Homenagem: A paixão, segundo Fiori Giglioti

Homenagem: A paixão, segundo Fiori Giglioti

Atualizado em 08/06/2006 às 15:06, por Thaís Naldoni / Redação Portal IMPRENSA.

Homenagem : A paixão, segundo Fiori Giglioti

Por Em julho do ano passado, Fiori Giglioti concedeu uma longa entrevista à revista IMPRENSA, para um perfil, publicado na edição nº 204, de agosto do mesmo ano.

Como homenagem ao ilustre colega que nos deixa, o portal IMPRENSA republica, na íntegra, o perfil de Fiori Giglioti. Acompanhe.

A paixão, segundo Fiori Giglioti

Um dos narradores esportivos mais populares do Brasil, Fiori Gigliotti ensina, com sua experiência aos 77 anos, como histórias deliciosas podem mudar uma vida e como "alma e coração" mudaram a história do rádio

Por Thaís Naldoni

"Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo". Banda do Segundo Grupo Escolar de Lins. Um dos tocadores de repique - aluno do quarto ano primário - foi convocado pela professora da sala, para ser o orador da turma na festa da escola. Para uma criança apaixonada pela banda, um grande dilema: trocar a banda pelo palanque? Pelo respeito à professora, o menino Fiori Gigliotti aceitou o desafio e, não só discursou brilhantemente, como fez várias correções no texto enquanto falava. Nascia aí, em Fiori, o gosto pela oratória e o amor à comunicação, que dura mais de 60 anos e fez daquele menino um dos mais tradicionais e respeitados locutores do rádio brasileiro.

Nascido na primavera do ano de 1928, na cidade de Barra Bonita, interior de São Paulo, mas criado na cidade de Lins (SP), Fiori Giglioti teve uma infância típica do interior: brincadeiras, matinês, pães com mortadela e maria-mole. "Hoje em dia, as crianças ficam fechadas em apartamentos e comem montes de chocolate. Lembro até hoje da textura daqueles doces", disse.

Antes de entrar efetivamente na comunicação, Fiori trabalhou em uma fábrica de tecidos. Certa vez, duas senhoras fizeram uma compra enorme e o dono da loja pediu para o garoto fizesse a entrega. "Eram fardos tão pesados que davam medo. Pedi para o meu patrão me deixar alugar uma charrete para levar as compras e ele não deixou", conta. Antes de entregar a encomenda, Fiori saiu para tomar um café e nunca mais voltou à loja.

"Uma Beleeeeza de Gol!"
Procurando trabalho, Fiori conseguiu um emprego na redação do jornal Correio de Lins. Lá, o sonhador adolescente, entregava e vendia jornais, além cobrar os anunciantes. "Fazia de tudo, mas esperando que um dia eles me dessem uma oportunidade para escrever", lembra. Sempre apaixonado por esportes, Fiori lia muito sobre o assunto e colecionava tudo sobre futebol.

Depois de um tempo, Fiori pediu - insistentemente - para que o diretor do jornal o deixasse escrever a página esportiva, até que conseguiu: primeiro esportes, depois social e, em seguida, vários outras editorias. Em menos de um ano no jornal, Figi - como assinava na época - tornava-se um dos principais redatores do veículo, com apenas 15 anos de idade.

Daí para o rádio não demorou muito. Fiori pediu para o gerente da rádio de Lins o deixasse escrever um programa para que um amigo seu - já locutor no horário - apresentasse. Mas o desempenho do amigo não agradou Fiori. "Ele não gostava de esporte, não apresentava como eu gostaria, por isso, pedi para apresentar o programa", revela. Mais uma vez, com muita insistência, ele conseguiu e, aos 17 anos, fez sua primeira transmissão. "Me saí tão bem que quatro meses depois me convidaram para trabalhar de vez na rádio. Apresentei até programa de calouros", conta. Em Lins, quando o assunto era rádio, o nome era Fiori.

