Exclusivo: Marcos Losekann fala sobre seu primeiro romance e conta como é a rotina no Oriente Médio

Exclusivo: Marcos Losekann fala sobre seu primeiro romance e conta como é a rotina no Oriente Médio

Atualizado em 16/08/2006 às 19:08, por Pedro Venceslau/Redação Portal IMPRENSA.

Exclusivo : Marcos Losekann fala sobre seu primeiro romance e conta como é a rotina no Oriente Médio

Por O jornalista Marcos Losekann, correspondente da Globo em Jerusalém, se preparava para viajar ao Brasil para lançar seu primeiro romance, "O Dossiê Iscariotes", quando o conflito entre Israel e Líbano estourou no "quintal" de sua casa. A viagem teve que ser adiada, e o livro lançado sem o autor. Losekann conta que, se tudo der certo, espera desembarcar por aqui em setembro.

Nesta entrevista exclusiva a revista IMPRENSA, o jornalista fala sobre seu livro, carreira e a rotina da cobertura no Oriente Médio. A matéria completa você confere na edição de setembro da revista IMPRENSA.

IMPRENSA - Vamos começar como um breve histórico da sua carreira, desde os tempos da RBS até o Oriente Médio.
Losekann -
Comecei a trabalhar na RBS TV Cruz Alta (afiliada da Rede Globo) como ´faz tudo` na redação, depois de conhecer o Chefe de Jornalismo da emissora durante um episódio muito engraçado. Entrei em uma pizzaria para jantar, depois da aula na faculdade, e um cara se sentiu mal bem naquele instante. Ele quase desmaiou na minha frente, mas não chegou a tanto. Foi um mal súbito (acho que ele tinha bebido além da conta - risos). Era Flávio Damiani, gaúcho de Passo Fundo. Ao reconhecê-lo do vídeo (além de chefe de jornalismo, também era apresentador do Jornal do Almoço), brinquei quando ele perguntou como poderia me agradecer ao vento que eu lhe fazia com auxílio de um dos meus cadernos. Disse que queria um emprego como o dele. Lógico que isso foi uma piada, pelo menos para mim. Acabou que ganhei um convite pra conhecer a TV. Fui e nunca mais saí (risos). Comecei como voluntário e logo fui contratado. Editava, carregava fitas, fazia quase tudo... Um dia fui fazer uma enquete (ouvir opinião das pessoas sobre uma música que ganhara o festival local). Foi meu primeiro encontro com o microfone. Logo eu me tornaria oficialmente repórter, e Damiani se tornaria o que é até hoje: um de meus melhores amigos, como um irmão mais velho, um conselheiro, um ombro, um professor. De Cruz Alta, tempos depois, fui para Pelotas e, mais tarde, Caxias do Sul (RBS TV). Em 1987 decidi que queria outras experiências. Eu já fazia matérias para jornal e rádio, mas apenas como freelancer. Então aceitei uma proposta para trabalhar na Rádio Gaúcha de Porto Alegre. Foi ótimo porque aprendi a improvisar, a contar uma história sem o recurso de imagem (foto ou cenas). Foi um ano e pouco de escola com grandes professores, radialistas de primeira. De lá voltei para a RBS TV, mas em Santa Catarina (Florianópolis). Comecei como repórter local, mas em menos de um ano já estava fazendo matérias para a Globo. Mais um ano e meio nessa função e veio o convite para trabalhar na própria Globo. Comecei em Brasília, depois fui para Manaus (correspondente na Amazônia), Rio de Janeiro, São Paulo e, novamente, Rio... Até que veio o convite para ser correspondente em Londres. De lá, vim parar em Jerusalém

