Meu amigo jornalista: Raquel Arnaud e uma galeria de amigos

Meu amigo jornalista: Raquel Arnaud e uma galeria de amigos

Atualizado em 24/10/2006 às 13:10, por Otávio Grillo/Redação Portal IMPRENSA.

Meu amigo jornalista : Raquel Arnaud e uma galeria de amigos

Por Raquel Arnaud foi apresentada à pintura por Lasar Segall e teve como mestre Pietro Maria Bardi. Considerada uma das maiores galeristas do Brasil, Raquel conta quem são os amigos jornalistas que fizeram parte da sua história.

Corria a década de 50 quando Raquel Arnaud, então com 15 anos, conheceu Oscar, o primeiro grande amor de sua vida. Os dois se aproximaram através do tio de Raquel, o enturmado historiador, jornalista e escritor Francisco de Assis Barbosa. Oscar e Raquel logo começaram a namorar e, juntos, se apaixonaram pela arte. Filho de Lasar Segall, lituano radicado no Brasil aos 22 anos e considerado um dos grandes nomes da pintura brasileira, Oscar tinha o privilégio de circular com a namorada pelos eventos culturais mais badalados da época.

Oscar e Raquel eram casados e tinham três filhos quando, em 1968, ela foi contratada pelo Museu de Arte de São Paulo e passou a trabalhar sob a orientação de seu fundador Pietro Maria Bardi - historiador, crítico de arte, marchand , escritor e jornalista. A missão de Raquel era organizar trabalhos e levantar recursos para o museu. Foi assim que começou a carreira de uma das galeristas mais requisitadas do país. "O professor Bardi foi muito importante na minha formação profissional e pessoal. Sua determinação e obstinação foram marcantes para mim". Nesse período, Raquel se separou de Oscar e casou-se com o cineasta Hector Babenco, que estava preparando um filme sobre o MASP e a convidou para se juntar à equipe de produção. Do museu, Raquel Babenco foi trabalhar na casa de leilões Collectio, onde estreitou relações com a também galerista Mônica Filgueiras.

Em 1974, a dupla abriu o Gabinete de Artes Gráficas, na Haddock Lobo, onde o principal trabalho era com as gravuras em papel. Em paralelo, Raquel trabalhava na Arte Global, galeria que pertencia à Rede Globo. Foi nessa época que a galerista passou por uma das maiores "saias justas" de sua carreira. Raquel teve que vetar uma exposição da escultora e artista plástica Lygia Pape a pedido de Yves Alves , então diretor comercial da Globo, porque a mostra trazia objetos obscenos dentro de uns saquinhos. "Ele era meu chefe e me disse que a empresa não podia se expor a isso. O pior foi que a Lygia demorou algum tempo para entender que não tinha sido minha culpa".

Pouco depois, a Globo optou pela criação da Fundação Roberto Marinho e a galeria deixou de existir. Enquanto isso, o Gabinete foi se tornando um local conceituado e respeitado, principalmente pela aproximação de Raquel com a mídia.

Em um tempo onde as assessorias de imprensa não existiam, o contato com os meios de comunicação era feito de maneira muito mais pessoal. "Acabei sendo minha própria assessora. Mas isso foi de uma riqueza muito grande porque foi daí que se perpetuou a amizade com jornalistas consagrados até hoje". Cesar Giobbi , que escreve a coluna "Persona", do jornal O Estado de S. Paulo , mas que Raquel conheceu quando ele ainda trabalhava na Veja , é um desses casos. "São mais de 30 anos de amizade; apesar de nossas agendas estarem sempre cheias, ainda nos encontramos em eventos referentes às artes plásticas". Raquel conta que mantêm um contato estreito e de muito respeito com o colunista. "Sempre que preciso, ele me atende, mas também não abuso", brinca. O jornalista também é membro do conselho do Instituto de Arte Contemporânea - IAC, criado por Raquel e que cuida de obras de vários artistas.

Em 1980, ela inaugurou o Gabinete de Arte Raquel Arnaud, na Av. 9 de julho, com a ajuda da arquiteta e amiga Lina Bo Bardi, idealizadora do MASP e mulher de Pietro Maria Bardi. A primeira exposição do espaço reuniu os artistas Amílcar de Castro, Lygia Clark, Sérgio Camargo, Weissmann, José Resende, Tunga e Waltércio Caldas. Logo depois, o Gabinete foi transferido para o bairro de Pinheiros.

Outro jornalista que faz parte da agenda de contatos de Raquel Arnaud é Antonio Gonçalves Filho - repórter especial do "Caderno 2", do Estadão - que ela também conhece desde a década de 70. "O Toninho sempre me apoiou. Escreveu uma matéria mês passado sobre a inauguração, no dia 28 de setembro, do Instituto de Arte Contemporânea - IAC -, que criei para abrigar obras de Amílcar de Castro, Sérgio Camargo, Mira Schendel e Willys de Castro. Na entidade tenho vários trabalhos com cada um desses artistas, para poder mostrar as várias fases deles e darmos uma leitura para o público do que cada artista fez", explica.

Raquel Arnaud também é uma mulher conhecida no meio artístico por não ter "papas na língua". "Certa vez, respondi publicamente sobre uma matéria do jornalista e crítico de arte Jacob Klintovitz , de uma obra de Sérgio Camargo porque não concordava com a opinião dele. O resultado é que ele nunca mais falou comigo", lembra.

Graduada na Escola Livre de Sociologia e Política, na Aliança Francesa e na União Cultural Brasil-Estados Unidos, fez curso de História da Arte no MASP e acompanhou a exposição itinerante de Lasar Segall em vários segmentos, logo após seu falecimento. Hoje, Raquel Arnaud ainda se dedica à Casa Hum, inaugurada em 2003, que abriga e cataloga as obras de Sérgio Camargo, falecido em 1990.

Outros jornalistas que fizeram e fazem parte da história de Raquel são muitos, mas dentre eles podemos destacar também Maria Hirschman , Marcos Augusto , Camila Molina e Mário César Carvalho . "Havia também meus grandes amigos Olney Cruz e Casemiro Xavier de Mendonça , críticos de arte da Veja que sempre me apoiaram", relembra.

Para conferir as exposições no Gabinete de Arte, acesse o da galerista.