Eleições na Palestina:
imprensa paga mico

Eleições na Palestina:
imprensa paga mico

Atualizado em 26/01/2006 às 11:01, por Denise Moraes | Redação Portal IMPRENSA.

Eleições na Palestina:
imprensa paga mico

Em seu livro, O que é ser jornalista (Ed. Record), o blogueiro Ricardo Noblat dá uma dica valiosa: o bom jornalista nunca deve confundir o que vai acontecer com o que ele quer que aconteça.

Alheios ao conselho do Sr. Noblat, os jornais de todo o mundo estamparam hoje, em sua versão impressa que o Fatah, partido da situação palestina, havia ganhado, por uma pequena margem, as eleições para o parlamento da Palestina, as quais ocorreram ontem, em todo o país.

Não se sabe quem foi que lançou o boato, mas o fato é que, mesmo antes do final da contagem de votos, era dada como certa uma vitória do Fatah, que liderava as pesquisas, ainda que com uma pequena diferença de votos sobre o adversário Hamas.

A imprensa, por sua vez, comprou a história, que girou em todas as agências internacionais - o que, consequentemente, influenciou a imprensa brasileira. Na versão impressa da Folha de S.Paulo de hoje, o correspondente Marcelo Ninio, enviado especial do jornal a Gaza, escreveu, no caderno "Mundo": "Fatah vence Hamas por pequena margem".

Já no O Estado de S. Paulo , a chamada de capa é "Fatah vence Hamas e buscará coalizão". A versão impressa do Jornal do Brasil apenas menciona que, em uma boca de urna feita ontem, com 6.500 eleitores, o Fatah liderava com 42% dos sufrágios contra 34% do Hamas. O jornal carioca O Globo também estampou em sua capa: "Hamas exibe força no voto palestino". Contudo, no pequeno texto logo abaixo da chamada, o jornal dizia que os palestinos transformaram "o movimento radical Hamas na segunda força política", atrás apenas do Fatah.

Mas a bola fora tomou conta principalmente no âmbito internacional. Na versão impressa do Jerusalem Post , por exemplo, o "Fatah venceu as eleições apesar da força demonstrada pelo Hamas nas urnas". O Haaretz , principal jornal de Israel a essas horas confirma a vitória do Hamas, mas em sua versão impressa também come bola e diz que "a eleição dá uma vitória apertada ao Fatah".

Esperto mesmo foi o The New York Times . O jornal norte-americano apenas anunciava em sua capa de hoje que, segundo pesquisas, o partido Fatah estava sendo pressionado pelo Hamas nos votos dos palestinos. O The Washington Post também ficou em cima do muro. Apenas informava que a disputa entre o Hamas e o Fatah estava bastante acirrada e que o resultado final seria divulgado até o meio-dia de hoje.

O acontecimento foi um sinal forte da queda dos jornais frente à rapidez da Internet : com pressa de mandar o produto para a gráfica o mais rapidamente possível, muitos editores foram na onda da barbada que seria a vitória do Fatah. Não acreditaram que seria possível uma virada de última hora do Hamas.

O preço: muitas publicações passarão esta quinta-feira nas bancas oferecendo uma informação falsa e mal checada para seus leitores. O alívio virá apenas no recolhimento do encalhe, amanhã.