Nem choro, nem vela | por: Júlia Capovilla - UNISINOS (RS)
Nem choro, nem vela | por: Júlia Capovilla - UNISINOS (RS)
Atualizado em 24/02/2006 às 10:02, por
Por:Júlia Capovilla estudante do 5° semestre de Jornalismo daNISINOS (RS).
Nem choro, nem vela | por: Júlia Capovilla - UNISINOS (RS)
Por:Júlia Capovilla estudante do 5° semestre de Jornalismo daNISINOS (RS) É muito fácil encontrar quem os denomina de "Papa defunto", "Corvo" ou "Urubu". Mas basta precisar de seus serviços, que as impressões acabam mudando. O agente funerário Guaraci Machado, 48 anos, sabe muito bem disso. Há trinta anos no mercado, Machado, como é conhecido pelos colegas do ramo, se diz satisfeito com o que faz. "O que me motiva é o reconhecimento pelo nosso trabalho", diz. "O preconceito com a profissão é grande, acham que a gente está louco para que alguém morra, mas depois que precisam de nós a coisa muda de figura. Há famílias que voltam aqui para agradecer", orgulha-se Machado.Durante as 24 horas do dia, Machado e seu filho Marcelo, de 18 anos, se revezam para receber os clientes na funerária Leopoldense, uma loja simples localizada em frente ao hospital Centenário, em São Leopoldo. O lugar é estratégico, mas Machado garante que não faz plantão na porta do hospital. "Já fiz muito isso, mas acho errado.
Antigamente um representante de cada funerária fazia plantão uma vez por semana em frente aos hospitais da cidade. "Cheguei a pegar 13 óbitos num só dia. Mas agora veio uma lei que proíbe esta prática", comenta Machado. Segundo ele, a atividade foi vetada pela justiça porque violava o direito de escolha do consumidor. "As pessoas ficam muito fragilizadas quando morre alguém que lhes é querido e a maioria acabava contratando o serviço que lhes aparecia pela frente", conta.
Ganhando a vida com a morte
Mas não se pode negar que o mercado funerário é um excelente negócio. Há 17 anos, Machado comprou a Funerária Leopoldense. Com ela conseguiu criar os quatro filhos, sustentar a mulher e construir a casa própria, localizada atrás da loja. Antes de ser dono da funerária, possuía uma revendedora de carros. Descobriu o filão quando foi trabalhar como administrador financeiro na funerária de um amigo. "Vi que o negócio era lucrativo, apesar de não fazer meu trabalho pensando só no dinheiro", ressalta.
Conforme a tabela de Machado, um funeral médio, com caixão, capela, coroa de flores simples e cemitério, não sai por menos de mil Reais. O preço da urna mais simples é 250 Reais, a mais cara chega a custar 10 mil Reais e o caixão mais vendido está na faixa de 600 Reais. "Quando vejo que a família é muito humilde, faço todo a cerimônia de funeral por 400 reais, em quatro vezes. Não acho justo que alguém não tenha condições de morrer dignamente", afirma. "Mas infelismente não posso deixar de cobrar, pois, por pior que pareça é a mais pura verdade: eu ganho a vida com a morte".
Além da funerária, Machado possui ainda um atacado de urnas no centro da cidade e pretende abrir uma sala de Tanatopraxia, nome dado às atividades de preparação do corpo antes de ser enterrado: tamponamento das vias respiratórias, restauração facial e até vestuário e maquiagem. E os negócios prosperam. A média de óbitos mensais na cidade de São Leopoldo é de 150 pessoas.
A funerária Leopoldense recebe de 15 a 20 pessoas por mês. Segundo o proprietário, há épocas do ano que esses números aumentam. "No inverno morre mais idosos por causa de problemas respiratórios agravados com as baixas temperaturas", diz. "Também, em datas comemorativas, como Natal, Ano-Novo e Carnaval, temos uma crescente nas mortes, principalmente por causa dos acidentes de trânsito", afirma.
