O amor está... Nas ruas, por Leandro Conceição e Jaqueline Máximo - UNIP/SP
O amor está... Nas ruas, por Leandro Conceição e Jaqueline Máximo - UNIP/SP
Atualizado em 19/06/2006 às 12:06, por
Por: Leandro Conceição e Jaqueline Máximo e estudante de jornalismo da Universidade Paulista.
O amor está... Nas ruas , por Leandro Conceição e Jaqueline Máximo - UNIP/SP
"A gente não só é feliz quando tem casa e dinheiro. Mesmo morando no albergue, nos amamos. Não temos nada, dormimos separados, mas nos amamos e isso é o principal e é mais importante do que qualquer casa, sexo ou dinheiro". Assim Deusdete de Almeida Santana da Silva, 43, define sua vida ao lado do marido José Santana da Silva Filho, 46, que completa: "Nunca deixo de demonstrar meu amor por ela, sempre digo o que sinto, dou flores... Principalmente agora, no dia dos namorados, pra mim o mais importante é o amor e a união, ela está do meu lado na alegria e na tristeza".José veio a São Paulo visitar um primo que morava em uma pensão no bairro do Jabaquara. Quando viu Deusdete, que morava na mesma pensão, logo se apaixonou: "Foi amor à primeira vista, tinha vindo à cidade somente a passeio, mas depois que a conheci acabei ficando". Ele era viúvo pai de dois filhos e ela divorciada do marido (que a trocou por outra mulher). Juntos, os dois decidiram enfrentar os desafios da vida e foram morar em casas alugadas, pensões... Dois anos depois se casaram no civil.
No inicio os filhos, já crescidos e com família, não aceitaram a relação, mas hoje não vêem problemas: "A gente até entende, ninguém quer ver outro homem com sua mãe ou outra mulher com seu pai, mas com o passar do tempo eles começaram a aceitar". Quando vão visitar os filhos José e Deusdete escondem a situação atual: "Se perguntam onde moramos, dou um falso sorriso e digo que estamos em uma casa alugada ou pensão e que está tudo bem. Eles também nunca se ofereceram para uma visita", afirma Deusdete.
Mais difícil do que enfrentar o despejo da pensão, foi não verem outra saída além das ruas. "Dormimos um mês nas ruas, na porta de um banco. Ali víamos as dificuldades que as pessoas encontravam. Nas ruas os grandes problemas são a bebida e as dificuldades que fazem com que os próprios moradores queiram tirar vantagens uns dos outros, você pode dormir com um cobertor e acordar sem. Sem contar que as pessoas ficam sujeitas à friagem e doenças".
Há alguns meses, eles descobriram os albergues como saída, já passaram por vários. Hoje estão alojados no Albergue São Francisco, que fica na Baixada do Glicério. Todos os dias os dois saem pela manhã, passam o dia nos faróis da cidade vendendo balas e retornam ao albergue para jantarem e dormir, cada um em um quarto, pois o albergue não permite que casais durmam juntos. "Esta é uma forma de proteger o próprio casal, assim evitamos uma série de problemas, além disso, aqui não é um local de diversão e nem de permanência, a intenção é que as pessoas usem o albergue para adquirir condições de voltar a ter uma vida normal, mas existem albergues que têm quartos para casais", declarou Luiz Antônio, o assistente social do albergue.
O casal faz questão de demonstrar o amor que sente um pelo outro: "Sinto muito amor e carinho por ele. Peço muito a Deus que continue iluminando nosso caminho", diz ela. "Eu a amo, ela é tudo na minha vida, sou muito feliz com ela. Já tive quatro mulheres, mas com ela me casei e quero passar o resto da minha vida ao seu lado, não importa como e onde", diz ele.
O casal tem muita fé em Deus. Ele é evangélico e ela católica. "Isso não faz diferença, um dia vamos a igreja dele, outro dia na minha... O importante é ter Deus no coração, Ele é por nós", diz ela. Segundo Luiz Antônio, assistente social do Albergue São Francisco, a fé que o casal tem é algo que muitas vezes as pessoas em situação de rua deixam de ter, "Devido a tudo que enfrentam, muitas pessoas nessa situação deixa de acreditar em Deus", diz ele.