IMPRENSA - Em quanto tempo escreveu "Dossiê Iscariotes", o primeiro livro da trilogia "Entrevista com Deus"?
Losekann -
A idéia foi concebida há 15 anos, logo depois que cobri o julgamento, em Xapuri, dos assassinos de Chico Mendes. Por um instante pensei em fazer um livro sobre o caso, desde o assassinato até o desfecho no Fórum de Xapuri, em meados de Dezembro de 1990. Entretanto, percebi que daria apenas um livro a mais sobre os bastidores de um fato jornalístico. Então, eu que sempre fui leitor de thrillers, imaginei uma situação em que uma história fictícia pudesse se entrelaçar com os fatos concernentes ao assassinato de Chico Mendes. Isso foi amadurecendo por longos 8 anos, mais ou menos. Eu não tinha tempo, não tinha saco... O fato é que foi bom esperar, pois também me faltava experiência e até mesmo uma idéia mais ampla do projeto. O tempo foi me botando ao par de muitos outros grandes eventos jornalísticos e eu comecei a vislumbrar não um, mas 3 livros. Nesse meio tempo, também fui parar na Amazônia como correspondente. Lá conheci muitas culturas, muitas crenças (indígenas ou não), e muita gente de várias partes do mundo... Foi quando nasceu a idéia de dar à trama um lado místico também, essa coisa da crença, da divindade. E nasceu o nome da trilogia: ENTREVISTA COM DEUS. A minha experiência em outras duas das maiores coberturas jornalísticas da história recente do Brasil (impeachment de Fernando Collor e o assassinato de PC Farias) me conduziria ao ´norte` dos dois outros livros da trilogia. Assim, temos o primeiro, lançado agora em Agosto, ´O dossiê Iscariotes`, o segundo que deverá ser lançado dentro de seis meses, ´O segredo do Salão Verde`, e o terceiro e último que deverá sair dentro de um ano, que é o ´Entre a Cruz e a Suástica`. Eu sou suspeito, mas posso garantir que não ficam devendo para nenhum dos grandes livros desse tipo que vejo sempre na lista dos 10 mais vendidos no Brasil. E a diferença é que esse trabalho e essa história são genuinamente brasileiros. O leitor vai se deliciar, se emocionar, se assustar, se arrepiar, se envolver em uma trama que envolve fatos nossos, com personagens nossos, com nomes brasileiros. Enfim, é uma aposta, ousada eu diria. Mas tem tudo pra ser um sucesso. Acho que o mais importante é vencer o preconceito natural que temos em relação a autores nacionais desse tipo de literatura (thriller, policial, suspense), assim como temos em relação ao cinema verde-e-amarelo. Eu estou investindo no que acho que diverte, atrai, faz passar o tempo. Não é um livro para ganhar prêmio Nobel de Literatura nem para me conduzir à Academia Brasileira de Letras (risos). Nem é para agradar a crítica mais erudita e conservadora. É livro para ser lido.

IMPRENSA - O jornalista do livro é um alterego?
Losekann -
Se eu disser que minhas experiências como jornalista, de algum modo, influenciaram a condução da história fictícia, estarei sendo absolutamente sincero. Mas, por outro lado, não estarei mentindo se disser que a maioria dos fatos inventados foi baseado em histórias que colhi, ao longo da carreira, de colegas. Fiz disso tudo, dessas experiências, uma grande salada. E deu no que deu. Quanto ao personagem principal, o jornalista AGV, ele e eu somos gaúchos (juro que ele seria paulista, mas quem ler o livro verá que ele precisava ser do Sul pra justificar sua estréia no jornalismo internacional, ou seja, na guerra das Malvinas). Acho que essa é a única grande coincidência palpável. De resto, ele trabalha (e sempre trabalhou) para um jornal, enquanto que eu trabalho em TV e fiz quase de tudo nessa profissão. Ele também é mais velho do que eu, pois é de 1960 (eu sou de 66). Ele viveu o período da ditadura militar como repórter, eu peguei o finzinho do governo dos generais. Ele é (pelo menos no começo) um cara que ´se entrega` para a má-sorte, eu jamais fiz isso, jamais baixei a cabeça e me conformei com o infortúnio. AGV é inicialmente ateu, eu nunca fui. Ele é grosseiro por natureza (pelo menos no começo) e eu sou só de vez em quando (risos). Ele é ´galinha`, eu sou fiel a minha mulher (é sério!!! - risos). Ele, pelo menos no começo, não tem muito escrúpulo para conseguir a informação, o furo que deseja, já eu jamais ultrapassei o limite da ética nesse aspecto... E por aí vai. Agora, é engraçado, tem horas que eu até invejo o AGV, principalmente quando ele desvenda a encrenca toda que norteia o livro. O trabalho dele é digno de todos os prêmios de jornalismo, eu jamais cheguei nem perto de tal sucesso... (risos). Em compensação, ele sofre como eu nunca sofri...

