Crise abala as estruturas da PUC-SP | Por Karina Padial -PUC (SP)

Crise abala as estruturas da PUC-SP | Por Karina Padial -PUC (SP)

Atualizado em 07/03/2006 às 10:03, por Por: Karina Padial e  estudante de jornalismo da PUC-SP.

Crise abala as estruturas da PUC-SP | Por Karina Padial -PUC (SP)

Crise Financeira

A PUC vive atualmente a maior crise financeira de sua história. A dívida da universidade totaliza R$ 82 milhões, que cresce em progressão geométrica, já que todo mês somam-se a ela um déficit de R$ 4 milhões e mais juros bancários.

A origem desta dívida todos desconhecem, o que se sabe é que o maior salto ocorreu em 2003, durante a gestão de Antonio Carlos Ronca, quando a dívida passou de R$ 31 milhões para R$ 71 milhões.

Desdobramentos da Crise

Para diminuir o déficit a atual reitora, Maura Véras, implantou uma política, junto aos bancos, de redução de gastos.

No ano passado ela fez um acordo com o Banco Bradesco e ABN Amro Bank para que os dois assumissem a dívida que antes estava distribuída entre catorze bancos. Para tal negociação o arcebispo de São Paulo, Dom Cláudio Hummes, foi avalista.

O corte de professores e funcionários começou com o PDV (Plano de Demissão Voluntária), quando 121 professores aderiram ao plano.

O passo seguinte foi o encaminhamento de um pedido, pela reitora, aos chefes de departamento para que emitissem uma lista com possíveis professores "demissíveis". Mais 140 professores deixaram a Pontifícia. Nesse momento, o total de funcionários demitidos já era 299.

A reitoria com todos esses cortes, que incluiu alteração no contrato dos docentes, não cumpriu o total da meta estabelecida pelos bancos.

E com esse não cumprimento, Dom Cláudio Hummes aumentou a secretaria executiva para três membros e nomeou mais um padre para esse posto, concentrando, assim, o poder nas mãos da Igreja. Para alunos, professores e funcionários estava configurada uma "intervenção branca".

Aqui é necessário abrir um parênteses para o entendimento do aconteceu depois isso:

Quando a reitora é eleita, (na PUC essa eleição é direta, com voto dos três setores da universidade - professores, funcionários e alunos) ela automaticamente se torna secretária executiva da Fundação São Paulo, que é a mantenedora da PUC.

Desde 2005, a secretaria executiva, que é o órgão responsável pela gestão da universidade, além da reitora, já contava com um representante da Igreja.

Fechando o parênteses...

O início das aulas foi adiado do dia 13 de fevereiro para o dia 02 de março. Manobra política ou não, seria nessa semana que a Igreja iria anunciar uma nova lista que incluiria professores e funcionários a serem demitidos.

Acontecimentos
Os três setores da universidade começaram a se mobilizar, para juntos, acharem uma maneira de contornar a situação.

Em assembléia entre a APROPUC (Associação dos Professores da PUC) e representantes dos Centros Acadêmicos, foi aprovado o Fórum Permanente, que começaria, imediatamente, suas reuniões.

Na noite de 16 de fevereiro, o TUCA registrou mais um momento histórico! Todas as poltronas estavam tomadas por estudantes, professores, funcionários e representantes de diversas associações que prestavam solidariedade ao momento difícil que a universidade enfrenta.

No dia seguinte a lista foi divulgada aos departamentos. Cada professor e cada funcionário receberam um telegrama avisando do seu desligamento da universidade. Nem a lei foi respeitada - funcionários em licença médica ou com estabilidade, foram demitidos -; muito menos a história de cada um - professores com 43 anos de PUC não foram poupados. Mais 211 professores e 114 funcionários, escolhidos pela mantenedora, deixaram a Pontifícia.

Neste dia houve também o CONSUN - Conselho Universitário, órgão máximo de deliberação da universidade. Nele, Maura Véras disse que levou um susto ao ver os nomes da lista e que não houve nenhuma outra alternativa senão cortar gastos da folha de pagamento por meio de uma demissão em massa. E acrescentou: "Mesmo reconhecendo sua necessidade, não assumirei os cortes que estão sendo realizados pela Secretaria da Fundação, pelo fato de não terem sido feitos pelo método pactuado com as instâncias deliberativas da PUC-SP.".

A reitora saiu da sala recebendo vaias dos estudantes e palavras como "vergonha" e "renúncia".

Apesar de Véras afirmar que a lista de nomes não foi elaborada por ela, a Fundação São Paulo diz que foi feita conjuntamente com a reitoria.

Conseqüências
Os estudantes descontentes com as situações que estão sendo apresentadas já começaram a protestar.

Faixas do Bradesco que davam boas-vindas aos calouros, foram queimadas, placas do Banco Real foram pintadas com os dizeres "Banco Real demitindo geral". Cartazes já estão colados nas paredes na PUC.

A excelência acadêmica da PUC de São Paulo, que prioriza além do ensino, a pesquisa e a extensão, está com dias contados. Além dos professores estarem desestimulados, as salas de aulas estão lotadas em função da demissão total de 472 professores, cerca de 30% do quadro.

A revolta ultrapassa o âmbito das demissões: a Pontifícia de São Paulo tem uma história de defesa pela democracia. A autonomia conquistada com muita luta e que passou por momentos como a repressão à ditadura, a luta pela anistia, a campanha das diretas, o impeachment do Collor em 1992, está acabando conforme a intervenção aumenta. A única esperança de todos é que, da mesma forma como já aconteceu em 1992 quando também houve uma intervenção da Fundação São Paulo, a Igreja recue frente as constantes manifestações.

Os rumos da universidade começam a ser definidos nessa semana: 4ª feira (dia 08 de março) ocorrerá uma assembléia dos estudantes e na 5ª feira (dia 09) uma outra envolvendo os três setores.