Jornalismo ambiental: René Capriles, da ECO 21, fala sobre os desafios da mídia ambiental no Brasil
Jornalismo ambiental: René Capriles, da ECO 21, fala sobre os desafios da mídia ambiental no Brasil
Jornalismo ambiental : René Capriles, da ECO 21 , fala sobre os desafios da mídia ambiental no Brasil
Por O jornalista René Capriles - editor da revista ECO 21 fundada em 1990 com o nome de ECO-RIO - fala à IMPRENSA sobre as dificuldades, diferenças e evoluções do jornalismo ambiental no Brasil.
Capriles foi editor das revistas especializadas INGENIERÍA SANITARIA (em espanhol) publicada pela Associação Interamericana de Engenharia Sanitária e Ambiental - AIDIS; Revista BIO , editada pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental - ABES. Como correspondente estrangeiro, representou diversos órgãos da imprensa latino-americana da Bolívia, Argentina, Cuba e do México. Foi diretor da sucursal do Rio da Agência de Notícias Nóvosti, de Moscou.
IMPRENSA - Os últimos acidentes naturais, como o Katrina, por exemplo, mobilizaram a imprensa em todo o mundo. Como o senhor avalia a cobertura da imprensa quando o assunto é meio ambiente? Ainda faz-se uma cobertura factual ou já é possível encontrar matérias mais educativas?
René Capriles - Sobre os casos do furação Katrina ou do Tsunami da Ásia, a imprensa internacional fez análises exaustivas e muito boas, mas vamos tratar aqui somente da cobertura da imprensa nacional. A grande imprensa dedicou muitas páginas a estes assuntos porque ultrapassaram o fator ambiental. Este tipo de informação teve retorno nacional porque o tema migrou para as políticas públicas dos países hegemônicos. Quanto aos veículos nacionais especializados em meio ambiente, a cobertura foi replicante dos fatos tratados nos outros canais informativos.
IMPRENSA - Como avaliar a cobertura da imprensa neste tema?
Capriles - A resposta merece um livro inteiro. Vamos tratar de sintetizar: primeiro dividir o tipo de imprensa. Temos os jornais nacionais e locais; temos a TV aberta e de cabo, a TV especializada em meio ambiente e a que toca o tema nos informativos; temos as rádios; as revistas de grande circulação e as especializadas e, finalmente, a Internet e dentro da Internet, os sites especializados.
Os veículos que trabalham em nível nacional (jornais, revista, TV) ampliaram significativamente os seus espaços dedicados às questões ambientais. É claro que ainda não existem editorias específicas, mas há uma cobertura realmente eficaz. Já os veículos especializados, por serem menos impactantes na opinião pública tratam a questão ambiental com maior profundidade. Neste tipo de meio (jornais, revistas, TV e Internet) podemos observar um detalhamento nos assuntos tópicos como, por exemplo, as mudanças climáticas ou o mercado de emissões de carbono. De maneira particular, a questão dos recursos hídricos se divide em outro segmento que é o das publicações especializadas em saneamento básico (tanto água, lixo, esgoto como drenagem) por estarem atreladas a empresas estatais de saneamento, na maioria dos casos, ou a empresas privadas que desejam divulgar seus produtos ou serviços. Neste campo há uma ampla experiência editorial e muito boa. Posso afirmar que a imprensa ambiental que dispõe de bons jornalistas especializados é a que trata das questões de saneamento, principalmente água e esgoto. Poderia comparar com o jornalismo da área de carros. Uma área semelhante em riqueza de repórteres especializados é a do jornalismo científico. Não é o caso do jornalismo voltado para biodiversidade, mudanças climáticas, desertificação, legislação ambiental, política ambiental (sem contar o papa dos jornalistas político-ambientais, mestre Washington Novaes), ecoturismo, ecoética, ecoeconomia (mesmo que Miriam Leitão e Sérgio Abranches transitem com desenvoltura nesta área), ecoesporte, desmatamento, agroecologia, energias renováveis, educação ambiental, etc. Nestas áreas há muito por fazer no campo jornalístico.
Há um tipo de veículo no qual a notícia deve ser obrigatoriamente factual (jornalismo diário) e há um tipo de jornalismo educativo que é de veiculação esporádica. Penso que são espaços muito diferentes.
IMPRENSA - A mídia brasileira já se mostra mais consciente quanto às causas ambientais?
Capriles - Sim, a mídia brasileira se mostra cada vez mais consciente das questões ambientais. Por quê? Bem, porque a questão ambiental está inserida em todo e qualquer projeto de desenvolvimento de um país.
IMPRENSA - Quais são os principais assuntos relacionados ao meio ambiente tratados pela imprensa tradicional?
Capriles - Penso que são as catástrofes e as violações à legislação. Furacões, inundações, terremotos, secas, os impactos produzidos pelo desmatamento mediante queimadas para abrir espaços para a agricultura, todos eles são temas da grande imprensa. A ocupação urbana realizada de forma predatória ou irregular gera informação de grande destaque. As obras públicas no campo do saneamento básico são temas que abrem espaço para a pauta de "Cidade" ou "Geral". Mandar um astronauta ao espaço é assunto para manchete de primeira página. Basicamente os principais assuntos da grande imprensa são aqueles que afetam a maioria da população ou interferem nas políticas públicas.
IMPRENSA - A cobertura sistemática deste tema já é feita pela imprensa tradicional ou é apenas realizada pelos veículos especializados?
Capriles - Penso que há espaços diferenciados para cada tipo de veículo.