"Agüenta coração!"
Com tanto sucesso, Fiori passou a buscar novos desafios e a tentativa era a fazer uma transmissão de futebol ao vivo, via rádio. Algo inédito em Lins. Outra vez, a insistência venceu a discussão e, com um amplificador que precisava de dois homens para carregar, foi feita a transmissão. "Esta transmissão foi em 26 de maio de 1947, no campo do Comercial. O jogo foi entre Linense e São Paulo de Araçatuba, com vitória de 1 a 0 para o Linense", lembra. Este sucesso levou uma rádio de Araraquara a fazer uma proposta irrecusável ao radialista, que mudou de cidade.

Com tanto prestígio, o assédio feminino era inevitável e isso fez com que as mulheres fossem um capítulo à parte na vida de Fiori. Uma de suas fãs - filha de um Coronel - pulou a janela da pensão onde morava o radialista. O pai da garota passou a exigir o casamento e chegou a oferecer fazendas como dote a Giglioti. Por causa da recusa, Fiori teve que voltar para Lins, pois o pai da garota prometeu matá-lo.

Outra história curiosa ocorreu no dia de se casamento. Mesmo com todo o sucesso que fazia como locutor, Fiori garante que jamais precisou de seguranças, somente em uma ocasião. "Para casar, precisei de seis seguranças nas entradas da igreja, porque duas mulheres disseram que iriam me matar", diverte-se. Porém, após o casamento, o radialista garante ter posto um ponto final nos tempos de farra. "Depois de casado, mudei completamente", garante.

Da capital para o mundo
Durante toda a sua carreira no interior, Fiori Giglioti sempre foi assediado pelas emissoras da capital paulista, porém os compromisso com a Lins Rádio Clube e a vida interiorana tranqüila, as propostas eram sempre recusadas. Porém, a Rádio Bandeirantes conseguiu quebrar tal resistência e o radialista fez um teste ao vivo, transmitindo, em 1952, o jogo Seleção Paulista x Santos. Terminada a transmissão, já de madrugada, toda a diretoria da rádio aguardava Fiori, que foi contratado pela rádio.

Em 19 de julho do mesmo ano, Fiori estreou oficialmente na rádio e seu ecletismo acabou lhe rendendo cada vez mais prestígio. Sua primeira viagem internacional aconteceu após um jogo de palitinho. Eram dois narradores disputando para acompanhar Edson Leite. Fiori venceu e foi para o Peru, transmitir o Campeonato Sul-Americano de Futebol. Esta foi apenas a primeira de muitas. A primeira Copa do Mundo narrada por Fiori foi pela Rádio Panamericana - hoje Jovem Pan - em 1962. Neste período a Panamericana era especializada em coberturas esportivas e tinha acabado de perder seu principal narrador, assim, fizeram uma grande proposta a Fiori - quatro vezes o valor de seu salário na época, além de ser o principal narrador da rádio. A Rádio Bandeirantes aceitou liberar Fiori, mediante o pagamento de multa contratual. "A Panamericana pagou, mas todo o montante foi pago com a menor nota que havia na época. Foram muitas notas", diverte-se.

Amigos e histórias
São muitas as histórias acumuladas em tantos anos de carreira e, tanto quanto histórias, o número de amigos, entre eles, Ademir da Guia e Pelé. No último aniversário de Fiori, em setembro passado, toda a comemoração foi organizada pelo amigo. "O maior amigo meu é o Pelé. Ele me chama de irmão", conta o radialista.

Atualmente na rádio Record, onde comanda, diariamente, das 18h às 19h, o programa "Bate-Bola", o radialista passou 38 anos na Rádio Bandeirantes, cinco na Panamericana e está há nove na Rádio Record. É o único locutor que narrou dez Copas do Mundo. Sua popularidade lhe rendeu 162 títulos de cidadania pelo país. Sobre o rádio, sua grande paixão, Fiori diz: "Eu sou gamado pelo rádio.A televisão mostra a cara, já o rádio, mostra a alma e o coração", finaliza, tal qual um dom Quixote apaixonado.