IMPRENSA - Como foi parar na Amazônia?
Losekann -
Eu vinha de uma fase de incursões bem-sucedidas na Amazônia quando se aproximava o começo da Rio-92 (Conferência Mundial Sobre Meio-ambiente que reuniu mais de 150 chefes de estado e de governo no Rio de Janeiro em maio de 1992). A CGJ (Central Globo de Jornalismo), na época comandada por Alberico Souza-Cruz e Carlos Henrique Schroder (o atual diretor da CGJ era diretor executivo naquele tempo), tinha planos de ter um repórter fixo na Amazônia havia muito tempo. A Rio-92 precipitou as coisas. A idéia era ter um repórter lá durante o evento e depois. Assim, certo dia, recebi o telefonema do chefe-de-produção indagando sobre meu interesse em deixar Brasília, onde eu já trabalhava havia 2 anos. Dali para a conversa derradeira com Schroder e Alberico foi questão de dias. Saí da sede da Globo no Rio já como correspondente da Amazônia. A afiliada da Globo naquela região ainda não tinha um plantel de jornalistas que a CGJ julgasse capaz de dar conta da produção diária de matérias de rede. Essa passou a ser a minha tarefa. Eu era funcionário da Globo, mas ocupava um espaço dentro da afiliada (Rede Amazônica de Rádio e TV). Eu tinha o apoio técnico e uma base física. A afiliada, solicitada pela Central Globo de Afiliadas e Expansão (CGAE), forneceu carro com motorista, um auxiliar técnico e um cinegrafista. Nós quatro passamos a ´ser` a Globo em toda a região Amazônica e nos países vizinhos. Daquela experiência que durou 3 anos e meio resultou, além de quase 400 matérias, um livro de bastidores: O Ronco da Pororoca - Histórias de um repórter na Amazônia (Editora Senac - 1999).

IMPRENSA - Sofreu alguma ameaça ou foi intimidado no período que passou na Amazônia?
Losekann -
Perdi a conta do número de ameaças que recebi, principalmente de ´alguém` a mando de coronéis da política local. O mais sério foi certa feita em Boa Vista, onde denunciávamos fraudes na campanha eleitoral para o governo estadual. O candidato mais forte era o ex-governador Otomar Pinto. Ele distribuía pintinhos na periferia para aludir ao próprio sobrenome. Era hilário. E além disso, havia mil denúncias sérias, de corrupção e tudo o mais. Um prato cheio pra gente. Mas, como era muita coisa, em vez de irmos para fazer a matéria e voltarmos, ficamos em Rio Branco, enviando as matérias de lá. Não demorou para deixarem um recado no carro que alugávamos. ´As luzes vão se apagar pra você` - dizia o arauto da ameaça. Eu logo concatenei com morte, com algo assim, mas não levei a sério. Chegando no hotel, no dia seguinte, havia outro recado, dessa vez na portaria: ´As luzes vão se apagar pra você`. Eu rasguei o papel, entreguei ao porteiro e dei dois passos em direção à escada. Foi quando todas as luzes da capital de Roraima se apagaram. Não preciso nem dizer que em menos de um segundo eu estava no chão, atrás do balcão. Ainda mais que nesse exato instante um carro - parecia uma caminhonete - parou diante do hotel e ficou acelerando por alguns segundos, antes de partir em disparada. Não sei se tudo não passou de coincidência ou se tinha alguma relação com nossas denúncias, mas o fato é que pra desligar a luz, quem quer que fosse, teria que ter acesso ao ´interruptor`, né? E o sistema da Eletronorte em Roraima era administrado pelo governo do Estado. E as denúncias eram contra esse governo e seus protegidos... Enfim, muita coincidência, não?

