Jornada de Silêncio: Jornalista brasileira radicada na Itália comenta greve nacional da imprensa

Jornada de Silêncio: Jornalista brasileira radicada na Itália comenta greve nacional da imprensa

Atualizado em 02/07/2007 às 12:07, por Cristiane Prizibisczki/Redação Portal IMPRENSA.

Jornada de Silêncio: Jornalista brasileira radicada na Itália comenta greve nacional da imprensa

Por Foto: Divulgação

Das 6h do sábado às 6h da manhã do domingo (30/06 e 1º/07) os jornalistas italianos praticamente pararam. Os telejornais foram transmitidos em edições reduzidas, com um só apresentador, que fazia apenas leitura de notícias, sem exibição de matérias. As edições dos jornais impressos, inclusive os de maior circulação nacional, como o Corrieri della Sera , não estavam nas bancas na manhã do domingo. Sites como o da RAI, maior rede de televisão italiana, e da agência de notícias Ansa, marcavam que a última atualização havia sido feita poucos minutos antes das 6h.

A paralisação da mídia italiana fez parte da Jornada Nacional de Silêncio da Informação, como foi chamada a greve nacional dos jornalistas, e, segundo a Federação Nacional da Imprensa Italiana (FNSI), chegou a ter cerca de 95% de adesão, em alguns casos.

Na ocasião, sindicato e profissionais solicitaram ao governo e ao parlamento a mudança da Lei Mastella - que impede a publicação de quaisquer notícias sobre casos em segredo de justiça, até a conclusão dos inquéritos preliminares -, e que aprovem uma série de pacotes legislativos que visam, entre outras coisas, melhorar as condições dos trabalhadores com contratos precários, conhecidos como "precariados".

Segundo Janaína Ávila, jornalista brasileira radicada na Itália há alguns anos, a existência de contratos precários é muito comum no país, não só na esfera da comunicação. "Chamam aqui de trabalhador precário aqueles que não têm contrato de trabalho, ganham menos do que deveriam e trabalham bem mais", disse ela em entrevista ao Portal IMPRENSA.

De acordo Janaína, é provável que as reivindicações sejam atendidas. No entanto, o mais importante, segundo ela, é a possibilidade de poder requerer os direitos sem que haja punições. "Eu estranhei muito a greve dos jornalistas aqui. No Brasil isso não seria possível. Eles fazem greve e ninguém vai demitido, a população sabe, entende, aceita e até defende [a greve]".

Apesar de o diploma não ser obrigatório no país - na verdade, os cursos de comunicação ainda são insipientes -, as leis que regulamentam a profissão são rígidas. Para ser jornalista é preciso trabalhar na área por dois anos sob a supervisão de um "tutor", o equivalente ao editor no Brasil, e, após comprovar a experiência, prestar o exame da Ordem dos Jornalistas. "Seria como o exame da Ordem dos Advogados do Brasil", explica Janaína.

Além da Ordem dos Jornalistas, a profissão é supervisionada pelo Sindicato Italiano, que garante filiação automática para qualquer empregado do setor da comunicação, e é responsável pela supervisão de leis trabalhistas, pagamento de salários, regulamentação de pisos salariais, entre outras atribuições.

Para jornalistas brasileiros que pretendem se aventurar profissionalmente pela Itália, Janaína adianta que é preciso ter bastante paciência e perseverança. Além da barreira da língua e da adaptação aos moldes do jornalismo italiano - que não segue o padrão americano -, o profissional deve fazer uma prova de equivalência do diploma e passar pelos exames normais do país.

Porém, segundo ela, a experiência vale pena. "É claro que existem problemas, mas acho que ser jornalista aqui deve ser muito melhor que ser jornalista no Brasil. Porque na Europa não importa o trabalho que você faz, se é jornalista ou taxista, vai ser bem remunerado, o bastante para ter uma vida digna, com direito a vestir, comer, morar bem e ainda tirar férias com a família", finaliza.