Gladmir Nascimento, da BandNews: "O Requião atua mais como editor-chefe do que como governador; mas a mídia paranaense escorrega muito"
Gladmir Nascimento, da BandNews: "O Requião atua mais como editor-chefe do que como governador; mas a mídia paranaense escorrega muito"
Gladmir Nascimento, da BandNews : "O Requião atua mais como editor-chefe do que como governador; mas a mídia paranaense escorrega muito"
Por Gladmir Nascimento foi o jornalista responsável por levar para Curitiba, há dez meses, a rádio BandNews. Hoje, é o diretor de Jornalismo da emissora e comanda uma equipe formada, basicamente, por jovens. "Eles passaram por uma prova de fogo pela qual muitos jornalistas experientes não passaram. Estou muito orgulhoso", comemora, falando sobre a cobertura da rádio das eleições estaduais.Em entrevista exclusiva ao Portal IMPRENSA, ele comentou a relação da imprensa paranaense com o governador reeleito Roberto Requião (PMDB) e criticou o comportamento de alguns colegas. "Aqui, nenhum dos dois lados é santo", afirma.
Confira, abaixo, a íntegra da entrevista:
Portal IMPRENSA - Como é a relação da BandNews com o governador Requião?
Gladmir Nascimento - Ele, às vezes, perde a serenidade. Com muita freqüência, até. Eu acredito que ele imagina que, por ter estudado Jornalismo, pode dizer o que os jornalistas podem ou não fazer. Aqui, nós temos uma política de não ofender o ouvinte, não fazer intrigas e não perseguir o governador pelo que ele faz ou deixa de fazer. Ele está ocupando um cargo público, sofre muita pressão; é até normal que se descontrole. Mas, se ele agride nosso veículo, levará o troco, sem perdermos a linha. Naquele show que ele deu no Palácio Iguaçu [coletiva um dia após a confirmação da vitória, em que ofendeu jornalistas], ele ameaçou surrar um repórter nosso que havia feito uma pergunta bastante pertinente. Respondemos, no ar, que ele devia procurar alguém do tamanho dele para brigar; no caso, alguém menor do que o repórter.
IMPRENSA - O presidente Lula teve uma relação bastante desgastada com a mídia no primeiro mandato. Ele prometeu mudar seu comportamento para os próximos quatro anos, mas deu alguns sinais que a coisa pode se repetir. Como você avalia a relação do presidente com a imprensa?
Nascimento - Eu acho que presidente nenhum é obrigado a dar entrevista; isso é choradeira de jornalista. Cada Governo tem que ter uma política de comunicação. Se ele quer dar ou não coletivas, cabe somente a ele decidir.
IMPRENSA - Mas como ocupante de cargo público, ele não deve prestar contas?
Nascimento - Prestar contas ao Congresso, a seus interlocutores, ao povo; não à mídia! Um Governo tem que ter uma comunicação institucional bem definida. É claro que a imprensa é o melhor meio de se comunicar com a sociedade - e eu acho que o Lula desperdiça isso. É um benefício que ele deixa de usar.
IMPRENSA - A relação da mídia com políticos se desgastou? Lula e Requião são bons exemplos desse desgaste?
Nascimento - O Requião utiliza o confronto com a imprensa como estratégia. Ele cresce no confronto direto e sabe disso; e usa muito bem. O problema é que ele se acha no direito de julgar o trabalho da mídia: emite conceitos sobre a edição, sobre as entrevistas; acaba agindo muito mais como editor-chefe do que como governador. Mas ele também tem as razões dele em reclamar. A imprensa paranaense escorrega muito. O que gera um conflito que não deixa de ser bom.
IMPRENSA - Bom em que medida?
Nascimento - Bom para o ouvinte. Com esse confronto público, expõe-se os dois lados, que não são santos e quem julga é o público, o ouvinte. A democracia é melhor com o confronto; é bom que haja um relacionamento franco em público. O Requião vai ser julgado politicamente pelo comportamento que ele tem apresentado.
IMPRENSA - Por enquanto, então, ele está conquistando essa "guerra"?
Nascimento - Dizer isso é reduzir a discussão. A vantagem com a qual ele ganhou foi bem pequena. Mas o eleitorado dele acha que sim.
IMPRENSA - E para os próximos quatro anos, como deve ser a relação?
Nascimento - O Requião é um sujeito destemperado. Mas profissional nenhum merece levar desaforo para casa. A BandNews não tolera desaforo, mas também não os faz: pergunta o que tem que ser perguntado. Mas se bater, vai apanhar de volta. Até porque não dependemos do estado.
IMPRENSA - A mídia foi responsável pelo desgaste da relação com os políticos? Ela tem sido muito agressiva?
Nascimento - Eu não considero a imprensa como sendo agressiva. Eu não posso julgar meus colegas em todo o Brasil - até porque não acompanho tudo -, mas, aqui no Paraná, as empresas costumam ter "surtos" de jornalismo, a cada vez que seus interesses são ameaçados. Aí, sim, o político tem razão em reclamar desse comportamento. Mas, quando se faz um jornalismo em tempo integral, não há porque.
IMPRENSA - E a imprensa, tem razão em reclamar dos políticos? A Folha de S. Paulo afirmou que o Requião é "conhecido pela boçalidade"...
Nascimento - Não, isso é mesquinhez. Não posso e nem quero julgar ninguém, mas acredito que a política é pública e o jornalismo é público: o que acontece na hora tem que ser resolvido na hora. E o rádio tem a vantagem de ser ao vivo. Falou, resolve, sem carregar mágoas profissionais e sem levar a discussão para a próxima entrevista ou próximo texto.