IMPRESA - Quais as peculiaridades da cobertura na Amazônia e no Oriente Médio? Que balanço faz destes dois momentos da sua carreira?
Losekann -
O maior e o melhor momento, não necessariamente nessa ordem. O melhor foi ser correspondente na Amazônia, com certeza. Era o período mais puro da minha descoberta como jornalista, dos meus limites, dos meus defeitos e das minhas virtudes profissionais. Eu era muito mais jovem e mais sonhador, eu era mais ingênuo também. Foi uma boa ´incubadora`. No Oriente Médio cheguei mais maduro, pronto para uma nova fase de aprendizado, aquele em que a gente se lapida, se aperfeiçoa, se expõe com mais pé no chão. E aprende, pois um jornalista que acha que não tem mais nada para aprender é porque morreu e não percebeu. Eu acho que ambos são e sempre serão os meus pontos cardeais preferidos. No norte, a Amazônia... No leste, mais precisamente no Oriente Médio, a Terra Santa e seus milagres e pecados. Eu não poderia ter tido bênção maior. Do berço da mãe natureza ao berço do monoteísmo. Quer graça maior do que essa? Agora, lá os perigos eram - além dos bichos que cruzavam meu caminho de vez em quando (risos) - os políticos sem escrúpulos, os aventureiros, os corruptos... Era esse o tipo de personagem que mais freqüentava minhas matérias... E os que mais me davam dor de cabeça. Aqui lido com fé, com idealismo extremista, com terrorismo, com guerras... É outro cenário, mas é parte do mesmo mundo. Saber separar e tirar proveito das diferenças, das experiências, das conquistas e das derrotas, é meu grande desafio. Como? Ora, com fé em Deus, aqui mais do que nunca.

IMPRENSA - Como foi o processo que culminou com sua ida para Israel?
Marcos Losekann -
Foi um casamento de circunstâncias e criatividade administrativa, além de uma grande coincidência. A circunstância principal envolve a tecnologia. Até 4, 5 anos atrás era impossível imaginarmos tantas bases internacionais quanto a Globo possui agora (além dos tradicionais escritórios de Nova Iorque e Londres, a emissora está presente em Washington, Buenos Aires, Paris, Roma, Pequim e Jerusalém), pois as gerações via satélite eram a única forma rápida de enviarmos as matérias do exterior para as redações de Rio e São Paulo. Isso tornava as operações caríssimas, imprecisas, difíceis. A internet veio facilitar e, principalmente, baratear tudo, pois permitiu a remessa de matérias por banda larga, o que elimina toda a parafernália e a burocracia dos procedimentos via satélite. Inventaram o programa de computador Clip Net, equipamento principal do chamado ´Kit Correspondente`, que compreende laptop, câmera, cabos, microfones, baterias, tripé, fitas, etc... Imediatamente a direção da CGJ (Central Globo de Jornalismo) vislumbrou o novo mapa-múndi do jornalismo da Globo. Em vez de ter repórteres concentrados em Londres, conectados ao satélite, por que não espalhá-los pelo mundo, em pontos jornalisticamente estratégicos? E assim, de forma pioneira, a CGJ iniciou o estudo dos possíveis pontos que seriam preenchidos ao redor do planeta. Coincidentemente, nesta mesma época eu comecei a achar meu tempo de correspondente em Londres havia-se completado. Flagrava-me pensando no quanto poderia ser interessante estar permanentemente no lugar dos grandes fatos em vez de viajar para esses locais de vez em quando a partir da capital Britânica. Numa de minhas idas ao Rio de Janeiro, manifestei meus pensamentos aos diretores da CGJ, Carlos Henrique Schoroder e Ali Kamel. Foi quando ouvi deles que o projeto já andava a passos largos e que eu fazia parte dos planos. Surpresa mesmo foi saber que os dois diretores me imaginavam ocupando o cargo de correspondente no Oriente Médio, com base em Jerusalém (cidade que reúne tanto judeus como muçulmanos, além de outras religiões, e é neutra sob o ponto de vista do conceito político dos envolvidos nos conflitos da região). Era exatamente o lugar que eu adoraria ´experimentar`. Menos de um ano depois desse dia (dia para mim histórico) eu desembarquei no Aeroporto Internacional Ben Gurion para morar, trabalhar e desbravar esta Santa Terra.

