Diário de Caracas IV: Chávez, a concessão, a mídia e o golpe, segundo Eduardo Sapene, vice-presidente da RCTV

Diário de Caracas IV: Chávez, a concessão, a mídia e o golpe, segundo Eduardo Sapene, vice-presidente da RCTV

Atualizado em 05/04/2007 às 11:04, por Pedro Venceslau e  enviado especial de IMPRENSA a Caracas.

Diário de Caracas IV : Chávez, a concessão, a mídia e o golpe, segundo Eduardo Sapene, vice-presidente da RCTV

Por Não há como negar que a RCTV foi uma das protagonistas do golpe que, em 12 de abril de 2002, tirou por 24 horas Hugo Chávez do poder. É público e notório que os canais privados de TV, com a Venevizión de Gustavo Cisneros à frente, desrespeitaram todas as normas básicas do bom jornalismo ao entrar, em pool, de cabeça no movimento para derrubar o presidente da República.

"Na manhã do dia 12 de abril, depois de uma reunião dos diretores do canal, chegaram instruções que proibiam a veiculação de informações relativas a Chávez, seu paradeiro, seus seguidores, seus parlamentares. A ordem foi clara: tirem o chavismo da tela". Essa é uma das histórias que Andrés Izarra, gerente de produção da RCTV em 2002, e hoje presidente da Telesur, conta no livro "Chávez e os meios de comunicação social".

Por mais que Izarra seja uma fonte comprometida com o chavismo, não faltam relatos, mesmo nos livros que comentam o golpe de forma mais moderada, sobre o papel da mídia no caso. Os dirigentes da RCTV até hoje resistem em reconhecer os erros cometidos em 2002: alegam que não ouviram o outro lado simplesmente porque não encontraram ninguém disposto a falar em nome do chavismo.

Na tarde desta quarta-feira (04/04), Eduardo Sapene, vice-presidente de informação e programas especiais da RCTV, recebeu IMPRENSA na sede do canal, no centro de Caracas. A conversa foi longa e reveladora.

Com 56 anos de idade e 38 de casa, Sapene é a segunda voz mais influente do canal depois de Marcel Granier, dono da emissora. "Entrei aqui com 17 anos, como assistente de redação. Cheguei à vice-presidência em 15 de março de 1999, três dias depois de Chávez assumir a Presidência do país. O tempo que tenho aqui [na vice-presidência] é o tempo que ele tem no poder", conta.

Antes do começo da conversa, Sapene contou que, apenas três dias antes de nosso encontro, um grupo de chavistas fez uma vigília em frente à sede do canal, hostilizando funcionários, pichando paredes e fazendo repetidas ameaças. Começamos a entrevista de fato relembrando o papel da RCTV no golpe de 2002, um fato decisivo na história de ódio que Chávez mantém ao canal de Granier.

"Desde 2002, Chávez começou uma campanha violenta contra nossos jornalistas. Gente ligada ao Governo, dos círculos bolivarianos, agrediu nossos repórteres; fecharam todas as fontes de informação: nossos jornalistas não podiam entrar no Palácio Miraflores, nem na Assembléia Constituinte, nem nos Ministérios. Tínhamos que procurar informação nos meios oficiais. Chávez nos chamava de "rinheteiras", como são chamadas as prostitutas em Havana, ao vivo, em público, e em cadeia nacional", desabafa o vice-presidente da RCTV.

Apesar da mágoa, Sapene nega que a postura da RCTV no golpe de 2002 tenha sido uma resposta rancorosa ao embate com o Governo. "Prefiro não entrar nesse mérito e encaminho a conversa para os dias de hoje, quando a RCTV está prestes a não ter sua concessão renovada pelo Governo". Retaliação? De pronto, Sapene saca de um dossiê completo sobre o tema. Afirma que a decisão de Chávez não tem nenhum embasamento jurídico, já que um decreto de 1987 prevê que a concessão da emissora, que de fato expira em maio deste ano, deveria ser renovada - a não ser que houvesse alguma irregularidade no canal.

Os pormenores desta trama jurídica deixo para as reportagens especiais que serão publicadas na edição impressa de IMPRENSA do mês de maio. Rumando para o final de nossa conversa, pergunto qual será o destino do canal depois de 26 de maio. Sapene insiste que a luta não acabou e que espera uma reação forte dos canais jurídicos internacionais.

Insisto em trabalhar com a "pior da hipóteses". "Nenhum empregado do canal será demitido. A maioria dos anunciantes fechou contratos para o ano todo e está solidária conosco. A RCTV seguirá produzindo conteúdo de qualidade, seja no cabo, na Internet, no celular.".

Quando comento sobre a mudança de posição de Gustavo Cisneros, dono da Venevisión que liderou o golpe de 2002, Sapene é direto: "Chávez o chamava de `capo de tutti´, capo da máfia dos meios; hoje, nem toca mais no nome dele: está claro que os dois fizeram um pacto de subsistência, intermediado pelo ex-presidente americano Jimmy Carter. De uma hora para outra, a Venevisión mudou sua linha e passou a fazer uma cobertura mais internacional".

Desde que cheguei a Caracas, no começo desta semana, venho tentando ouvir fontes ligadas à Venevizión. Falar com o próprio Cisneros é tarefa para poucos, já que ele passa pouco tempo na Venezuela. De qualquer forma, cheguei bem perto de entrevistar Antonieta López, uma das vice-presidentes do canal. Como não consegui cavar uma hora em sua agenda antes do feriado da Semana Santa, a entrevista será feita por telefone, do Brasil. Se tudo der certo...