Diário de Caracas: Oráculo da oposição, Teodoro Petkoff compara Chávez a Hitler e diz que esquerda latino-americana é simplista
Diário de Caracas: Oráculo da oposição, Teodoro Petkoff compara Chávez a Hitler e diz que esquerda latino-americana é simplista
Atualizado em 19/04/2007 às 12:04, por
Pedro Venceslau e enviado especial de IMPRENSA a Caracas.
Diário de Caracas : Oráculo da oposição, Teodoro Petkoff compara Chávez a Hitler e diz que esquerda latino-americana é simplista
Por O jornalista Teodoro Petkoff "divorciou-se" de Chávez seis meses antes de sua eleição para presidente. Em junho de 1998, ele deixou o partido que ajudou a fundar, o MAS (Movimento ao Socialismo), por discordar do apoio ao candidato que começava a aparecer como favorito nas pesquisas. "Nos anos 60, deixei o Partido Comunista e fundei o MAS por discordar do modelo totalitário dos soviéticos. Não me divorciei do stalinismo para cair nos braços do chavismo. Já em 1998, eu intuía que seu governo teria um forte viés totalitário e anti-democrático", diz.Atualmente, Petkoff é considerado um oráculo da oposição venezuelana. Seu jornal, o diário vespertino Tal Cual , fundado em 2000, é o mais engajado e bem elaborado precursor do anti-chavismo. Nas eleições de 2006, Petkoff chegou a lançar-se candidato a Presidência, mas desistiu no meio do caminho. Em fevereiro desse ano, seu jornal quase teve que fechar as portas depois de ser condenado a pagar uma multa de 50 mil dólares por ter publicado uma série de artigos em forma de cartas dirigidas à filha mais nova de Chavez, Rosinês. A condenação foi transformada em bandeira política e movimento. E Petkoff conseguiu arrecadar mais que o suficiente para manter o jornal funcionando.
Nesta entrevista para IMPRENSA, concedida na redação do jornal, em Caracas, Petkoff opina: "Chávez é um manipulador, como era Hiltler, mas seu discurso tem pegada".
IMPRENSA - Como se deu o processo contra o Tal Cual , que culminou com uma multa de US$ 50 mil?
Teodoro Petkoff - Em 2005, durante seu programa dominical, o "Alô, Presidente", Chávez comentou que sua filha, Rosinês, de oito anos, fizera uma observação interessante: por que o cavalo que está na metade inferior do escudo da república está cavalgando com a cabeça voltada para a direita? Dito e feito. Nas semanas seguintes, o Congresso, sem nenhuma discussão, tratou de aprovar uma Lei mudando o símbolo pátrio. O cavalo passou a ficar com a cabeça voltada para a esquerda. Diante desse fato, nosso colunista, Laureano Marques, que assina o editorial às sextas-feiras, começou a publicar uma série de comentários humorísticos em forma de cartas à Rosinês.
Então, Chávez, também em seu programa, disse que se "meteram com a filha dele" e que "não respeitam mais ninguém". Imediatamente, o Conselho Nacional de Proteção a Criança e Adolescente abriu um processo contra nós, e nos condenou, alegando que violamos a lei de proteção ao menor. Além da multa, a decisão nos proibiu de mencionar o nome de Rosinês Chávez. Nós apelamos. O tempo passou. Ninguém respondia a nossa apelação. Até que, em fevereiro de 2007, de repente, a Fiscalia Geral da República abriu outro processo e nos impôs uma multa de 50 mil dólares. Nós apelamos de novo, mas o Tribunal Superior ratificou. Isso teria quebrado o jornal, mas nós transformamos o caso em fato político. Fizemos uma coleta pública. Apelamos à consciência de nossos leitores. Mais de 2000 pessoas depositaram dinheiro na conta do jornal. Pagamos a multa. Se não fosse isso, teríamos que ter fechado o jornal.
IMPRENSA - Na sua opinião, por que a Venevisión mudou de postura e parou de atacar Chávez?
Teodoro Petkoff - O que aconteceu com Venevisión foi uma sem-vergonhice. Gustavo Cisneros, dono do canal, teve efetivamente um papel muito destacado no golpe de abril de 2002. O canal foi muito ativo no processo político que culminou no golpe. Os golpistas se reuniam na sede do canal. Mas em 2004, quando foi se aproximando a data do referendo revocatório, o dono da Venevisión, vendo as pesquisas, percebeu que Chávez ia vencer. Eis que, através de seu amigo Jimmy Carter, ex - presidente dos Estados Unidos, conseguiu uma audiência com o presidente e se acertou com ele. Fizeram um acordo. E o canal se neutralizou. Eliminou todos os programas os programas políticos, inclinou o noticiário para o lado do governo. Hoje, reservam 20 minutos para entrevistas, onde só falam funcionários do governo. O canal 4, que tem a metade da audiência privada do país, desapareceu do cenário político. Por que Cisneros fez isso? Por oportunismo. Porque se deu conta que Chávez seguiria no governo depois do plebiscito. Sentiu que isso afetaria seus interesses e temia que sua concessão não fosse renovada.
