Gritos, Faixas e Pedras | por: Humberto Leite - UFCE (CE)
Gritos, Faixas e Pedras | por: Humberto Leite - UFCE (CE)
Atualizado em 02/02/2006 às 11:02, por
Por: Luis Humberto Leite e estudante de jornalismo da Universidade Federal do Ceará - Fortaleza (CE).
Gritos, Faixas e Pedras | por: Humberto Leite - UFCE (CE)
-Michel, sai daí, Michel! Michel, sai daí, Michel! Michel!Os gritos da adolescente não irrompiam sobre o silêncio. A poucos metros, pedras quebravam vidraças de janelas, se desfaziam no muro ou atingiam escudos de assustados guardas municipais. Por volta das dez e meia da manhã de quarta-feira, a revolta dos estudantes se materializava em pedradas na sede da Prefeitura Municipal de Fortaleza, na avenida Luciano Carneiro.
Uma hora antes, as primeiras buzinadas aconteciam em frente ao Centro Federal de Ensino Tecnológico (Cefet), onde foi iniciada a manifestação.
-Um, dois, três. Quatro, cinco, mil. Aqui está presente o movimento estudantil!
Berrava o carro de som. No entanto, não eram mil. Duzentos, segundo os próprios organizadores e os agentes da Autarquia Municipal de Trânsito, que acompanharam toda a manifestação. Mesmo assim, o discurso era otimista.
-O que importa não é a quantidade, é a dimensão de luta!
E assim, inflamada pelas primeiras palavras, pelos primeiros gritos e urros, uma massa de estudantes fechava a avenida 13 de Maio às 9 horas e 29 minutos. Dentre os personagens, alguns, de barba visível mostravam experiência. Outros, de rostos tão jovens, impressionavam simplesmente por estarem ali.
As diferenças de aparência acabaram se revelando entre os comportamentos. A caráter, com roupa vermelha e a voz já rouca, uma das líderes do movimento falava de uma certa máfia de carteiras de estudantes. A dado momento, ela parou e suspirou. Ao seu lado, alguns colegas de luta pulavam e cantavam outros hinos como crianças felizes brincando na rua sem terem nem ao menos perdido tempo de tirar a farda após chegaram da aula. Na brincadeira, as palavras de ordem não pararam.
-A luta, a luta, a luta não sumiu! Aqui está presente o movimento estudantil!
De fato, estudantes. Fardas das mais diversas. Escola Presidente Rooselvet, Escola Adalto Bezerra e até os não fardados, do Cefet, da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará (UECE). As fardas, os livros na mão, ou até mesmo o rosto que quer ainda aprender muito na vida deixavam claro que eram estudantes. Mais que isso, colegas.
Abraçada a vários companheiros, munida de apito e bandeira, Estefânia Whashigton sorria ao contar que essa era a sua segunda manifestação. Com a farda da Escola Presidente Roosevelt, tinha os seus motivos na ponta da língua.
-Para protestar porque o estudante de escola pública já não tem condições.
Entretanto, enquanto ocupavam um lado inteiro da avenida, a passeata mostrou ser um objeto de curiosidade, e até de espanto. Na parada de ônibus, do lado oposto, olhares de curiosidade, apoio e reprovação se lançavam sobre a multidão.
-Se eu não conheço, não vou dizer nada.
A bióloga Vanessa Gomes preferiu, assim, não expressar o que o movimento da sua cabeça deixava aparente. Ao seu lado, a costureira Clésia de Sousa primeiro respondeu que não fazia idéia do que se tratava. Sorriu quando questionada sobre os transtornos do trânsito, mas quando esclarecida sobre os motivos, apoiou.
-Eles estão reinvidicando e precisam fazer alguma coisa.
Foi então que a marcha dobrou à direita na avenida Luciano Carneiro. Logo após, cruzou a rua Jaime Benévolo em direção à rua Mário Mamede. O rumo levou para as fachadas da Escola Adauto Bezerra e do Centro de Humanidades da UECE.
A manobra fez os gritos serem ouvidos e as faixas vistas. Mas se a idéia era agregar novos militantes, a cena que se viu foram estudantes, igualmente estudantes, em uma marcha inversa, em direção às paradas de ônibus, às suas casas. Em um movimento contrário ao movimento, um rumo diverso. Não que se tratasse da falta de apoio.
-Eu apóio e só não estou porque realmente não estava sabendo.
Viviane Sousa, estudante de Letras na UECE, foi forte ao falar essa frase. Um pouco mais que quando, inicialmente, declarou não fazer a mínima idéia do que se tratava. Alegando o seu desconhecimento, ainda elogiou os envolvidos.
-Se não fosse eles, ficaria difícil.
Mas não eram todos que apoiavam. Dizendo ser conhecedora da causa, Juliana Gomes, também estudante de Letras na UECE, afirmou não ter a mínima vontade de participar.
-Eu acho que é uma luta sem propósito.
