Entrevista: O matemático Mauro Naves fala sobre os bastidores da Copa

Entrevista: O matemático Mauro Naves fala sobre os bastidores da Copa

Atualizado em 03/02/2006 às 13:02, por Gabriel Mitani* e Gustavo Girotto.

Entrevista: O matemático Mauro Naves fala sobre os bastidores da Copa

Por O estudante Mauro Naves estava no começo do curso de Estatística da Universidade Federal de Brasília quando foi convidado por um amigo jornalista para jogar futebol no clube de imprensa da cidade. "Como eu era novinho e só jogava com caras velhos, modéstia à parte, eu dava olé", brinca.

Foram nesses jogos que Naves começou a ter contato com o jornalismo. "Sempre me diziam que eu levava jeito para ser repórter. Então resolvi estudar Jornalismo, mas não deixei o curso de estatística", conta. Um belo dia, o goleiro de seu time, que era chefe de reportagem da TV Globo, convidou Naves para fazer um teste na emissora.

Seu emprego na Globo foi como repórter geral de Brasília para o noticiário local. Meses mais tarde, porém, teve a sorte de cobrir um torneio de tênis que interessou aos pauteiros do Jornal Nacional. "Fui o primeiro repórter de Brasília a emplacar uma matéria de esportes no JN. Ganhei reconhecimento por isso. Viram que eu levava jeito para esportes", relembra.

Desde 1989, Naves cobre todas as finais de campeonato brasileiro. No currículo, coleciona a cobertura de duas Copas do Mundo (França e Japão/Coréia), Copa América, Copa das Confederações, Libertadores e campeonatos regionais e nacionais.

Em entrevista exclusiva para o Portal IMPRENSA, Mauro Naves conta um pouco da sua rotina de repórter futebolístico. A matéria completa, você confere na edição 210, de março, da Revista IMPRENSA.

IMPRENSA - Como você avalia a sua evolução da primeira copa que você cobriu (França, 1998) para a Copa da Ásia (2002)?
Mauro Naves - Com o tempo, a gente aprende os caminhos. A primeira vez que eu fui para uma zona mista, fiquei um pouco preocupado, perdido e muito ansioso. Não sabia onde o jogador poderia parar para conversar, se conseguiria fazer uma pergunta, qual posição seria a melhor para fazer a entrevista, se o jogador estava cansado da viagem e não queria falar... Mas é uma ansiedade costumeira.
Daí o tempo passou, fiz a cobertura de uma Copa América, uma Copa das Confederações e fui pegando as manhas... Na Copa da Ásia, o esquema não mudou muito, então fiquei bem mais tranqüilo.

IMPRENSA - Vários colegas que cobrem esporte reclamam dos privilégios da Rede Globo. Isso existe?
Naves - O único privilégio da Rede Globo é ter o dinheiro para comprar o credenciamento e os direitos que custam caro. Sem comprá-los, você não é credenciado. Quando é preciso fazer uma entrevista, o seu microfone fica ao lado de outros profissionais credenciados e a guerra é a mesma para todos. Ninguém fala com a gente por ser da Globo, isso é uma questão de intimidade. Um profissional que tenha intimidade com outros jogadores, talvez consiga repostas que eu não vá conseguir. O que faz a diferença na abordagem das matérias não é a emissora, mas sim a audácia do repórter.

IMPRENSA - Qual o relacionamento entre os profissionais da área esportiva?
Naves - É muito amigável, solidário, não vejo sacanagem. Eu acho que há uma guerra maior com o pessoal de jornal impresso. Em TV, o pessoal sabe que, quando temos exclusiva, não podemos sair espalhando pra todo o mundo. Mas trocamos muitas figurinhas, não tem essa de dar golpe um no outro. Há concorrência, não maldade.
Essa Copa acho que vai dificultar a nossa vida. A seleção vai ficar trancada no hotel, sem acesso para a imprensa... vai ser difícil ter uma exclusiva.