IMPRENSA - Desde quando está cobrindo Oriente Médio?
Losekann -
A chegada foi no dia 15 de maio de 2004, sendo que a estréia no Jornal Nacional ocorreu 9 dias mais tarde, depois que eu preenchi todas as exigências legais para a obtenção do visto e o credenciamento junto aos órgãos de imprensa. No dia 23 de maio, um domingo, acordei às 7 da manhã e fui pegar minha carteirinha. Estava livre para trabalhar. Então pensei: por onde começar? Eu havia lido uma matéria na Internet sobre um campo de refugiados palestinos na Faixa de Gaza, próximo a Rafah. O nome do campo seria Brazil (assim mesmo, com Z). Parecia perfeito estrear mostrando os ´brasileiros` do Brazil palestino. Um hora e meia mais tarde eu já estava a caminho de Gaza. Terminei a matéria em cerca de 6 horas. Fiz tudo absolutamente sozinho, desde produzir o encontro com os palestinos que eu entrevistaria até a filmagem. Quando tinha de entrevistar, botava a câmera no tripé e posicionava o entrevistado na frente. Depois largava a câmera sozinha, gravando, e fazia as perguntas. Na hora de gravar a passagem (a fala do repórter para a câmera) fazia da mesma forma: ajustava o foco para 2 metros e depois calculava a posição, o lugar onde parar. Em seguida largava a função de cinegrafista e assumia a condição de repórter, diante da lente. Lembro-me que foi meu primeiro de muitos sustos nesta região. Durante as gravações começaram a pipocar balas no chão... Era um helicóptero Apache que disparava. Me escondi embaixo de uma laje - parte das ruínas de uma casa anteriormente alvejada por tanques israelenses. Recuperado do susto, fui gravar uma nova passagem (eu gravei participações para todos os telejornais diários: BDBR, JH, JN e JG), dessa vez para o Jornal Nacional. E, de repente, aparece um tanque, atirando... Foi um sufoco. Mas com o tempo aprendi onde me posicionar, onde ficar durante um tiroteio... De susto em susto, aprendi. Graças a Deus, nunca sofri um arranhão.

