Eleições 2006: "Escândalo do dossiê foi o estopim que levou Alckmin ao segundo turno", diz cientista político

Eleições 2006: "Escândalo do dossiê foi o estopim que levou Alckmin ao segundo turno", diz cientista político

Atualizado em 02/10/2006 às 12:10, por Alex Sander Alcântara / Redação Portal IMPRENSA.

Eleições 2006 : "Escândalo do dossiê foi o estopim que levou Alckmin ao segundo turno", diz cientista político

A estratégia de Lula não ir ao último debate na rede Globo e adotar uma postura defensiva em relação à mídia adiaram a decisão da vaga de presidente para o segundo turno.

Para o cientista político e professor do departamento de Ciências Políticas da PUC de São Paulo, Cláudio Couto, o "efeito dossiê" foi decisivo na arrancada final de Geraldo Alckmin (PSDB). "Acredito que o candidato Alckmin já vinha subindo nas pesquisas devido à mudança de perfil. Tomou uma postura mais agressiva na campanha. Outro aspecto que contribuiu foi a diminuição dos ataques do PCC em São Paulo. Mas o escândalo do dossiê foi o estopim que levou Alckmin ao segundo turno", avalia Couto.

Couto caracteriza o fenômeno eleitoral envolvendo as denúncias de compra de dossiê como "efeito saturação". "Em meio a tantos escândalos, mesmo um eleitor que já tinha candidato acaba mudando o voto".

Outro ponto destacado pelo cientista foi a omissão de Lula no debate promovido pela Globo. "O fato da emissora deixar a cadeira vazia e permitir que as perguntas sejam feitas ao candidato ausente repercutiu negativamente", reforça.

Fenômeno Clodovil

Em relação à cobertura da mídia que deu mais destaque ao dossiê propriamente dito do que ao conteúdo dele, Couto diz já haver uma certa irritação dos órgãos de imprensa em relação ao governo Lula. "O grau de predisposição e as críticas ao governo ficaram mais severas, principalmente após a publicação das fotos com o dinheiro que seria utilizado para comprar o dossiê" avalia.

Em toda eleição aparece um fenômeno de votos que desperta análises dos cientistas políticos. O desse ano foi o apresentador Clodovil Hernandes, que foi o terceiro candidato a deputado federal mais bem votado em São Paulo, com 494 mil votos pelo partido Trabalhista Cristão (PTB). "A eleição de Clodovil se justifica por ser uma figura famosa de grande exposição na mídia. Isso aconteceu com o Enéas, que tinha aquela forma de se apresentar. Isso é normal, não é uma novidade, sempre aconteceu. A grande questão é se ele será um deputado "apagado" como foi Enéas", diz Couto.

Pesquisas

Para Couto, os institutos de pesquisas não se saíram tão mal este ano, apesar de errarem nas previsões na Bahia e no Rio Grande do Sul. Ao invés de Paulo Souto (PFL) ganhou o petista e ex-ministro, Jaques Wagner para o governo da Bahia.
A vitória de Jaques Wagner, com 52% dos votos válidos, encerrou a hegemonia do PFL na região. Desde 1991, os quatro governadores do Estado são filiados ao partido: Antonio Carlos Magalhães, César Borges e o próprio Paulo Souto (duas vezes).

A vitória de Souto daria 20 anos de controle ao PFL. O resultado contraria o que previam as pesquisas de opinião que apontavam a vitória no primeiro turno do candidato do PFL.

As pesquisas também não acertaram no Rio Grande do Sul. A deputada federal tucana Yeda Crusius foi a primeira colocada na disputa pelo governo gaúcho e enfrentará, no segundo turno, o petista Olívio Dutra, ex-governador do Rio Grande do Sul (1999-2002).

Com 99,9% da apuração total, Yeda teve 32,9% (2.037.048) dos votos. Olívio ficou com 27,4% (1.695.302), e o governador Germano Rigotto (PMDB), que tentava a reeleição e até a semana passada liderava todas as pesquisas de intenção de voto, limitou-se a 27,2% (1.679.174). A tucana, por essas mesmas pesquisas, ficava em terceiro.

Segundo Couto, é um exagero encarar o segundo turno como uma nova eleição. A metáfora com o futebol nesse caso ajuda a entender a reta final. "Alguém que já tem preferência da maioria sai na frente no segundo turno. Mas acredito que o segundo turno é como numa prorrogação de jogo. Geralmente, quem jogou melhor nos últimos quinze minutos tende a crescer. O clima de opinião pode ser mais favorável", diz ao se referir à subida de Alckmin.