IMPRENSA - Quais as principais diferenças entre a cobertura realizada pela imprensa especializada e pela imprensa convencional?
Capriles - A imprensa especializada pode dedicar muito mais espaço para um determinado assunto do que a grande imprensa. Também existe o fator da linguagem. O receptor das informações especializadas está muito mais informado do que o receptor dos grandes veículos; sejam eles jornais, revistas ou TV. Por exemplo, os leitores de revistas especializadas em meio ambiente, conhecem siglas como PNUMA, MDL, CO2, ou documentos referenciais conhecidos como Protocolo de Kyoto, Protocolo de Cartagena, Protocolo de Montreal, Tratado de Recursos Fitoterápicos, e não precisam de muitas explicações; já os leitores de publicações de grande circulação de forma geral desconhecem essas terminologias. Mas a grande diferencia é o enfoque dado a cada informação, se na grande imprensa ela deve ser informativa geral, na imprensa especializada ela é seletiva e analítica.
IMPRENSA - Existe um perfil de público determinado que se interesse pelo assunto?
Capriles - No Brasil já há um público especializado em informações ambientais. Ele não é numeroso, mas é de grande influência, principalmente no universo acadêmico e empresarial.
IMPRENSA - Quais assuntos - referentes ao meio ambiente - dificilmente são abordados e deveriam ser mais lembrados pelos jornalistas?
Capriles - Acredito que não existem assuntos dificilmente abordados. Mesmo que o veículo tenha uma relação econômica mediante a publicidade de determinadas empresas, se há um vazamento de petróleo, pro exemplo, essa informação nunca será sonegada pela imprensa. O que existe são prioridades nos assuntos. A mudança climática é um tema muito distante da realidade do dia-a-dia das pessoas, mas ela é real, porém, ela dificilmente é prioridade para manchete de capa, salvo que o veículo dedique um informe especial e pelo espaço ocupado na informação ela se transforme no tema principal. É difícil, mas acontece.
IMPRENSA - O senhor acredita que já exista, tanto por parte das empresas, quanto da imprensa, uma espécie de Responsabilidade Ambiental?
Capriles - O tema das empresas é muito rico porque elas evoluíram muito mais do que os políticos nas questões das responsabilidades ambientais. Hoje já existe uma cotação na Bolsa de Valores de ações de empresas que privilegiam a responsabilidade ambiental. Às vezes a pressão da imprensa faz mudar projetos financeiros; pro exemplo, a Disneylândia de Hong Kong queria lançar uma sopa de barbatanas de tubarão. As ONGs ambientalistas e a imprensa internacional geraram um movimento que obrigou essa empresa a desistir da iguaria. Essa é uma forma de responsabilidade ambiental. Outras empresas, como McDonalds, desistiram, em muitos países, de utilizar embalagens plásticas em seus produtos.
IMPRENSA - Existem empresas que são poluidoras em potencial e que se preocupam em divulgar ações ecologicamente responsáveis. Como a imprensa deve fazer para não cair em armadilhas?
Capriles - Cada caso deve ser estudado de forma independente. Existem empresas poluidoras que têm consciência das suas ações, como algumas montadoras de carros ou siderúrgicas, mas as suas atividades são forçosamente agressivas ao meio ambiente, tanto na produção quanto no produto final e mesmo assim elas desenvolvem projetos paliativos dessas ações. Mas si considerarmos uma pessoa, por exemplo, em São Paulo, que vai de carro para seu trabalho, para seu lazer, ela é menos responsável do que a empresa que construiu o carro na cadeia poluente? As armadilhas estão em todas as partes. Eu penso que tanto as empresas como as pessoas, todas elas são responsáveis por igual.
IMPRENSA - Os veículos especializados em meio ambiente conseguem sobreviver no azul?
Capriles - O ideal é sobreviver no verde. O Brasil não dispõe de um mercado consumidor de informação ambiental, por essa razão os veículos especializados dependem da publicidade e, numa grande percentagem, da publicidade oficial, tanto das empresas estaduais quanto das federais. O número relativamente baixo de leitores das publicações ambientais não é suficiente para garantir a sobrevivência de um jornal ou uma revista. Já o caso dos canais de TV especializados em meio ambiente ou que dispõem de uma importante percentagem da sua grade para as questões ambientais é diferente porque se trata de canais pagos pelos assinantes ou por organizações internacionais, é o caso do Discovery Channel, do National Geographic, do Futura, do GNT ou do History. Algumas rádios, como a CNN programam poucos minutos dedicados ao meio ambiente. No resto, as publicações nascem e morrem. Depois da Conferência do Rio de 1992, já desapareceram mais de 10 publicações impressas. Nos grandes jornais a euforia ambiental ficou sem espaço a partir de 1994.
IMPRENSA - O jornalista que cobre meio ambiente deve ter um perfil de preocupação e identificação com o tema?
Capriles - Como não há possibilidade de ser especializado num único tema como, por exemplo, o da desertificação, o jornalista deve conhecer obrigatoriamente todos os assuntos ambientais. Deve conhecer profundamente o que são as Convenções da ONU sobre Mudanças Climáticas, Diversidade Biológica, dos Oceanos, da Desertificação, os Tratados sobre Florestas, Fitoterápicos, Espaço Cósmico, etc. Deve saber o conteúdo da legislação ambiental, o Código Florestal, as leis sobre Recursos Hídricos, sobre Saneamento, Zoneamento Ecológico-Econômico, os acordos internacionais sobre georreferenciamento, etc. É indispensável que o jornalista da área ambiental seja uma pessoa preparada.