IMPRENSA - Como é a sua rotina de trabalho e o que mudou com o atual conflito?
Losekann -
Eu sempre trabalhei muito aqui, pois o que não falta nessa terra é assunto jornalístico. Houve, nesses 26 meses iniciais, vários eventos que me obrigaram a trabalhar de sol a sol, literalmente: a doença do primeiro-ministro Ariel Sharon, a retirada dos colonos judeus da Faixa de Gaza e os funerais de Yasser Arafat, só pra ficar em três exemplos. Nesses casos, foram VTs para o Bom Dia Brasil, para o Jornal Hoje, para o Jornal Nacional e para o Jornal da Globo, além do Fantástico no domingo - durante semanas. Como me nego a me plagiar, sempre faço VTs inéditos para cada jornal, buscando uma informação nova, um detalhe, qualquer coisa pra ficar diferente. Mesmo que o assunto seja exatamente o mesmo, sem evolução, eu dou um jeito de mudar a forma de contar, as frases, as palavras... Isso já dá trabalho em coberturas que se estendem por 3, 4 dias... até uma ou duas semanas. Agora, imagina numa guerra como esta, antecedida por uma longa ofensiva na Faixa de Gaza... São muitas semanas nesse pique. E ainda há, no meio dos telejornais, edições do Globo Notícia. Cansa, sim, mas é muito bom estar presente onde a história está sendo escrita. Você vira testemunha ocular, realmente, da história. E isso é como um prêmio para um jornalista. Portanto, apesar do ritmo louco, eletrizante e cansativo, eu devo admitir que odiaria estar fora dessa cobertura. Levanto por volta de 8 horas da manhã (Israel está 6 horas na frente do Brasil) e já começo, durante o café, a ler os jornais locais. Vou para a cama só depois das duas da matina (8 da noite no Brasil), após o fechamento do JN e do JG... E no dia seguinte, tudo outra vez. Quando não vou ao front eu fecho as matérias a partir de Jerusalém, com notícias apuradas com fontes no governo israelense, na autoridade palestina, em nossas embaixadas em Beirute, Amman e Tel Aviv, além das Agências de Notícias. As imagens são de agência nesses casos, mas eu sempre arranjo um detalhe exclusivo para filmar e dar aos VTs um lado peculiar, com nossa ´cara`. É divertido. O dia passa tão rápido que nem vejo. Quando vou ao front, é barra. Além de atender a todos os telejornais, ainda há o trabalho em si, a filmagem, a coleta de informação com fontes nem sempre tranqüilas, descansadas ou disponíveis. Fora isso, tem a tensão, os tiros, os foguetes que partem do outro lado da fronteira e caem a esmo... É mais complicado, mas mais interessante também.

IMPRENSA - Como é a relação entre os jornalistas brasileiros que vivem em Israel?
Losekann -
Eu convivo muito pouco ou quase nada com jornalistas brasileiros aqui. E aponto dois motivos: primeiro, além de mim, há um ou dois jornalistas não judeus e com emprego fixo em veículos de comunicação do Brasil, pois todos os demais jornalistas brasileiros daqui são judeus que vieram fazer alliah (processo pra se tornar israelense). Nesse caso, alguns trabalham na imprensa local e outros fazem outra coisa na vida. Uma minoria presta serviço como freelancer para veículos brasileiros, mediante a relevância dos fatos e o interesse das redações. Portanto, o universo de coleguinhas é bem pequeno; segundo, porque optei - com o amplo aval da direção da Globo - por morar em Jerusalém, a despeito de não ser oficialmente a capital do país (não é para a ONU, embora seja aqui a sede do governo, do parlamento, dos ministérios, tudo...). A opção logo se mostrou produtiva, pois além de Jerusalém ser uma cidade neutra, adorada por todos os ´lados` do conflito (o que dá legitimidade à nossa aparição daqui para falarmos das questões locais da forma mais isenta possível), nesta cidade encontramos boas fontes e bons cenários também (o que para TV é fundamental). Os meus colegas moram em Tel Aviv, uma cidade cosmopolita, vibrante, que ´nunca dorme`. Fica às margens do Mediterrâneo, é quente, é divertida. Mas falta à Tel Aviv, eu creio, esse equilíbrio cultural e religioso, pois trata-se de uma cidade totalmente israelense. Além disso, fora a presença das embaixadas, nada mais que lembre uma ´capital`, como a ONU considera, pode ser visto em Tel Aviv. Para mim, é uma cidade de veraneio. Como vim para cá para trabalhar, o endereço é Jerusalém, sem dúvida. Dessa forma, me encontro com os jornalistas brasileiros apenas em alguns eventos maiores, como a entrevista coletiva do primeiro-ministro ou os funerais do Arafat. Até porque a maioria dos meus colegas trabalha para jornais e pode, portanto, fechar suas matérias sem se deslocar para muitos dos locais que eu, ao contrário, preciso ir. Mesmo assim, tenho uma boa relação profissional e pessoal com a Daniela Kresh (freelancer da Globo News), com a Renata Malkes (freelancer do Jornal O Globo e produtora da TV Record) e alguns outros. Geralmente nos falamos, trocamos algumas dicas, informações, essas coisas... E, fora do trabalho, de vez em quando tomamos cerveja juntos pois ninguém é de ferro, né (risos)?

