foi possível porque conduzido pela burocracia, como é, hoje em dia, pela técnica moderna. De um lado o texto impresso que é lento, de outro a velocidade da Internet que ofusca a reflexão, que produz vociferações anônimas. A técnica moderna introduz uma gramática sem discurso e um discurso que pode aniquilar todos os discursos. Instaura-se um tribunal virtual e simulado com poder de disseminação de acusações, apoiadas em supostas informações sobre vínculos de jornalistas a esta ou aquela corrente partidária, como máfia, ou a um partido como organização criminosa. Incrimina-se o próprio ato de pensar ou ter opinião. Pensar, fazer pensar, informar e ter outros que pensam da mesma maneira é mafioso, é promíscuo, é criminoso. "Ser brasileiro é ser moralmente frouxo". "Ser jornalista e ser brasileiro é ser moralmente frouxo". As provas são levantadas junto a outros que são instalados na posição de fontes em off, anônimos detentores da "verdade". Fulano disse e, se foi dito, tudo está provado. O direito de resposta é vedado, o direito à defesa é vedado. A acusação em tempos contemporâneos tem seu efeito instantâneo, enquanto a defesa legal é morosa. A resposta às acusações ou é o silêncio ou a própria defesa de se dizer neutro. Mas nem a neutralidade é imparcial. O efeito é a paralisia da ação política. O resultado é o retrocesso ao campo da ausência da lei ou à violência arbitrária de uma lei - que não é, por certo, a do Estado de Direito -, exercida por um "bando soberano" (Giorgio Agambén).
Algo semelhante ocorre com a palavra e sua relação com o homem que a pronuncia e o homem que a escuta ou a lê atenta ou desatentamente. Como disse Lacan, em um de seus seminários, a palavra pode ser - e de fato é - um câncer: proliferação e multiplicação fulminante, letal. A vitória do resíduo, do detrito pode destruir a ordem social.
*Ivanisa Teitelroit Martins é psicanalista





