O sonho da emancipação do Triângulo, por Luis Felipe Silva - UniUberaba (MG)

O sonho da emancipação do Triângulo, por Luis Felipe Silva - UniUberaba (MG)

Atualizado em 19/06/2006 às 13:06, por Por: Luis Felipe Silva e  estudante de jornalismo da Universidade de Uberada (MG).

O sonho da emancipação do Triângulo , por Luis Felipe Silva - UniUberaba (MG)

O sonho da criação do estado do Triângulo já foi inúmeras vezes manifestado durante a história, e se faz graças ao anseio de sua população em administrar ela própria uma região que sempre foi controlada por terceiros. Até metade do século XVIII o Triângulo fez parte da capitania de São Paulo, sendo que em 1748, foi transferido para Goiás, que também acabava de conseguir a sua emancipação do estado paulistano. O Triângulo só veio a se tornar "mineiro" no ano de 1816, através de um alvará do rei de Portugal D. João VI.

"Percebe-se que ele não entendia nada sobre o país, e muito menos sobre o desenvolvimento regional" comenta o advogado, escritor e historiador Guido Bilharinho, figura que sempre esteve engajada na questão da emancipação da região. "O Triângulo não é paulista, goiano, nem tão pouco mineiro! Esta é uma região singular, cheia de particularidades que nos distinguem destes demais estados" afirma o historiador.

Segundo ele, o triângulo nunca teve, em tempo algum, identificação com os estados a que pertenceu, tendo sido anexado aos mesmos por se tratar de uma região estratégica, no centro de inúmeras passagens e confluências. "Nos primeiros séculos, a questão administrativa poderia justificar a inclusão do território em outras províncias. Hoje, entretanto, nossa região é auto sustentável" explica Guido.

De fato o Triângulo possui uma série de diferenças com o restante do estado de Minas Gerais. Desde a própria distinção geográfica, sem a presença das montanhas que caracterizam o estado mineiro, as diferenças históricas, onde o desenvolvimento da região se fez através do fluxo da imigração São Paulo-Goiás, até as questões culturais, com o Triângulo contando com uma produção cultural totalmente distinta, possuindo até mesmo um sotaque próprio. A criação do estado atenderia assim a necessidade da criação de uma identidade própria do povo triangulino.

Tendo nascido na Zona da Mata, o juiz aposentado e escritor Luiz Manoel Costa Filho veio exercer a profissão no triângulo a mais de quatro décadas, enxergando em Uberaba, uma oportunidade para chegar até Belo Horizonte. O que ele não imaginava é que acabaria se apaixonando pela região, passando a considerar-se um triangulino, chegando a participar ativamente de movimentos para a emancipação da região. "O triângulo é um verdadeiro paraíso, que como todo filho que atinge a maioridade precisa começar a andar com seus próprios passos" pondera.

A luta através da história
A mais de um século e meio a história vem registrando o surgimento de movimentos que reivindicam a criação de um estado triangulino. Considerando que a região só passou a ser mineira há apenas 187 anos, pode-se dizer que o Triângulo sempre quis a sua separação.

A idéia só conseguiu ganhar forma no ano de 1837, através do fazendeiro de Araxá, Fernando Botelho. Entretanto ele não obteve grandes êxitos, e o movimento acabou sendo rapidamente apagado. Em 1875, o médico francês Henrique Des Genettes, que residia em Uberaba, fez através de seu jornal, uma campanha emancipacionista, que teve grande adesão popular, mas, devido ao falecimento de sua esposa, ele decidiu abandonar a causa e se tornar padre, fazendo a campanha extinguir-se.

No ano de 1906, foi criado o "Clube Separatista", que surgiu graças ao inconformismo da população diante da mudança do 2° Batalhão de Polícia para Belo Horizonte, e também da retirada do Instituto de Zootecnia, que também migrou para a capital mineira.

Durante o seu Governo, em 1930, o presidente Washington Luiz até tentou convencer seu ministério a criar o estado do triângulo. Mas, com a entrada de Getúlio Vargas, o movimento ficou sufocado durante os anos do Estado Novo. Na década de 50, o deputado uberabense Mário Palmério, reascendeu a chama do ideal triangulino em sua campanha à Câmara Federal. Após ter sido eleito, fez inúmeros discursos, onde sempre enumerava todas as razões políticas, históricas e constitucionais em prol da criação do estado do Triângulo.

Em 1967, em Uberlândia, foi criada a UDET (União para o Desenvolvimento e Emancipação do Triângulo), que fez uma forte campanha, extremamente organizada, mas que acabou perdendo o fôlego no ano seguinte, em virtude dos acontecimentos políticos no governo federal.