IMPRENSA - Qual a principal dificuldade que você enfrenta nesse tipo de cobertura?
Naves - Acho que, principalmente nessa Copa, a dificuldade será de acesso aos jogadores. Eles estarão concentrados e fechados no hotel, não sei como vamos fazer! Mas acesso à informação e a jogador é sempre um problema. É nessa hora que entra o fator amizade, afinidade, intimidade... Lista de contato é fundamental. Antes, pelo menos, tínhamos mais acesso. Acho que agora vamos ter que fazer uma certa pressão.

IMPRENSA - E qual a situação que lhe marcou por ter sido difícil de lidar?
Naves - A pior coisa que me aconteceu foi em um jogo do Corinthians no Paraguai, em 1999. Enquanto estávamos lá, o país entrou em Estado de Sítio por causa do assassinato do vice-presidente do país. Durante o jogo, havia um temor muito grande de que jogassem bombas, já que nas ruas estava ocorrendo a maior guerrilha. Foi uma semana inteira de tensão.
Mas também estive em campo no maior incidente dos últimos tempos do futebol brasileiro. Foi em agosto, no Pacaembu, entre torcedores do São Paulo e do Palmeiras, que culminou no assassinato de um torcedor. Eu estava dentro de campo e tinha que, ao mesmo tempo em que cobria a briga, fugir das pedras e dos paus que voavam.
Uma situação engraçada, também, foi na Coréia. Em Ulsan não tinha hotel suficiente para a nossa delegação e nós fomos hospedados em motéis. Um dia, voltando do trabalho com o meu editor, pegamos um táxi, e fomos para um motel. O taxista já achou estranho e deu risada. No motel, esperando o elevador, chegou um cara com duas mulheres, que ria da nossa cara. Não agüentei, me virei, dei uns gritos com ele e falei pra não encher o nosso saco. Com certeza ele não entendeu nada, mas foi engraçado.

Naves: "O que faz a diferença na abordagem das matérias não é a emissora, mas sim a audácia do repórter"

IMPRENSA - Que evento que você cobriu que mais marcou a sua carreira?
Naves - O que mais me marcou não foi uma final de Copa nem evento esportivo algum, mas a morte do Ayrton Senna. Em 1994, ele era indiscutivelmente o maior ídolo nacional em atuação. E eu, coincidentemente, fiz a última reportagem dele para televisão. Foi em uma quarta-feira, logo depois de ele perder o Grande Prêmio do Brasil. Demos duas voltas com ele dentro do carro nos explicando como havia derrapado, e a matéria entrou no Jornal Nacional e no Globo Esporte.
Ele saiu dali e, no mesmo dia, viajou para a Europa, pra correr o último GP da vida. E só voltou ao Brasil um mês depois, infelizmente morto. Ver o enterro dele, aquela comoção toda da população... aquilo doeu muito. Mais que perder a Copa em 1998. Vieram à cabeça todas as lembranças da última entrevista dele aqui no Brasil... Fiquei brincando com ele dentro do carro, pois ele queria me mostrar por que tinha derrapado. Daí ele foi puxar o freio de mão, e o carro morreu. Eu briquei: "Pô Senna, ta ruim de braço!"... E ele respondeu, brincando, também: "É... será que eu estou velho?".
Mas, do lado positivo, é muito bom ganhar uma Copa do Mundo, é uma alegria imensa. Parece que você é mais um jogador em campo, é uma delícia. Você olha pro lado e tem jornalistas de todos os países te olhando... Eles têm uma admiração incrível, sabem que brasileiro é bom de bola. Os argentinos olham torto, ficam com uma raiva tremenda; os alemães ficam muito decepcionados e, nós, sempre admirados.
A final de 1998 também marcou. Na França, eu era responsável por dar o último flash da seleção saindo do hotel para ir ao estádio. Na final, como já tínhamos gravado os lugares dos jogadores no ônibus, eu vi que o Ronaldo não estava sentado, mas nunca poderia imaginar que ele havia passado mal. Quando o ônibus passou, o Denílson, sentado, fez sinal de negativo, mas ele é gaiato, quando que eu iria interpretar que aquilo era um sinal? Liguei para uns dez jogadores nesse dia, e ninguém atendeu o celular. Pensei que estivessem concentrados...Dei azar!

