Degradação: Praça do Sebo sofre com falta de estrutura, por Cirlene Menezes*

Degradação: Praça do Sebo sofre com falta de estrutura, por Cirlene Menezes*

Atualizado em 05/10/2006 às 12:10, por *Cirlene Menezes é aluna do 6º período do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.

Degradação : Praça do Sebo sofre com falta de estrutura, por Cirlene Menezes*

A sujeira vem afastando os visitantes que costumavam passar um bom tempo folheando livros

Grades quebradas, boxes sem pintura, bancos servindo de cama para os moradores de rua, esse é o atual cenário da Praça do Sebo. O que antes era ponto de encontro de intelectuais e local de visita dos amantes da leitura, agora está comprometido pela falta de estrutura, limpeza e manutenção.

A Praça do Sebo completou em agosto 25 anos de história e reúne hoje 19 boxes com uma variedade de títulos raros e famosos. Há também livros que quase nunca se encontram nas livrarias. Além do ponto mais importante que é o preço mais acessível.

Severino Augusto da Silva tem 47 anos e é proprietário do Box 14-15. Ele é um dos 18 fundadores do Sebo e vive do comércio de livros desde a criação da praça. "Quem administra a praça são os próprios sebistas e falta uma associação para lutar por melhorias junto aos órgãos públicos", reclama.

O escritor pernambucano e jornalista Raimundo Carrero, 58 anos, conhece o lugar desde a sua fundação e lamenta a mudança. "Freqüentei como estudante e como intelectual, hoje não sou tão assíduo e um dos motivos é falta de conservação", afirma. Segundo Carrero, com uma estrutura mais agradável as pessoas se interessariam em freqüentar cada vez mais: "Além disso, seria uma forma de incentivo à leitura para os jovens", diz.

Segundo a gerência da Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), a higiene do local é feita diariamente por dois garis. São quatro varrições durante o dia e duas à noite e ainda duas lavagens semanais. O diretor de Manutenção Urbana, Antônio Valdo Alencar, explicou ainda que está sendo realizado um projeto de requalificação para o lugar. O objetivo é reformar o espaço que ganhará uma escultura de Mauro Mota - um dos poetas homenageados pela 2ª edição do "Circuito da Poesia". "O Projeto ainda está em processo de elaboração e a previsão é de que fique pronto antes do final do ano", diz.

Sebistas se rendem ao mercado - Doutor em Teoria da Literatura e filho de Raimundo Carrero, Diego Raphael Carreiro (sobrenome que faz questão de assinar com "i"), garante que muita coisa mudou no lugar. "Ainda estava no colegial quando me interessei pelos sebos. Aos 14 anos, gazeava aula e ficava uma manhã inteira lendo ou conversando na Praça. Era de graça e ninguém reclamava", lembra Diego, que também é poeta e professor.

Na década de 80 os sebistas trabalhavam nas calçadas na Rua do Sol. Foi quando construíram a Praça e eles foram transferidos. A partir daí os negócios melhoraram. "Hoje conseguimos vender uma média de 30 exemplares por dia. Mas a melhor fase é no início do ano quando começam as aulas", é o que explica o proprietário do Box 19, Carlos Pontes. Segundo ele os mais solicitados são didáticos, de auto-ajuda, romance, literatura, dicionários, entre outros.

Um costume que passa de pai para filho - Severino Augusto Ferreira chegou para trabalhar na Praça do Sebo com apenas 22 anos. Na época ele era o livreiro mais novo. Dezenove anos depois, somente a filha caçula se interessou pelo ofício. Marta Kelly da Silva tem 22 anos e conta que começou a trabalhar aos 16 só para ganhar um trocado. "Com um tempo fui percebendo que a coisa era séria então decidi levar a frente o esforço do meu pai", diz com orgulho. A jovem sebista faz questão de mostrar sua dedicação. "Primeiro era só novidade depois me apaixonei e descobri muita coisa com os livros", acrescenta.

Para dar prosseguimento ao legado do pai, Marta pensa em fazer faculdade de administração e sonha com um futuro mais promissor: "Estou me esforçando para melhorar o desenvolvimento do nosso negócio", comenta. Quando questionado sobre a possibilidade de vender o Box, Silva responde: "Trabalho com livros porque gosto. Está no sangue e não venderia o ponto por nada neste mundo. Além disso, é daqui que tiro o sustento da família. Comecei por necessidade, agora é amor verdadeiro", afirma ele prometendo passar a tradição também para os netos.