O Pólo Siderúrgico de São Luís, por Ana Viegas, Arthur Quirino, Fernanda Noleto e Rose
O Pólo Siderúrgico de São Luís, por Ana Viegas, Arthur Quirino, Fernanda Noleto e Rose
Atualizado em 21/06/2006 às 10:06, por
Por: Ana Viegas, Arthur Quirino, Fernanda Noleto e Rose Carvalho e estudantes de jornalismo.
O Pólo Siderúrgico de São Luís , por Ana Viegas, Arthur Quirino, Fernanda Noleto e Rose
da Faculdade São Luís (Maranhão)A instalação de uma siderúrgica na ilha de São Luís, tem dividido a opinião de ambientalistas, economistas e empresários maranhenses, desde 2001. A notícia desperta especial interesse nas famílias que vivem no local previsto para a instalação do pólo siderúrgico, a 36 quilômetros de São Luís, capital do estado do Maranhão. As comunidades, a maior parte delas
agrícolas, estão divididas entre a vida sossegada do campo e as dúvidas sobre os benefícios de um projeto industrial tão ambicioso. Exemplos são as comunidades de Rio dos Cachorros e de Cajueiro.
Assim como o debate sobre os impactos ambientais, a discussão sobre os impactos sociais está longe de terminar. O remanejamento das comunidades que vivem da agricultura de subsistência no terreno ambicionado pelo projeto traz dúvidas sobre a dívida sócio-cultural que será gerada pelo empreendimento.
A região compreende onze comunidades: Rio dos Cachorros, Taim, Limoeiro, Porto Grande, Vila Maranhão, Cajueiro, Camboa dos Frades, São Benedito, Coliê, Vila Conceição e Madureira. Um total de 2.472 hectares, onde moram aproximadamente 15 mil pessoas.
Rio dos Cachorros
Cerca de 500 famílias moram na comunidade de Rio dos Cachorros. O local, margeado por manguezais, com uma natureza rica e com terras férteis, é considerado o principal foco de resistência à implantação do pólo siderúrgico.
Há 15 anos no local, a dona de casa Creusa Lima, criou os três filhos na comunidade. Ao falar sobre sua rotina, demonstra como é feliz no local. "Pela manhã meu filho sai para pescar o camarão. Depois do almoço o ônibus vem buscá-lo para ir à escola, na Vila Maranhão. Sobrevivemos da pesca e da agricultura. O dinheiro serve para comprar alguma coisa que está faltando em casa, alguma coisa que a roça não dá. Meus filhos estão acostumados com o local, eles também não querem sair. Aqui, nós temos uma vida feliz, com tranqüilidade".
Na casa de Creusa é forte o cheiro de mandioca. É o sinal que tem casa de farinha por perto. Em um taxo, uma grande panela de aço, num forno a lenha, Raimundo Barbosa, 62 anos, não pode perder o ritmo para mexer a farinha d`água, típica da região. Filho da terra, um dos moradores mais antigos do local, diz que a comunidade está desconfiada. "Já estão fazendo cadastramento dos moradores e muitas pessoas não querem sair do local.
Aqui, nós temos plantações de mandioca, milho e outras hortas. No Rio dos Cachorros só passa fome quem tem preguiça de plantar, de cultivar a roça". A tranqüilidade de poder ter casas com pequenas cercas e dormir com a porta aberta, longe da violência do centro urbano de São Luís, parece seduzir mais do que as promessas de progresso contadas pelos empreendedores do pólo.
Nos banquinhos de madeira da capela da comunidade, colocados embaixo de uma mangueira, os moradores falam sobre o que nunca viram antes - usina siderúrgica é algo novo - mas conhecem muito bem o que vão perder. A novidade do empreendimento e as participações nas audiências públicas que tratam da implantação do pólo resultam em um "jornal falado" direcionado para a comunidade, que ganha nova edição a cada reunião.
"Não somos técnicos e por isso, durante as audiências, o pessoal do Pólo tenta nos desvalorizar sugerindo que não entendemos o que eles estão falando. O que sabemos é que 130 nascentes e 30% dos manguezais serão afetados com a instalação, do mesmo jeito que o solo arenoso e o lençol freático. Não somos contra o desenvolvimento da ilha de São Luís, mas queremos que o projeto vá para um lugar mais apropriado, onde a instalação não cause tantos prejuízos", diz a líder comunitária Maria Máxima Pires, 46 anos, com a convicção de que a imprensa também não ajuda no papel de esclarecer a população. "Os jornais não tem mostrado a realidade", conclui. E só na cidade de São Luís há oito jornais diários.
Cajueiro
Em Cajueiro é grande o clima de expectativa para a instalação do pólo. Os moradores acreditam que a vinda da gigante do aço chinesa, a corporação Shanghai Baosteel Group, a principal responsável pelo empreendimento, irá proporcionar melhores condições de vida.
O projeto é colossal. Resultado da parceria do Governo do Estado do Maranhão, Prefeitura de São Luís, Companhia Vale do Rio Doce e as multinacionais Posco (sulcoreana), Arcelor (européia) e Baoosteel (chinesa), o projeto prevê, de acordo com o Governo do Estado, um investimento de US$1,5 bilhão e a geração de 15 mil empregos diretos em sua fase de
construção.
Sua concretização consiste na instalação de três siderúrgicas de grande porte e duas gusarias, com capacidade de produção de 24 milhões de toneladas de aço por ano. Isto significa um acréscimo de 70% na produção atual do país. Os números, além de movimentarem a economia do país, alimentam também os sonhos dos humildes habitantes da comunidade de Cajueiro.
Vivendo de uma economia basicamente agrícola. As cerca de 400 famílias que vivem no local, se encantam com as propostas fabulosas de empregos e bons salários. Proprietário de um pequeno comércio, Francisco das Chagas, uma
das lideranças comunitárias, tenta explicar porque a maioria dos moradores é a favor da implantação do pólo, "a siderúrgica vai gerar muitos empregos a começar na própria área, Tinaí, para onde as famílias serão remanejadas.
Vão diferenciar as funções para construir as casas populares. Então, irão contratar pedreiros, encanadores, eletricistas, muitas pessoas serão beneficiadas", argumenta.
Diferente da situação de Rio dos Cachorros, em Cajueiro existem poucas plantações, apesar das condições para agricultura serem semelhantes nas duas regiões. Os moradores sobrevivem fazendo diversos trabalhos, mas não trabalham com a terra.
Eunice Araújo, uma das lideranças comunitárias, acredita que a mão-de-obra local será qualificada para poder trabalhar na indústria. "Com uma promessa dessas não podemos dizer que não aceitamos. Pretendemos melhorar de vida e o local para onde vamos é muito bom", diz Eunice. Nem mesmo o lixão que fica próximo à área do remanejamento a desencoraja.
A instalação do pólo siderúrgico depende de vontade empresarial e política, investimento e liberação das licenças específicas para esse tipo de empreendimento. Inicialmente, a data prevista, pelo governo do estado do Maranhão, para o início das obras de construção do pólo seria ainda este ano, mas acredita-se que em 2006, ano eleitoral, o governo optará por deixar o empreendimento quieto. O projeto é controverso. E as informações sobre ele ainda não estão à disposição, nem mesmo de jornalistas. Não sobram dúvidas quanto aos benefícios econômicos, mas há uma conta, cara, a ser paga do ponto de vista sócio-ambiental. E é bom que se lembre: alguém sempre paga o jantar.