Negócios, negócios. Sentimentos à parte
Porém, engana-se quem pensa que a morte não o comova mais. Machado diz que sua relação de incorfomidade com a morte não mudou em todos esses anos de profissão. "Ainda me emociono em situações de perda, mesmo quando estou trabalhando. Sou evangélico e o que me conforta perante a morte é a fé que tenho em Deus", confessa. A cena que mais lhe marcou aconteceu no enterro de uma jovem, que havia deixado órfã uma menina de aproximadamente cinco anos. "A filha ficava agachada embaixo do caixão, chorando e gritando para ir embora junto com a mãe", emociona-se.
Contrariando a crença popular, Machado afirma que nunca lhe ocorreu episódios sobrenaturais. "Quando as pessoas dizem que viram um defunto piscar, mexer as mãos ou emitir algum som é verdade, mas isso não tem nada a ver com "outro mundo". São reações musculares naturais do corpo humano, uma descarga elétrica ou algum reflexo do sistema motor", explica. O agente funerário diz que já viu alguns mortos vomitarem, flatularem e até arrotarem. "Uma vez fui pegar o corpo de uma senhora idosa, em Caxias do Sul, e senti a mão dela se mexendo. Cheguei a pensar que ela não estava morta, então abri seus olhos e peguei em seu pulso para ter certeza do óbito", admite.
Machado pensava, quando entrou no ramo, que lidar com os mortos era mais fácil que com os vivos. Mas havia controvérsias. "Eu achava, como todo mundo diz por aí, que morto não reclama nem traz problema. Mas às vezes eles dão até mais trabalho que os vivos", admite. Ao ser contratado para os serviços funerários em Capela Santana, cidade do interior do Estado, Machado teve uma surpresa: o morto pesava 250 quilos. O agente teve que providenciar um caixão sob medida e derrubar a parede da casa para retirar o corpo. "Ainda bem que a casa era de madeira. Cerramos as tábuas e arrastamos a urna até o carro", conta.
Infelizmente presenciou também casos de desentendimento na família por causa de heranças ou bens deixados. "Essa eu vou ter que contar pra vocês: teve o caso de uma família que brigou por causa de um Corcel vermelho, ano 1971. O genro e o filho do morto se pegaram à socos e pontapés dentro do necrotério, sobre o corpo", diverte-se.
Para que casos como o do senhor obeso não voltassem a acontecer, os fabricantes de urnas funerárias resolveram padronizar as medidas. Hoje em dia, as mais usadas medem 1,90 de altura. Mas há casos especiais, como ataúdes para crianças, que medem a partir de 50cm e são pintados de branco. "Antigamente medíamos o corpo com trena. A padronização nos livrou desta tarefa", comenta o agente.
Rotina
Para muitos, a profissão escolhida por Machado parece ser pouco convencional, mas ele afirma que possui uma rotina diária bem definida. "Essas histórias que eu contei são esporádicas. Na maioria das vezes faço sempre as mesmas coisas. Minhas atividades são burocráticas e às vezes penso que estou em um escritório qualquer", conta.
O procedimento é sempre o mesmo, independente de como a pessoas morreu ou quanto seus familiares estão dispostos a desembolsar. Primeiro o agente os recebe e os entrevista brevemente. Procura saber as causas da morte, se a vítima estava em casa ou no hospital, e se os familiares já providenciaram a capela e o cemitério. Depois, providencía o atestado de óbito para a liberação do corpo e mostra as opções de funerais existentes.
O escritório onde Guaraci Machado recebe os clientes é simples e acolhedor. Há calendário, relógio e fotos de crianças pelas paredes. "É um lugar aconchegante. Por incrível que pareça, as pessoas quando vêm aqui se sentem bem", afirma. Mas apesar da hospitalidade, Machado diz que há um coisa que jamais poderá dizer a quem o procura, por mais satisfeito que o cliente esteja com s seus serviços: volte sempre!






