Luiz Carlos Ramos, do Estadão: "De vez em quando, a imprensa enfrenta as suas crises"
Luiz Carlos Ramos, do Estadão: "De vez em quando, a imprensa enfrenta as suas crises"
Luiz Carlos Ramos, do Estadão : "De vez em quando, a imprensa enfrenta as suas crises"
Luiz Carlos Ramos tem 41 anos de experiência no jornalismo. Repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo , ele também é professor de Jornalismo na PUC-SP, além de professor do curso de Jornalismo Aplicado do Estadão. Nesta entrevista a IMPRENSA, ele comenta o caso do "mensalinho de Maria Rita" e defende que a ética jornalística tem cunho muito pessoal.
IMPRENSA - O senhor leu a matéria da Veja que acusa a Warner, gravadora de Maria Rita, de ter tentado "influenciar" jornalistas de grandes veículos, presenteando-os com iPods?
LUIZ CARLOS RAMOS - Eu soube disso. Na época, quando li a matéria, pensei: "Ta aí um mensalinho". Mas depois vi que não era exatamente esse o caso, que a Veja deu informações equivocadas.
IMPRENSA - As empresas dão presentes na intenção de influenciar os jornalistas?
RAMOS - Olha, qualquer empresa sabe que conseguir uma matéria positiva na área editorial de uma publicação dá mais resultado do que anunciar nela. E, nesse aspecto, as seções que lidam com marcas e empresas, como Cultura, Turismo e Automóveis, são as mais procuradas. Aliás, você sabe qual é a seção do jornal que mais recebe presentes de assessorias? É a seção de Economia. O jornalista da seção de Cidades, que é superimportante, quase nunca é lembrado pelas assessorias, porque no caderno de Cidades não se fala de empresas, de marcas.
IMPRENSA - Mas a Warner teve a intenção de influenciar os jornalistas com o iPod?
RAMOS - Acho que não, porque a Warner não condicionou o recebimento do iPod a críticas positivas, eles não obrigaram os jornalistas a elogiar o CD. Na verdade, esse tipo de trabalho é igual a pescaria, você fica sempre no mesmo lugar do rio para pegar o peixe. As empresas aprenderam que o jornalista gosta de mordomia, e escolhem um grupo seleto para paparicar. É só você reparar nas festas de lançamentos de produtos: os convidados são sempre os mesmos. Ninguém vai convidar um jornalista que não tenha determinada influência, porque o que a empresa quer é um formador de opinião, por isso os jornalistas de grandes veículos.
IMPRENSA - O senhor acredita que essa polêmica se deu pelo fato de o iPod ser caro ou por não ser necessariamente um instrumento de trabalho para o jornalista formular sua opinião sobre o CD?
RAMOS - Isso é interessante. A minha filha foi passar uma temporada no exterior e me trouxe um iPod de presente, igual àquele da matéria da Veja. Eu adorei, uso direto. O aparelho é um objeto de desejo que está na moda, então é óbvio que ele desperta interesse. Toda história tem um corruptor e um corrompido, mas não podemos nos esquecer de que se tratavam de jornalistas de grandes veículos, para quem um iPod não é tão caro assim. Além disso, os manuais de redação dos principais jornais do país aconselham os jornalistas a nunca aceitarem presentes.
IMPRENSA - Essa denúncia da Veja coloca a imagem do jornalismo em xeque?
RAMOS - Bom, é fato que o país está atravessando uma grande crise moral. Você vê casos de corrupção na política, no futebol e no jornalismo. A mídia está em crise. Houve a falência da Internet , para onde muito jornalista migrou achando que ficaria rico, a queda de circulação de jornais e revista está cada vez mais acentuada, e isso influencia também na queda de publicidade... Mas isso é normal. De vez em quando, a imprensa enfrenta as suas crises, como foi o caso da Escola Base, só que, no geral, ela funciona sempre e presta um bom serviço. É importante que a imprensa se esforce para errar o mínimo possível.