No futuro, o casal planeja sair das ruas. José quer comprar um terreno e voltar a ser marceneiro para que a mulher possa ficar em casa, ou trabalhar com ele. Deusdete sonha junto com o marido: "Quero ter uma casa, mesmo que seja um barraco. Creio muito em Deus, as coisas não acontecem em um passe de mágica, temos que ter fé e acreditar, com certeza Ele vai nos ajudar".
No amor a única família
O dia dos namorados não foi esquecido por Paulo César de Souza, 24, e Vanderléia Ângela de Azevedo, 35. "Não comemoramos como queríamos, mas não deixamos passar em branco. Mesmo que seja um bombom, não deixo de dar um presente no Dia dos Namorados e nas datas especiais", diz Paulo.
Há quatro anos Paulo e Vanderléia se conheceram em uma "balada" em São Paulo. Ele morava com amigos e ela com a família. "Ele deixou os amigos e eu a família para ficarmos juntos", diz Ângela. Ambos enfrentavam problemas familiares. Paulo, filho adotivo de uma família do interior, se sentiu forçado a sair de casa quando completou 18 anos: "Quando fui dispensado do exército minha mãe disse que estava na hora de eu trabalhar e seguir minha vida, ela praticamente me mandou embora. Vim para São Paulo e fiquei seis meses morando com uma irmã, depois fui morar com amigos até conhecê-la". Já Vanderléia prefere não falar sobre o assunto: "Coisas ruins eu quero esquecer, eu só quero pensar em coisas boas daqui para frente". Um não conheceu a família do outro.
Juntos, foram morar em um quarto alugado no bairro Santa Cecília. Há um ano, quando Paulo perdeu o emprego de descarregador de caminhões no Ceasa, o casal acabou sendo despejado. Sem contato com família ou alguém que pudesse ajudar não viram outra saída: tiveram que ir morar nas ruas. E esse não era o único problema, na época do despejo Vanderléia estava grávida. O bebê, uma menina, nasceu com problemas de saúde e acabou morrendo de pneumonia quatro meses depois. "É complicado estar grávida sem ter o que comer, sem condições de manter uma gravidez saudável", diz Vanderléia, hoje grávida de quatro meses enquanto acaricia sua barriga e completa: "Mas nosso bebe está de volta".
O casal, que há cerca de um mês está no Albergue São Francisco, todos os dias acorda por volta das 6:30h da manhã. Após o café da manhã - um pão com manteiga e café puro ou com leite, fornecidos pela instituição -, Paulo sai à procura de emprego e Vanderléia fica no albergue: "Aqui eu lavo nossas roupas, arrumo a cama dele e a minha...". Quando não consegue nenhum "bico", Paulo retorna na hora do almoço, mas, ao contrário de Vanderléia não almoça, pois a refeição é servida somente para pessoas em condições especiais como gestantes e idosos. Adultos tomam café da manhã e jantam, geralmente arroz, feijão e mistura, quase sempre o mesmo prato servido no almoço. O casal passa a tarde junto na praça localizada próxima ao albergue, no bairro do Glicério. Como todos os casais que a instituição abriga, Paulo e Vanderléia dormem em quartos separados. "Aqui podemos ter casos de prostituição, maridos ciumentos, homens que podem cobiçar a mulher do próximo... Não é que a gente veja as pessoas como assexuadas, é uma forma de manter o controle", afirma Luiz Antonio, assistente social do Albergue São Francisco.
Um futuro melhor em um lar é o que o casal deseja: "Imaginamos nosso futuro em um lar, nós dois trabalhando, tendo uma vida digna com nossos filhos estudando para nunca terem que passar o que a gente está passando. Queremos um dia lembrar do que enfrentamos hoje e sentir orgulho por ter superado". Paulo, que parou de estudar na 8º série do ensino fundamental também tem planos de completar os estudos: "Quem sabe um dia eu não faço um curso superior?". Se depender do amor que sentem um pelo outro, os planos para o futuro estão garantidos: "Paulo é minha única família, amo muito ele, não tem como explicar", diz Vanderléia, "Eu a amo, descobri que não posso mais viver sem ela", completa Paulo. Serviço:
O albergue São Francisco está localizado na Baixada do Glicério, Centro de São Paulo e abriga cerca de 450 pessoas.
Telefone: 3208 - 3301
E-mail: albergue@franciscanos.org.br
Para mais informações sobre albergues ou moradores de rua:
Associação Viva o Centro
Site: www.vivaocentro.com.br
Telefone: 3106 - 8205