IMPRENSA - Quais as regras de segurança que você costuma seguir? A Globo tem um manual ou código de segurança?
Losekann -
A segurança na TV Globo está acima de tudo. Eu mesmo, bem como outros colegas que eventualmente cobrem conflitos, fiz um curso de sobrevivência em áreas de risco (jornalismo de guerra) ministrado por uma empresa anglo-americana, a Centurion. É um curso de imersão total. Você se hospeda em um hotel (no meu caso foi no interior da Inglaterra) e durante cinco dias vive como se estivesse em meio a uma batalha. Os caras são muito bons, simulam tudo com bastante perfeição e ensinam tudo. A gente aprende desde a ajudar alguém ferido, a fazer respiração boca-a-boca, a estancar sangramento, a carregar um doente, até (principalmente) a cuidar de si mesmo. Aulas de como identificar uma bomba, de como evitar um estilhaço, de como negociar com chefes de grupos extremistas, etc... Tudo isso eu aprendi nesse curso. Foi maravilhoso e é diariamente útil por aqui. Também possuo colete a prova de balas e fragmentos de explosivos, além de capacete. Fora isso, a orientação da CGJ é sempre que houver dúvida sobre a segurança, não ir, não avançar, não fazer. Tentar ficar o mais longe possível. Claro que numa guerra, tudo pode acontecer. Nesse caso, se estamos fazendo o máximo para nos proteger e, ainda assim, o pior acontece, faz parte. Aliás, tenho um bom exemplo: no dia 4 de agosto, em Metula - extremo norte de Israel - estávamos em uma zona de risco mas havia a sirene tocando toda hora, avisando que devíamos nos proteger. Corríamos para nos abrigar toda vez que a sirene tocava. Até aí, tudo de acordo com as normas. Entretanto, um míssil caiu do nosso lado de repente, sem que a sirene tivesse tocado. Ele veio muito baixo, fora do alcance dos radares israelenses que detonam o alarme. Acontece. Felizmente, foi apenas um susto, um grande susto... O mais importante é frisar que a Globo não me ´obriga` a me arriscar, a ir à área de combate, a visitar as cidades alvos dos terroristas. Isso é uma decisão que eu tomo porque sou jornalista. É somente assim que eu vejo essa profissão. Você precisa, às vezes, arriscar um pouco mais para conseguir uma boa história. Nesse caso o perigo faz parte. E é uma questão de sorte. O contrário de sorte não existe no meu vocabulário.


IMPRENSA - Na sua opinião, os israelenses subestimaram o Hezbollah?
Losekann -
Eu não acho isso não. Depois de morar aqui por mais de dois anos, depois de ter visto como eles têm um serviço secreto competente, não posso imaginar que eles não soubessem o tamanho do ´inimigo`. Talvez também por isso sentiram que era a hora de atacar, de tentar evitar o crescimento ainda maior do grupo. Eles sabiam. Quem subestimou - e por isso pode ter ficado um tanto decepcionado com a ´lentidão` ou com a ´eficácia` das Forças de Defesa de Israel - foi o público em geral, que achou - sabe Deus - que seria um passeio, como foi quando Israel guerreou outras 4 vezes contra seus vizinhos. Acontece que dessa vez o inimigo israelense não é um exército uniformizado e com base certa. Trata-se de um grupo que usa táticas de guerrilha misturadas com terrorismo puro, que se esconde em meio a civis, que se camufla em residências... Não é tão ´fácil`. Por outro lado, acho que o Hezbollah pode - esse sim - ter subestimado a reação de Israel. Acho - é mera impressão pessoal, mas compartilhada por outros correspondentes estrangeiros que trabalham aqui - que ao seqüestrar dois soldados e matar outros oito, o Hezbollah achava que haveria uma reação menor, e que lá pelas tantas Israel aceitaria negociar. Acredito que ninguém do lado libanês da fronteira esperava esse ´basta` israelense. Nós da imprensa, pelo menos, fomos surpreendidos.