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Melchiades Filho: "Sou um ministro sem pasta na Folha"

Melchiades Filho: "Sou um ministro sem pasta na Folha"

Atualizado em 28/03/2006 às 16:03, por Paula Desgualdo e Thaís Naldoni/ Redação Portal IMPRENSA.

Melchiades Filho: "Sou um ministro sem pasta na Folha "

Por Há mais de 18 anos trabalhando para a Folha de S. Paulo , Melchiades Filho, o Melk, já foi repórter de Economia, editorialista, editor-adjunto de Mundo, redator da Primeira Página, correspondente em Washington e coordenador dos cadernos regionais. Mas foi no caderno de Esportes que o jornalista se encontrou. Em fevereiro, após 13 anos à frente da editoria, ele passou o cargo para José Henrique Mariante, que foi por anos seu adjunto. Desde setembro de 2005, Melk está envolvido no projeto de reforma editorial/gráfica do jornal. "Quando a reforma for implantada, vou procurar algo novo para fazer. Tomara que dentro da Folha ". Em entrevista ao Portal IMPRENSA, o jornalista conta sobre sua trajetória no Esporte, fala de sua saída e de novos projetos.

Portal IMPRENSA - Como você avalia sua passagem pelo caderno de Esportes?
Melchiades - Muitos dizem que minha principal contribuição foi ter aberto o caminho para a cobertura sistemática dos bastidores do esporte na imprensa diária. Quando assumi, essa era de fato uma de minhas prioridades. Eu tinha muito claro o diagnóstico de que a política, a economia e a ciência exerciam influência direta sobre o resultado esportivo e, portanto, não poderiam ser desprezadas. E, como a Folha não se acanha de mexer em vespeiros, mandei bala.
Mas estou certo de que esse investimento editorial foi acompanhado de outros. Sempre acreditei que o jornalismo atira no pé quando se contenta com um papel reativo, o de apenas relatar o ontem. Na pauta esportiva, com o boom da mídia eletrônica, seria suicídio ficar na fórmula "time treinou assim, time jogou assado, craque falou isso, técnico disse aquilo". Por isso apostei também na sofisticação da análise do próprio jogo, das táticas, e em coberturas mais intensivas. Tratar o futebol apenas como uma "caixinha de surpresas" é um desrespeito a um leitor cada vez mais informado e capacitado.
Outra coisa da qual me orgulho foi a decisão de questionar e enfrentar a monocultura esportiva do país. A Folha assumiu a ponta-de-lança na cobertura das modalidades olímpicas e de seus personagens. Mas sempre com critério, sem forçar a mão e sem cair na tentação "paternalista".

Portal IMPRENSA - Como o leitor reagiu a essas mudanças?
Melchiades - Em 1993, ninguém queria saber dessa agenda nova. Os dirigentes e os esportistas estavam acostumados com a bajulação e não queriam ser incomodados. E os torcedores, é preciso reconhecer, só queriam saber de futebol, "do meu time". Foi, então, uma aposta editorial arriscada. Por isso é bacana constatar que aquela agenda subiu a arquibancada. A legislação esportiva foi modificada para melhor. E hoje os torcedores reconhecem a importância de um forte patrocinador, de uma boa preparação física, de um campeonato bem organizado. Muitos até exageram. Aplaudem mais o Kia Joorabchian do que o Tévez.

Portal IMPRENSA - E o que devia mudar nesse modelo de jornalismo?
Melchiades - Acho que, para que dê um novo salto de qualidade, o jornalismo esportivo precisa se (re)apaixonar pelo esporte. Infelizmente falta mão-de-obra. Os repórteres qualificados e independentes tornaram-se cínicos demais; os que vibram com o jogo não me parecem tão dispostos a se qualificar e/ou a comprar brigas. No ano passado, quando eu já estava decidido a mudar de ares, até fiz uma reunião com nossos colunistas sobre essa minha angústia.

Portal IMPRENSA - Você já estava pensando em sair quando surgiu outra proposta?
Melchiades - Eu resolvi sair do Esporte porque senti uma forte necessidade de enfrentar um novo projeto, algo que volte a me tirar o sono. Mas isso não teve nada a ver com o convite para coordenar a mudança da Folha . Até porque fui escolhido para conciliar esse trabalho com o dia-a-dia do Esporte. Em novembro, quando avisei o jornal que deixaria o Esporte, eu já trabalhava havia dois meses na reforma gráfica.

Portal IMPRENSA - O que vai mudar na Folha com essa reforma?
Melchiades - O novo projeto vai reforçar a vocação da Folha, de um jornal de muita personalidade. Ele tem uma dupla ambição: facilitar o percurso do leitor que dispõe de pouco tempo e enriquecer a experiência do leitor interessado em coberturas mais profundas, analíticas e detalhadas. Aliás, é uma proposta diferente, de certa forma até inovadora, essa a de trabalhar com duas velocidades.