Diário de Caracas III: Presidente de rede estatal venezuelana defende o fim da concessão da RCTV e passa a limpo o papel da mídia no golpe de 2002

Diário de Caracas III: Presidente de rede estatal venezuelana defende o fim da concessão da RCTV e passa a limpo o papel da mídia no golpe de 2002Por O jornalista Jesús Romero Anselmi, presidente da VTV (Venezuelana de Televisão), vive no trabalho.

Atualizado em 04/04/2007 às 11:04, por Pedro Venceslau e  enviado especial de IMPRENSA a Caracas.

Presidente de rede estatal venezuelana defende o fim da concessão da RCTV e passa a limpo o papel da mídia no golpe de 2002 Por O jornalista Jesús Romero Anselmi, presidente da VTV (Venezuelana de Televisão), vive no trabalho. Literalmente.

Em seu gabinete na sede da emissora, o que parece uma parede de madeira é, na verdade, uma cortina. "Venha conhecer minha casa", convida Jesús. Por trás da "cortina", está um apertado quarto com banheiro, com uma cama de casal e um armário. "Eu vivo aqui, literalmente", conta o presidente do canal 8, a principal trincheira chavista na mídia venezuelana.

Jesús Romero assumiu a presidência da VTV apenas três semanas antes do golpe - e do contra-golpe - de abril de 2002. Na ocasião, a sede da emissora foi invadida pelas polícias do estado de Miranda e do município de Caracas, ambas comandadas por inimigos políticos de Chávez. "Fui o último a sair. Chegou um momento em que fiquei sozinho no canal, enquanto lá fora os manifestantes [anti-Chávez] pichavam, gritavam e ameaçavam", lembra.

O golpe fracassou, Chávez voltou ao poder e Jesús reassumiu seu cargo. Desde então, raramente dorme fora de seu gabinete. Na última terça feira (03/04), o presidente da VTV reservou um generoso espaço na agenda para conversar com IMPRENSA.

O primeiro tema da conversa foi a decisão do governo de não renovar a concessão da RCTV, que vence em 26 de maio próximo. O discurso de Jesús se mostra afinado com o dos outros chavistas que entrevistei em Caracas. Didático, ele explica por que considera que Chávez tomou a decisão correta: "Todas as concessões um dia acabam. Quando isso acontece, o Estado, que é o dono, o único proprietário do sinal, tem o direito de assumir de novo o espectro. Não é certo dizer, como estão difundindo os donos da RCTV, que o canal será fechado. O Estado, de acordo com suas conveniências, decide se vai ou não renovar. As concessões não são infinitas em nenhuma parte do mundo".

Com fala pausada e jeito bonachão, o presidente da VTV relembra o papel que a RCTV teve no golpe de 2002: "Os meios de comunicação, não só a RCTV, formaram, em 2002, uma concertação. Foram a vanguarda do golpe [de Estado]. Eles criaram o ambiente golpista. Depois do golpe, quando Chávez acumulou uma série de vitórias eleitorais, alguns meios mudaram de posição. Alguns empresários, como o Gustavo Cisneros [dono da Venevizión], sentiram que o povo estava com Chávez. E começaram uma guinada de posição e conteúdo. A RCTV e a Globovisión seguiram atacando, desqualificando permanentemente o presidente. Eles convocaram greves, manifestações".

No fim da longa da conversa, que integrará a reportagem especial da edição de maio da Revista IMPRENSA, Jesús falou sobre a recente polêmica com o ministro brasileiro das Comunicações, Hélio Costa, que criticou duramente sua emissora. Sem polemizar, disse apenas que Costa "deve ser um excelente ministro: já faz parte do time do Lula, que é um grande presidente".

Jesús disse, ainda, que é fã da TV brasileira e que espera sugestões dos brasileiros para montar a nova TV pública da Venezuela, que ocupará o sinal da RCTV. "Acredito que o Brasil pode contribuir muito. Temos muito o que aprender com vocês. Os meios brasileiros são elogiados no mundo todo". Sobre a nova TV pública venezuelana, Jesús defende uma grade de programação feita por produtoras independentes: "Isso permitiria um conteúdo amplo e diversificado".