IMPRENSA - Como é lidar com a emoção em momentos desses?
Naves - Acho que um dos grandes méritos meu é entrar ao vivo na TV de maneira tranqüila. Eu me acostumei a ficar frio. Lógico que quando sai gol do meu time, eu estou vibrando muito por dentro, mas por fora não posso mostrar nada.

IMPRENSA - Você acredita que a Copa a Alemanha será menos exaustiva que a da Ásia, em relação ao fuso horário? Como era a cobertura na Ásia e como será na Alemanha em termos de fechamento de matéria?
Naves - O fuso da Alemanha será melhor do que o da Ásia. Sempre você estará no país acordando às 7h para acompanhar o treino das 9h e dormindo só quando todos estiverem dormindo - para não deixar escapar nenhum furo de reportagem. Depois de se adaptar aos horários, você acaba vivendo o dia inteiro em função do trabalho. Não têm muita diferença, mas para enviar o material ao Brasil desta vez será melhor.

IMPRENSA - Como será o uso da tecnologia na Alemanha comparada ás outras Copas do Mundo em que participou?
Naves - Eu já tive uma experiência na Copa das Confederações do ano passado. Os estádios estão bem equipados e a promessa é investir ainda mais em material tecnológico para essa Copa da Alemanha. Acredito que eles vão cumprir e teremos Internet sem fio em todos os lugares. De todos os estádios, dará para utilizar um laptop sem linha, o celular funcionará bem e até GPS nos carros teremos para locomoção. Muita tecnologia que facilitará não somente para televisão, mas para todas áreas de atuação de imprensa. O grande problema dessa instantaneidade da Internet é o fato de ter que jogar o furo na hora e não apurar devidamente. Muitas vezes as pessoa têm informações, porém, não checam e acabam comendo barriga.

IMPRENSA - E como é feita a comunicação com os nativos?
Naves - Na Ásia, realmente, foi difícil. Temos que levar tradutores ou contratamos gente lá do país, mesmo. No Japão, nós contratamos brasileiros que trabalhavam de taxistas. Mas não dava pra olhar nem o cardápio. Na Coréia, eu corria o risco de comer cachorro pensando que fosse filet mignon!

IMPRENSA - Dá pra conhecer o país, enquanto faz a cobertura?
Naves - Muito pouco. Fiquei 52 dias cobrindo a seleção na última Copa. Dos 20 dias que passei no Japão, não conheci um templo sequer. A rotina era estádio-hotel direto. Quando temos uma folga, estamos cansados. Até dá pra dar uma escapada, mas nada de exageros. Nós aproveitamos como os jogadores.
Tanto é que, depois da Copa, eu quero levar a minha mulher pra conhecer melhor a Alemanha.

IMPRENSA - Para Alemanha, vão levar tradutores?
Naves - Não, já temos alguns repórteres se adaptando por lá. E dá pra se virar com inglês na Alemanha. Mas, onde precisamos trabalhar, tem gente falando todas as línguas, até português. A Fifa procura esse pessoal pra dar um apoio nos jogos, e isso é um sinal de boa organização.
Mas a Globo dá alguns cursos antes da Copa. Agora, por exemplo, está tendo um curso intensivo de Alemão.

IMPRENSA - Já se sabe quantas pessoas da Globo vão à Alemanha?
Naves - Quem vai já foi avisado individualmente. Mas, no mínimo, 170 pessoas vão. Esse é o nosso diferencial. Teremos uma equipe em cada cidade onde haverá jogos.

IMPRENSA - E, finalizando, pra que time você torce?
Naves - Não posso revelar o meu time, o torcedor está cada vez mais passional, ele não consegue entender e diferenciar o que é torcer e o que é ser profissional. Eu tenho que torcer para todos os times de São Paulo, porque são os times que eu cubro. Em Libertadores, por exemplo, eu tenho que torcer pros times da capital ganharem, pois eu tenho mais possibilidade de ir cobrir no exterior.

* Gabriel Mitani é estagiário do Portal IMPRENSA