Perto daquela frase, Cristiane Pessoa, estudante do 3° ano do ensino médio da escola Adauto Bezerra dizia não compreender como alguém não se envolvia na causa. Ela contou uma história que teria acabado de acontecer na sua sala de aula: um colega explicou que não participava de nenhum movimento porque já existiam muitas pessoas para o representar.
-Isso me deixou chocada!
Segurando a primeira faixa da passeata, ela foi a primeira a curvar em retorno à avenida Luciano Carneiro, agora rumo à sede da Prefeitura Municipal. Um jovem saiu pulando depois de deitar-se no asfalto para parar o trânsito. Ele não escondia o que sentia.
-Sinto alegria!
Era sua terceira manifestação. Aos 16 anos, faltou sua aula na Escola Aldacy Barbosa dizendo lutar pelo passe livre. Parar o trânsito, explicou, era justo naquela situação. Um direito que tinha, por ser estudante. Um dever a cumprir, por ser injustiçado. Se fosse ele parado, com pressa, ficaria com raiva, mas aceitaria o direito do próximo de manifestar-se.
-Eles têm carro, e nós não. Então temos que ter algum direito!
Em todos eles, parados, sob o sol forte, outros tantos cidadãos se irritavam. Buzinavam. Colocavam os braços para fora.
Um chevete acelerou. Buzinou longamente. Fez barulho com motor e avançou de repente sobre o caminho da passeata. Vaias. Gritos. Ele não havia atingido alguém - o barulho que se ouvia era das mãos sobre o seu carro. Uma ordem de parada. Ele parou. O agente da AMC nas proximidades veio correndo e fez o alerta.
-Cuidado! Esse pessoal vem com pedra, pau, quebram qualquer coisa! É melhor você ter paciência!
Revoltado, o motorista fez cara feia para conversar. Seu nome é Bruno Moura. Apenas um funcionário de uma empresa aérea que levava o filho para casa, mas naquele momento, um grande oponente do movimento estudantil.
-Fechar a rua eles não têm direito, apesar de ser algo importante.
Sua revolta foi substituída pelo silêncio profundo, eternamente na primeira marcha. De fato, ele assumiu que não estava com pressa. Ao seu lado, em um Pálio, uma apoiadora do movimento. E essa estava com pressa.
-Dá para entender. Apesar dos transtornos, eles têm o direito.
E Polina Melo dobrou a esquerda, em direção à sala de aula onde cumpriria seu papel de professora. A massa de gritos, apitos e faixas vermelhas chegava à Prefeitura.
As inscrições nas bandeiras explicavam, um pouco, o destino da marcha. Afora um solitário A anárquico, começavam com P, de partido.
-Agora que ela está lá dentro quer deixar a gente aqui fora.
Gritaram do carro de som. As falas mudaram um pouco. Os gritos passaram a chamar a prefeita Luizianne Lins.
-Ô Luizianne, é brincadeira, fazendo acordo com a máfia da carteira!
Um assessor, já preocupado, dizia que todo o problema existia porque o processo havia se iniciado na gestão de Juraci Magalhães. Segundo ele, os estudantes deviam protestar era em frente das entidades estudantis, que elas sim teriam feito questão da cobrança de R$ 12,00 de cada estudante.
Mas se aproximaram do portão. Começaram a querer entrar.
-Luizianne, que papelão, abre logo esse portão.
Ela não estava lá. Mas continuavam a tentar entrar. A guarda municipal tomou seus postos.
-Nós estamos aqui para garantir a segurança dos manifestantes e dos servidores!
Arimá Rocha, diretor da Guarda Municipal, dizia isso ali perto, explicando não ter medo porque sua vida toda tinha sido dentro do movimento estudantil. Mas as hostilidades aumentaram.
-Viva Luizianne Lins! Viva Luizianne Lins!
Gritava uma senhora, berrando, no meio da massa vermelha. E os gritos aumentaram.
-Se não revalidar, o bicho vai pegar!
Vieram as pedras. Mas era tarde: janelas quebradas, guardas com medo e o nome Michel ecoando naquele cenário de calor do sol e fervor de ânimos.
-Vamos parar de jogar pedra para conversar! Nós não somos estudantes, não somos vândalos não!
Mas os chamados do carro de som já não tinham tanto efeito. A voz já era incompreensível pela rouquidão e os ouvintes nem eram mais 200. No máximo, 100. E, mesmo assim, não muito fiéis ao que diziam. Sorridente, Paulo Lucas, aos 16 anos, se vangloriava de ter quebrado duas janelas.
-A galera começou a jogar e eu joguei também, só por curtição! Eu não tenho medo não. Com guarda municipal dá para brincar, com a PM e a Civil, eu saio fora!
E sorriu. Uma colega ainda comentou.
-Sabe como é adolescente alienado?
Novas audiências foram marcadas. E novos capítulos dessa luta devem ser esperados.






