Diário de Caracas: Diretor do Instituto Imprensa e Sociedade explica a guerra midiática venezuelana
Diário de Caracas: Diretor do Instituto Imprensa e Sociedade explica a guerra midiática venezuelana
Atualizado em 16/04/2007 às 09:04, por
Pedro Venceslau e enviado especial de IMPRENSA a Caracas.
Diário de Caracas : Diretor do Instituto Imprensa e Sociedade explica a guerra midiática venezuelana
Por O jornalista Ewald Scharfenberg é considerado persona non grata pelo governo venezuelano. De um pequeno escritório no edifício do Hotel Hilton Caracas, na capital, ele comanda uma ONG que tem o insistente hábito de incomodar o chavismo.A missão do Instituto Prensa y Sociedad é monitorar a liberdade de expressão e denunciar episódios que atentem contra a liberdade de imprensa na Venezuela. Antes de assumir este posto, Ewald foi, por dez anos, correspondente da ONG Repórteres Sem Fronteiras no país de Chávez.
Na primeira semana de abril, o diretor do IPYS recebeu IMPRENSA em seu escritório e contou, de forma didática e detalhada, como se deu a escalada de acontecimentos que culminou na guerra midiática entre o primeiro e o quarto poder na Venezuela. Confira.
IMPRENSA - É certo dizer que os veículos da mídia privada na Venezuela operam como partidos de oposição ao presidente Hugo Chávez?
Ewald Scharfenberg - Os meios agiram assim até 2004, mas mudaram de postura. Essa mudança de atitude não ocorreu devido a uma reflexão de suas práticas, que eram questionáveis, mas porque Chávez ganhou o referendo revocatório. A vitória do presidente no plebiscito, que foi convocado pela oposição, levou a uma reorganização do cenário político.
Gustavo Cisneros (dono da Venevizion, principal canal privado do país), por exemplo, depois do referendo, buscou uma convivência pacífica com o governo. As notícias da Venevizion ficaram descafeínadas, sem conteúdo conflitivo. O Observatório Global de Meios, do Ignácio Ramounet, em um de seus relatórios, dedicou um capítulo à cobertura das eleições de 2006 na Venezuela. Não me lembro exatamente, mas algo entre 62% ou 70% das informações da Venevizion foram favoráveis ao governo durante o processo eleitoral de 2006.
Outro grande canal privado, a Televen, também decidiu neutralizar-se. Apenas a RCTV e Globevision seguiram a linha opositora, mas de forma atenuada. Até 2004, a oposição venezuelana, sobretudo a mais extremista, tinha a sensação de que Chávez estava a ponto de cair. Depois do plebiscito, perceberam que Chávez não era um fenômeno passageiro.
IMPRENSA - Quando e como Chávez tomou a decisão de não renovar a concessão da RCTV?
Ewald - O anúncio foi feito em 28 de dezembro de 2006, no meio de um discurso proferido no Forte Tiúna, um dos principais quartéis do país. Foi um ato de rotina, onde o presidente faz saudações natalinas ao comando militar. Ninguém esperava... Antes disso, porém, houve uma escalada. O clima para o anúncio da não renovação da concessão da RCTV foi sendo criado aos poucos. Notamos que personagens do governo começaram a falar sobre isso um tempo antes.
Em um programa na VTV (Venezuelana de Televisão), o La Ohija, o apresentador começou defender essa idéia. Depois, um deputado, Carlos Escarra, começou a fazer declarações dizendo que a concessão estava para acabar...
Quando Chávez anunciou isso no discurso, os militares aplaudiram de pé. Depois do anúncio, funcionários de segundo escalão começaram a buscar argumentos técnicos e legais para a não renovação. Primeiro, disseram que eram golpistas. Depois, que colocavam pornografia no ar.
IMPRENSA - Quando e como começou a guerra entre a mídia privada e Chávez?
Ewald - Os meios privados apoiaram Chávez na eleição de 1998, especialmente a Venevizion e o jornal El Nacional . A primeira ministra de Comunicação de Chávez foi Carmem Ramia, ex-esposa de Miguel Enrique Otero, dono do El Nacional . Ela ficou um mês no cargo. Alfredo Pena, um grande entrevistador de Venevizion e ex-editor do El Nacional , foi ministro do Interior. Depois disso, chegou a ser prefeito de Caracas e virou opositor do chavismo. Hoje, vive auto-exilado em Miami.
A RCTV apoiou Henrique Salas Romer, principal opositor, que era governador do estado de Carabobo. A lua de mel durou pouco. Chávez sempre teve o hábito de usar muito a cadeia obrigatória de rádio e TV. Se somarmos todas as cadeias obrigatórias, isso chega a três meses direto de discurso. Além disso, Chévez sempre atacou jornalistas pessoalmente.
Em uma destas cadeias obrigatórias, o presidente começou a criticar e ofender Andrés Mata, editor do jornal El Universal . Mata estudou muito tempo no exterior e tem muito sotaque. Chávez começou a tirar sarro disso. Esse episódio foi um marco. Depois, começou a atacar os meios em cadeia nacional, sempre que era criticado. Isso irritou os veículos. Chávez disse que Miguel Otero Silva, um grande autor nacional, teria vergonha do filho, Miguel, dono do El Nacional . Eram comuns ataques pessoais a editores, jornalistas e caricaturistas que o criticavam. Isso aconteceu até com o enviado do Grupo Globo, do site G-1. O estilo de Chávez levou a uma polarização cada vez maior. A prática do jornalismo na Venezuela sempre foi débil. Mas esses ingredientes criaram um caldo de rancor, de exacerbação.






