Humorismo faz o jornalismo na guerra dos termos
Por Cris Antunes, de Los Angeles, EUA
Humorismo faz o jornalismo na guerra dos termos
Por Cris Antunes, de Los Angeles, EUA
Humorismo faz o jornalismo na guerra dos termos
Por Cris Antunes, de Los Angeles, EUA
Em terras de Uncle Sam, agosto é tempo de verão, férias e pouca notícia quente. O chamado dead month (mês morto). Neste ano, só mesmo o jornalismo dos comediantes para salvar o público da rotina requentada da mídia tradicional norte-americana. Preferi "ler"os jornais através da televisão. Mais precisamente, assistindo aos shows de humoristas como Bill Maher, na HBO, ou Jon Stuart, na Comedy Central. Acabei entretida pela história do confronto entre os termos global struggle against violent extremism (esforço planetário contra a violência extremista, em tradução livre) e global war on terrorism (guerra mundial contra o terrorismo, em tradução livre) -, o desgastado mantra adotado pelo governo Bush sempre que precisa comunicar as bases de sua política internacional. Episódio ímpar, em que o humorismo fez o jornalismo que a mass media evitou.
O caso começou no final de julho, quando repentinamente o mantra war on terrorism desapareceu do discurso público de vários top officials do governo norte-americano - incluindo o secretário de defesa, Donald Rumsfeld. Naquele momento, o novo "termo de ordem" era global struggle against violent extremism . Quê?! O absurdo semântico detectado pelos comediantes virou a piada do dia. Jon Stuart, em seu "Daily Show", arrebentou editando seqüências hilárias de Rumsfeld e outros oficiais pronunciando o antigo e o novo mantra. Na Internet , a "piada" foi discutida em sites , blogs e pod castings . Estranhamente, como observou a Media Matters for America (uma watchdog web ), apenas os jornais The New York Times e Philadelphia Daily News publicaram o fato. Mudança de estratégia dessa proporção e rapidez num governo ultraconservador merecia ganhar status de manchete.
Pouco tempo depois, quase toda a grande mídia incorporaria a nova terminologia. A palavra "guerra" estava prestes a ser eliminada do texto diário. Reza a tradição dos bastidores que a repercussão do assunto incomodou "autoridades do governo Bush, preocupadas com a possibilidade de o novo termo sugerir sinais de mudança (leia-se, amolecimento) nas regras do jogo".
Antes da fofoca vazar, ninguém mais que o próprio presidente para resolver o impasse. Durante um discurso de pouco mais de quarenta minutos , nos confins do Texas, Bush - contrariando as orientações de seus principais conselheiros - repetiu por pelo menos 13 vezes o mantra war on terrorism . Virou piada de novo. Jon Stuart, novamente, resumiu a questão com um clipe engraçadíssimo do presidente repetindo a frase war on terrorism tantas vezes até que se pudesse concluir por osmose quem é o The War President . E, mais uma vez, a Media Matters for America registrou que veículos como AP, CNN, MSNBC e LA Times deixaram de noticiar ou comentar o retorno do antigo termo.
Ainda recordo que, em 2000, quando concorria pela primeira vez à presidência, o Sr. Bush já repetia a palavra "guerra" dezenas de vezes, todos os dias de campanha (claro, o ataque às torres gêmeas ainda não havia acontecido e Osama Bin Laden era apenas um "procurado" pelo FBI). Lembrava um "profeta do apocalipse". Quem sabe era mesmo uma profecia, já que ele diz "falar com Deus"? (perdoe a piada infame - estou aprendendo humorismo para "ser" melhor jornalista). Nos Estados Unidos de hoje, os humoristas fazem o jornalismo-padrão. Zay gezunt ! (é isto, em iídiche).