O movimento de 1988
Aproveitando a elaboração de uma nova constituição, várias regiões do país resolveram pleitear a sua emancipação. Entre elas o Tocantins, que teve êxito em suas ambições. Novamente o Triângulo procurava se separar do estado de Minas, desta vez com a mais forte mobilização até então.

Surgiu assim a CET (Coordenação Geral para a Emancipação do Triângulo, coordenada pelo falecido empresário da comunicação Ney Junqueira, tendo como grande expoente o deputado federal Chico Humberto, que agitava a bandeira da causa no congresso. "Certa vez disse ao Chico para não tomar essa bandeira com tamanho empenho, pois ele estava arriscando-se a não conseguir a reeleição, como de fato não conseguiu. Acabamos perdendo a nossa mais importante voz em Belo Horizonte" revela Luiz Manoel, dando a idéia de como era forte a militância por parte do deputado. Chico Humberto esteve engajado de tal forma na luta pela criação do estado que conseguiu trazer todos os deputados do estado para conhecerem a região; percorreu todas as cidades da triângulo, pedindo apoio às suas Câmaras de Vereadore. Além disso, conseguiu reviver entre vários deputados triangulinos, o ideal de conquistar a liberdade da região, através de uma nova frente que com o passar do tempo ficava cada vez mais forte.

A campanha junto à população também foi maciça, contando com as publicações de uma revista mensal com circulação de oito mil exemplars, chamada Revista do Triângulo. Também foram confeccionadas cartilhas para serem distribuídas nas escolas, e anúncios que foram fortemente vinculados na imprensa da região. Chegou-se ao ponto da criação de um código entre os triangulinos. "Bater à porta ou tocar a campainha, tudo deveria ser repetido três vezes" conta Luiz Manoel, batendo em sua mesa desta forma. "Isso era uma alusão ao tri de triângulo", explica.

Os próprios Luiz Manoel e Guido Bilharinho chegaram a se candidatar, com o intuito de usar o tempo eleitoral para difundir o ideal. O primeiro se candidatou a governador, e o segundo a senador do estado de Minas Gerais. "Sabíamos que não seríamos eleitos, mas aquela era uma oportunidade única para divulgar o movimento" relembra o ex-candidato a governador.

Apesar de toda a mobilização em volta da causa, uma vez mais o sonho da emancipação não se concretizou, com os deputados do triângulo perdendo por uma diferença de seis votos na Câmara Estadual. Segundo Luiz Manoel isso aconteceu devido a fortíssima campanha contrária a criação do estado promovida pelo governo estadual. "Nilton Cardoso usou a máquina do governo, e cerca de trinta deputados dos quais contava-mos com o apoio trairam a causa no último minuto" relembra indignado. Guido Bilharinho vai ainda mais longe nas críticas, dizendo que a região só continua ligada a Minas Gerais devido a falta de vontade e determinação dos políticos da região. "Em nome de interesses pessoais, e de favores oferecidos pelo governo estadual, nossos políticos esquecem de lutar por um bem maior, traindo a causa triangulina" exalta.

Para o historiador, o próprio estado de Minas Gerais trái a sua história, negando o direito do Triângulo de se emancipar. "Minas, muito justamente, conseguiu sua emancipação do estado de São Paulo, podendo então desenvolver-se" esclarece, dizendo ainda que aqulele que é contra a emancipação do Triângulo é automaticamente contra a emancipação mineira, visto que ela se deu pelos mesmos motivos.

Os benefícios da separação
A separação do Triângulo do estado de Minas Gerais, traria benefícios para ambas as partes, já que o Triângulo passaria a se auto gerir, e Minas Gerais não teria mais que se preocupar em administrar a região. Luiz Manoel cita como exemplo o estado de Tocantins, que era território de Goiás até 1988. Segundo ele, antes da emancipação não existia nada na região. "Tive oportunidade de ir até o Tocantins antes e depois da emancipação. O desenvolvimento que a separação trouxe para aquela região foi enorme" constata.

Hoje Goiás sobrevive muito bem sem a região. "Para eles também foi um bom negócio, eles jamais voltariam atrás" enaltece o juiz. O advogado Guido Bilharinho diz ainda que os contrastes existentes entre as regiões mineiras, não existiriam caso o estado fosse redividido em unidades de menor área, que administrariam seus recursos onde fossem mais necessários. "Na verdade, a redivisão territorial se mostra necessária em todo o território nacional" completa. Ele explica que a gestão de um território menor é mais fácil, e traz resultados melhores. "Vivemos macaqueando os norte americanos em inúmeros aspectos, mas não copiamos o que eles já mostraram ser bom", observa, citando o exemplo dos Estados Unidos, que tem seu território dividido em cinqüenta estados de dimensões parecidas.

