Gay Talese: "As fontes devem ser expostas"

Gay Talese: "As fontes devem ser expostas"

Atualizado em 27/12/2005 às 11:12, por Denise Moraes | Redação Portal Imprensa.

Gay Talese: "As fontes devem ser expostas"

O escritor e jornalista Gay Talese, considerado um dos fundadores do new jornalism e autor do livro O Reino e o Poder , sobre a história do The New York Times , deu uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo , publicada na edição de ontem.

Em uma conversa franca, Talese criticou a imprensa e o governo de seu país e, sobretudo, a relação extremamente próxima que existe entre eles.

Comentou o caso de Judith Miller (repórter que ficou 85 dias presa por se recusar a revelar uma fonte que, depois, descobriu-se, era uma pessoa de alto cargo do governo Bush), alegando que "repórteres em Washington às vezes ficam próximos demais das fontes de poder" e acabam sendo usados por essas fontes como " flacks " (assessores de imprensa), fazendo uma verdadeira propaganda do governo norte-americano, em vez de questioná-lo.

Ele critica o alto escalão do jornal, que acabou se eximindo de grande parte da culpa que tinha sobre os artigos enganosos escritos por Miller: "(...) ela não publicou seus artigos, só os escreveu. Havia até dez editores que estavam ali para revisar seus artigos antes de as manchetes serem escritas. Portanto, a culpa deve ir para o alto, inclusive para o próprio [Arthur] Sulzberger, o publisher e dono do jornal, de 54 anos. Ele e seus principais editores são todos culpados".

Sobre a questão das fontes anônimas, Talese é decisivamente contra este meio para a obtenção de informação. Diz, na entrevista, que jamais utilizou uma fonte que não pudesse identificar para o seu leitor. "(...) acredito que em 80% das notícias com fontes não identificadas o repórter simplesmente foi preguiçoso demais para apurar direito e seduzir suas fontes. É possível fazer as pessoas falarem, pois quem quer dar informação sem ser citado é aquele que tem algum interesse na sua disseminação", diz.

Gay Talese ainda aborda outros temas na entrevista, como o imperialismo praticamente imbatível do governo Bush, a falta de oposição do partido democrata (adversário do partido republicano, que controla o poder atualmente) e a morosidade da imprensa norte-americana, que tem sacrificado a veracidade da informação em troca da proximidade com o poder e as elites.

Para assinantes da Folha ou do UOL , é possível ler a entrevista na íntegra, clicando .