O outro grande canal que ocupa grande audiência, a RCTV, o 2, manteve sua linha editorial e está ameaçado de perder a concessão. Essa decisão do governo não tem nada a ver com a qualidade da programação da TV, que na Venezuela é muito ruim. O governo não está preocupado com isso. Foi dito várias vezes pelo próprio Chávez e por funcionários do governo que o canal 2 será fechado por que é "golpista". O critério foi totalmente político. É difícil sustentar esse argumento. Como explicar que vão fazer isso cinco anos depois do golpe? Por que não apelaram para as vias judiciais? Por que não fizeram o mesmo com o canal 4 (Venevisión)?
IMPRENSA - O que você espera do novo canal público, que vai ocupar o sinal da RCTV depois de 27 de maio?
Petkoff - Será mais um canal de propaganda chavista. Os canais do oficialismo não transmitem nada que não seja a política do governo. Como a Venevisión não transmite nada, isso significa que 80% da audiência venezuelana ficará sem acesso ao contraditório. A oposição não terá espaço para se expressar nas duas maiores freqüências do país. Resta a Globovision, que é uma referência política importante. Mas ele não tem audiência. Só são vistos em Caracas e em uma ou outra cidade do interior. Eles não tiram o sono do governo. Não são vistos na favela. Se você for somando uma coisa com outra - processos contra jornalistas, não renovação da concessão, autocensura - você tem um panorama de um país onde o exercício do jornalismo é muito complicado.
IMPRENSA - Qual a popularidade dos canais do estado junto à população?
Petkoff - Muito baixa, apesar da VTV ter a maior cobertura nacional. Chega a todos os rincões. Só os ativistas assistem, para pegar a linha política. Para atualizar a ideologia. VTV é um canal partidário.
IMPRENSA - Seu jornal, o Tal Cual , também é uma referência política, que serve para a oposição elaborar sua linha política?
Petkoff - Estamos completando sete anos hoje. Não somos um jornal de massas e sim uma referência política. Nossa influência vai muito além da circulação. Somos muito críticos ao governo e também à oposição. Não somos branco e negro. Somos críticos, irreverentes, incisivos. Mas sem perder a razão e a racionalidade.
IMPRENSA - Como explicar a força do chavismo nas camadas mais populares da Venezuela?
Petkoff - Da mesma maneira que se explica a popularidade de Hitler. Ou como a de Mussolini, ou Getúlio. São caudilhos carismáticos, que estabelecem vínculos diretos com o povo. Tem um discurso de ressonância redentora. Esse tipo de caudilho - como Chávez - resgatam a identidade do povo. Por mais demagógico que seja, tem muita força. Chávez é um manipulador, mas seu discurso tem pegada. Além disso, tem muito dinheiro, já que o Petróleo está a U$ 55 (o barril). Isso permite que faça programas sociais que chegam ao povo.
IMPRENSA - Como explicar o sexy apeal de Chávez entre a esquerda latino-americana? Por que ele faz tanto sucesso entre os intelectuais de esquerda?
Petkoff - A esquerda latino-americana é muito simplista. Qualquer um que grite contra os "gringos" cai nas graças da esquerda. Basta ser inimigo dos EUA. Esse simplismo ajuda Chávez. Eu pergunto para estes intelectuais que vêm aqui: você ouviu falar da Lista Tascon? Uma prática fascista.
Na época do referendo, com a cumplicidade do Tribunal Eleitoral, o deputado chavista Luis Tascon elaborou um CD com a lista de três milhões e meio de pessoas que assinaram pedindo o referendo pela saída de Chávez. Em 2005, havia casos de gente que ia buscar um passaporte ou trabalho em instância pública, e verificavam, pelo número do documento, se a pessoa tinha assinado contra Chávez. Centenas de funcionários públicos foram demitidos porque apareceram na lista. Esse é um processamento fascista.
IMPRENSA - Hoje, na Venezuela, ser de esquerda é sinônimo de ser chavista, e vice-versa?
Petkoff - Parcialmente. Aqui, a esquerda está partida em dois. Uma parte é marxista-leninista e acompanha Chávez. Outra parte é a esquerda moderna, que está contra o governo. Esse é o caso do MAS (Movimento ao Socialismo).