Economicamente a divisão faria com que os impostos arrecadados na região (cerca de 20% do total arrecadado em Minas) sejam aplicados em sua totalidade na região, já que apenas 3% do total arrecadado no estado é aplicado dentro do Triângulo. "Somos colonizados por Minas Gerais! Eles falam de integração, "união mineira", fazem uma campanha para que nos tornemos mineiros, nos incitando a ter orgulho dessa terra, que é totalmente distinta" ataca o historiador, esclarecendo também que não basta o governo de Minas Gerais começar a atender os pedidos da região, visto que este nunca foi o motivo para a emancipação. "Queremos nos auto-gerir!!" explicam Guido e Luiz Manoel. O historiador diz ainda que seria preferível que Minas esquecesse o Triângulo. "Nunca precisamos deles. Nossas relações econômicas com Belo Horizonte são mínimas!" revela.

Os contrários à separação já usaram também como argumento para o fim da campanha, o pretexto de que o Triângulo, como região extremamente rica, deveria ajudar no desenvolvimento das regiões mais pobres do estado, como o Vale do Jequitinhonha. Para Guido, este argumento não é fundamentado em nada. "O responsável por estes desníveis regionais é o próprio estado, além do que, uma região menos desenvolvida não necessita de esmolas, mas sim de políticas públicas que ataquem as causas da pobreza" refuta.

O movimento hoje Se engana aquele que imagina que o movimento de emancipação é uma coisa do passado, a ser tratado apenas em livros de história. Ele ainda está vivo, sem a mesma força de outrora, mas ainda lutando em prol da construção de um estado que atenda aos anseios da grande maioria da população da região.

O ressurgimento do movimento se deu através da Ordem dos Advogados do Triângulo, que lutam agora para conseguir reverter uma lei complementar, votada pela bancada mineira, que regulamenta a convocação de um plebiscito, só que a população interessada passaria a ser a de todo o estado. "Isso é um absurdo! Desta forma nós nunca poderemos ganhar. Só a região de Belo Horizonte possui o dobro dos eleitores do Triângulo. A lei sempre previu que o plebiscito só aconteceria na região emancipanda" comenta Guido, deixando transparecer toda sua decepção com os políticos do Triângulo, que segundo ele, nada fizeram para alertar o movimento sobre esta medida.

O primeiro passo do movimento será entrar junto ao Supremo Tribunal Federal com uma ação direta de inconstitucionalidade, que suspenda a lei complementar, e restabeleça a norma de que a consulta plebiscitária aconteça apenas na região do Triângulo.

O segundo passo seria convocar um plebiscito. Segundo Guido, hoje esta é uma possibilidade concreta, visto que o congresso está mais amadurecido para a causa, e que o movimento já sabe como a bancada mineira age. "Estamos mais preparados", conclui.

O próximo páreo seria o plebiscito. O historiador prevê a vitória, visto que as pesquisas realizadas em 1988, mostraram que 80% da população é a favor da emancipação. Mas, ao mesmo tempo ele reconhece que será um páreo duro, já prevendo a entrada do governo mineiro, e de toda a máquina do estado em uma campanha contrária às pretensões triangulinas.

Em caso de vitória, seria definida como capital provisória a cidade de Araxá, com o Grande Hotel servindo como palácio do governo. Após serem convocadas eleições, começaria então a construção da capital. "Nos nossos planos ela seria a cidade de Nova Ponte, pois além de ser uma cidade planejada, se situa bem no centro do Triângulo, facilitando assim a administração do estado" revela Guido.

Para a construção do palácio do governo Guido diz ser desnecessário utilizar dinheiro da União. "O triângulo é auto sustentável!" ele lembra entusiasmado. A construção seria financiada através do loteamento de terras próximas a sede do governo, que se valorizariam.

Na campanha para emancipação do Triângulo em 88, a CET chegou até mesmo a desenhar uma bandeira para o estado. Para o movimento, o que falta agora é uma nova mobilização em torno da causa por parte da população. "Sabemos que é necessário divulgar o movimento, mas não temos pressa, primeiro precisamos vencer a batalha no congresso" esclarece o advogado, que também explica que o motivo dele não ter pressa nesta campanha, dizendo: - A história do Brasil nos prova que a redivisão é necessária. Ela é inevitável. Pode não acontecer hoje ou amanhã, mas ela tem que acontecer. E acontecerá!