Monjolos sob nova direção, por Paulo Gannam

Monjolos sob nova direção, por Paulo Gannam

Atualizado em 22/08/2006 às 16:08, por Paulo Gannam e  aluno do 4º ano de Jornalismo da Universidade de Taubaté.

Monjolos sob nova direção, por Paulo Gannam

Com a promessa de geração de empregos, empresas interferem no cenário econômico e ambiental da zona rural de São Luiz

O agricultor Pedro Moreira dos Santos se orgulha ao dizer que criou 10 filhos com o leite e a farinha produzidos em uma pequena propriedade rural no bairro dos Alvarengas, município de São Luiz do Paraitinga (SP), a 186 km de São Paulo. Hoje, viúvo, o proprietário do Sítio São Vicente de Paula mantém o pomar, cuida do gado e lamenta o empobrecimento da produção de farinha que, há décadas, proporcionou a subsistência da família, além de novos investimentos.

A 12 km da zona urbana, com a voz e as feições de quem já viveu 60 anos trabalhando na roça, Seu Pedro reclama das conseqüências que a exploração dos recursos naturais da região lhe causou. "Toda minha produção era baseada na circulação da água da mina que movia os monjolos. Eu vendia para Pinda, Ubatuba e Taubaté. Agora, só funciona com luz, tem mais custo."

Boa parte dos agricultores, pecuaristas e empregados da zona rural de São Luiz migrou para a cidade à procura de oportunidades, mas muitos estão sem emprego. "Eram 180 famílias. Hoje, só têm mais algumas ali em cima. Fiquei porque não gosto da cidade." O lavrador atribui o êxodo rural e a redução dos níveis dos poços artesianos à presença de empresas de celulose na região. "Todos estão insatisfeitos com esses grandes plantadores de eucalipto porque hoje é mais difícil se manter."

Em 2004, Seu Pedro e outros moradores apoiaram o projeto de lei do então vereador Marcelo Toledo (PT), que proibia o plantio do eucalipto em novas áreas, restringindo a ação das empresas. A proposta teve aprovação unânime da Câmara, mas, com o veto do prefeito Danilo Mikilin (PSDB) e a anuência do legislativo, nada mudou.

A justificativa do projeto aponta a relação do baixíssimo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município, da contaminação da água pelo uso de herbicidas e inseticidas nos eucaliptos, da pouca geração de empregos, do êxodo rural, e da queda nos níveis dos reservatórios de água em vários bairros com a chegada de grandes empresas que praticam até hoje a cultura do eucalipto em larga escala.

"As empreiteiras a serviço da Votorantim e da Suzano geram pouquíssimos empregos, danificam o meio ambiente e prejudicam as estradas rurais", avalia o ex-vereador.

Para o economista Edson Trajano, é um erro o poder público pensar que a vinda de empresas a uma região põe fim ao desemprego. "Quando há expansão de uma atividade como a de eucalipto, agricultores precisam vender suas terras e mudar para a cidade. Com a mecanização, há aumento de desempregados sem qualificação profissional, os salários desvalorizam, há concentração de renda e o consumo diminui", explica.

Do ponto de vista ambiental, ele acredita que a alternativa esteja na mudança dos hábitos de consumo e no uso da tecnologia, o que poderia diminuir os efeitos na outra ponta da cadeia, aquela em que está Seu Pedro. Trajano cita o exemplo dos alemães, que se ajustam à necessidade de redução do uso de papel no dia-a-dia.

"Eles vão às compras e pagam mais caso precisem de sacolas e embrulhos." A assessoria da Suzano Papel e Celulose informou que a área que ocupa em São Luiz não sofreu mecanização e que a empresa mantém programas de fomento, manejo sustentável e preservação do meio ambiente. Mas os projetos, por enquanto, não chegaram a beneficiar os pequenos agricultores da região.