Lourdes brasileira Forte | por: Júlia Ramos - Unisinos (RS)
Lourdes brasileira Forte | por: Júlia Ramos - Unisinos (RS)
Atualizado em 03/02/2006 às 16:02, por
Por: Júlia Ramos e estrudante de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.
Lourdes brasileira Forte | por: Júlia Ramos - Unisinos (RS)
Ela podia ser qualquer uma das milhões de brasileiras que saem de casa quando o sol ainda nem raiou. Mas ela é única. Tem rosto, nome e profissão: Arleni Lourdes de Lima Forte, 40 anos, doméstica. Assim como muitas outras mulheres, Lourdes passou por inúmeras dificuldades na vida. Natural de Sertão Santana, localidade pertencente ao município de Guaíba, começou a trabalhar cedo, aos 19 anos. Chegou em Porto Alegre cheia de sonhos, esperanças e no ventre a menina Susiane. Com o marido de então 18 anos começou a escrever a própria história. Primeiro veio a casa nos fundos da morada dos sogros. Depois, juntando o dinheiro apertado de todo o mês, veio o terreno e o lar da família Lima Forte no bairro Lomba do Pinheiro.Há 21 anos, a diarista Lourdes pega duas conduções para chegar ao trabalho. Qualquer trabalho. "Minha casa fica 15 minutos à pé da parada de ônibus mais próxima. De lá pego o primeiro da manhã e vou até o Centro, onde subo em outra condução para chegar ao serviço. Foi sempre assim.", confessa. Foram muitos os locais onde a auxiliar de serviços gerais já derramou seu suor: casas de família, escritórios, instituições públicas e privadas. Quando trabalhava na antiga Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT), na Borges de Medeiros, Centro da cidade, o esforço era grande e o tempo curto. Chegava a cumprir uma jornada de trabalho de até 17 horas. O motivo: falta de pessoal e demanda excessiva, alegavam os superiores. "Tinha vezes em que eu chegava em casa à 1h30min para levantar às 4h30min", lembra.
Aos 40 anos, a doméstica ainda encontra disposição para cuidar de três filhos e um neto. Em casa gosta de arrumar as coisas. Odeia bagunça: "Fiquei com mania de limpeza. A gente vê as coisas dos outros arrumada, passa o dia inteiro limpando e deixando os lugares impecáveis, quando chega em casa quer igual", afirma.
A filha mais velha sempre ajudou. Lava a louça e varre a casa, mas "o grosso" quem limpa é Lourdes. "Eu faço com prazer", garante.
Quando a primogênita completou cinco anos, Lourdes não tinha com quem deixá-la enquanto trabalhava. As duas decidiram que Susiane seria a babá de Fabiane, de dois anos. Lourdes comprou um fogareiro a gás para que a filha de cinco anos pudesse esquentar a sua mamadeira e da irmã caçula, três anos mais nova. "Eu chegava em casa com o coração na mão, rezando para que tudo corresse bem", emociona-se.
Mas Lourdes não carrega a palavra forte apenas no sobrenome. Ela é uma mulher de fibra. Sempre com um sorriso discreto, uma voz baixinha e um olhar doce de menina, ela segue a vida simples, apesar dos tropeços. Em 2000, o marido faleceu aos 34 anos em função de uma pneumonia e a filha mais velha, grávida de cinco meses, passava por problemas de saúde. "Foi o pior ano da minha vida", desabafa. O neto nasceu de sete meses e ficou ainda um ano na incubadora do hospital.
Passada a tempestade, ela diz ter orgulho da força de vontade da filha e da recuperação do menino Douglas, hoje com cinco anos. "Cheguei a pensar que não agüentaria tanto sofrimento. Mas nunca perdi a fé."
Sonhos? Nos olhos que apontam para cima como quem consulta velhos pensamentos ela responde que sim. "Tenho muita vontade de conhecer a Itália.", confessa. Por quê?: "Pela beleza", rebate sabiamente. Há três meses, Lourdes chegou o mais perto que conseguiu até hoje de seu sonho. É responsável pela limpeza da Câmara de Comércio Italiana do Rio Grande do Sul. Ali, além dos serviços gerais, ela espalha pelo ar um perfume irresistível de café fresquinho. Bem brasileiro.
Assim, todos os dias, como uma alquimista, mistura o pó marrom com a água transparente, deixando fluir o aroma da química que anuncia o começo da rotina de trabalho tanto para brasileiros quanto para italianos.






