Crônica da Copa: Meu dia de Barcelona..., por Marcos Linhares

Crônica da Copa: Meu dia de Barcelona..., por Marcos Linhares

Atualizado em 06/07/2006 às 12:07, por Marcos Linhares*.

Crônica da Copa : Meu dia de Barcelona..., por Marcos Linhares

Por
Waldstation, Frankfurt, Alemanha, 20h30. Meia hora para começar Brasil x Franca. Eu, repórter, entrevistando os personagens mais inusitados que iam aparecendo como Clemont, um torcedor francês famoso que leva um galo (o símbolo da seleção francesa) a todos os jogos. Um galo ate bem comportado, diga-se de passagem.

Ate ai, nada de novo. Eis que um câmera, de uma tv alemã se aproxima sorrateiramente de mim. Normal. De repente, eu que estava falando com alguns torcedores da Gaviões da Fiel, sou cercado por um grupo de policiais. Um deles, postura de comandante pergunta se meu nome e " Marino". Digo que não. Marcos e meu nome, respondo ainda tranqüilo.

O vermelho da câmera esta ligado. Percebo a expectativa e o desejo do cinegrafista com o repórter ao lado, lambendo os beiços. Afinal, tudo indica que uma importante prisão esta prestes a ser feita, ao vivo, na entrada de um dos clássicos do futebol mundial. Um furo, manchete no mínimo. Eu, que já senti essa sensação antes, comecei a entender o que estava acontecendo.

E estranho ser o alvo da noticia. O personagem. Do lado de lá e mais cômodo. De qualquer forma, o comandante pediu meu passaporte. Prontamente entreguei. Ele olhou com atenção, sorriu confuso. Passou para uma auxiliar. Ela olhou e repetiu meu nome. E fez sinal de negativo para ele.

A essa altura o cinegrafista foi começando a mudar a expressão. Desanimo. Eu olhava o comandante e analisava o câmera. Fui começando a ficar irritado, mas como não tinha nada a temer. Sorri, irônico.

O comandante me disse que estava procurando por um brasileiro parecido comigo. Eu respondi que isso só dizia respeito a ele e não a mim. Depois ele disse que achava que não era eu. Eu, incisivo, afirmei estar seguro de que era outro e não eu.

Ele pediu desculpas, desarmou o cerco e se foi. O vermelho da câmera apagou-se. Assim como o sorriso da equipe de reportagem. Frustrei uma matéria, quem diria...

Depois descobri que eles procuravam por um brasileiro, da camisa 12, outra torcida organizada do Corinthians. Meu sósia e conhecido como "Barcelona". Ele e um famoso invasor de estádios.

Fui atrás de informações. Ele recebeu, inclusive, de acordo com uma fonte, carta do Beckenbauer, pedindo que não aparecesse na Alemanha no período da Copa...

Ledo engano. Ele foi e conseguiu invadir todos os jogos do Brasil. Ou melhor quase todos. Menos nesse contra a Franca. Mesmo assim, ele soube do que tinha acontecido comigo e adivinhe: tentou entrar.

Colocou um boné, usou disfarce e passou por duas revistas. Na terceira, o guarda olhou para ele, olhou para foto, ficou na duvida, passou um radio, e quando vacilou, ele viu que ia ser pego e conseguiu escapar...

O ousado invasor mora na capital da Catalunha, por isso recebeu esse apelido. E tudo indica ser muito conhecido dos organizadores de competições... Quanto a mim, curto apenas o dia que mudei de lugar, mesmo que por engano, e derrubei uma pauta, dessa vez para meu bem. Essa vida de repórter tem cada uma, já não me bastava ter comprado uma passagem da Varig. Mas isso e uma outra historia...

*Colaboração especial de Marcos Linhares, de Frankfurt (Marcos Linhares e jornalista e escritor, autor de, entre outros, Nos bastidores do jornalismo esportivo)