Copa-Imprensa: É sempre final do segundo tempo

Copa-Imprensa: É sempre final do segundo tempo

Atualizado em 17/02/2006 às 16:02, por Produção: Gabriel Mitani e Rafael Costa* | Foto de Pedro Ignácio Loyola Frota.

Copa-Imprensa: É sempre final do segundo tempo

Enquanto a Seleção - espera-se - sua a camisa para trazer ao Brasil o hexa, jornalistas correm contra o tempo e analisam as principais dificuldades enfrentadas em coberturas de Copa do Mundo

Os cerca de mil jornalistas brasileiros credenciados para a cobertura da Copa da Alemanha terão uma rotina tão ou mais pesada na Europa do que tiveram na Ásia, em 2002. Engana-se quem pensa que os jogos do outro lado do planeta, com diferença no fuso horário em 12 horas, foram mais estressantes. Tudo depende do fechamento de cada um. Para os veículos impressos, por exemplo, a diferença de cinco horas no fuso horário dificulta o trabalho dos correspondentes. Para iniciar a apuração do dia, os enviados especiais terão que acordar às 7h, no horário local, e só poderão dormir à 2h da manhã do dia seguinte, quando as redações daqui do Brasil fecharem suas edições.

Na opinião de Antero Greco, editor assistente do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo e comentarista da ESPN Brasil, a Copa da Alemanha certamente trará mais dor de cabeça. "Na Ásia, era diferente. Íamos dormir cedo porque já tínhamos coletado e repassado todo o material do dia. Enquanto as redações do Brasil abriam, no Japão estávamos indo para a cama", compara o jornalista, que está de malas prontas para fazer a cobertura da sua quinta Copa do Mundo. Mas ele brinca: "Aqui na redação, a gente fala que enviado especial tem de estar preparado para se ferrar!". Cobrir Copa do Mundo é sempre como jogar na final do segundo tempo para garantir a vitória com diferença apertada.

Diferentemente do meio impresso, os jornalistas de rádio e TV não vêem a diferença de horário como um problema. Cyro Martins, gerente de Jornalismo da Rádio Gaúcha, explica: "Nossa programação ao vivo no Brasil vai até às 20 horas, o que exigirá um esforço extra dos correspondentes para ficarem acordados até tarde. Mas nada que vá nos dificultar ou prejudicar". Visão com que Mauro Naves, repórter esportivo da TV Globo, compartilha. "A Copa da Ásia cansou bastante pela diferença de 12 horas do Japão para o Brasil. Acho que será bem mais fácil de se adaptar na Alemanha", opina.

Voz da Experiência

Com tantos anos de estrada, Greco ressalta os avanços nas coberturas. "Na Copa da Espanha, em 1982, mandávamos as informações via Sedex. Demorava 19 minutos para enviar 100 linhas de texto escrito", conta. Chico Lang, comentarista da TV Gazeta e veterano de Copas do Mundo, também relembra as dificuldades para se comunicar em 1990. "Na Itália, demorávamos muito para mandar informações para o Brasil porque tínhamos que pedir linha de telefone no hotel ou no estádio, e isso tomava muito do nosso tempo", explica. "Já na Alemanha, a informação será transmitida quase no mesmo momento, não tem comparação."

Em relação à disponibilidade dos jogadores para a imprensa, cada torneio e seleção tem a sua peculiaridade. "A Copa de 1974, também realizada na Alemanha, foi tensa. Havia um forte policiamento por causa dos incidentes dos Jogos Olímpicos de Munique, dois anos antes, e o acesso aos jogadores era restrito", relembra Orlando Duarte, jornalista que cobriu todas as Copas desde 1950.

Ele conta que, ao visitar a concentração da seleção holandesa, na época, encontrou um esquema refinado para receber os jornalistas, com lareira para dias frios e ar condicionado para dias quentes. "Tínhamos acesso fácil aos jogadores, bem ao estilo liberal holandês. Diferente do que aconteceu na concentração do Brasil, onde havia polícia e cães acompanhando o time o tempo inteiro", compara. Vinte e dois anos mais tarde, Orlando voltará à Alemanha para cobrir a Copa pela Rádio Itatiaia, de Belo Horizonte.

Porém, em relação à cobertura, Antero Greco não vê muitas diferenças. "A apuração de hoje é a mesma da década de 80. Só temos que selecionar melhor a informação porque existe menos espaço para escrever", explica. E se o assunto é organização, o jornalista não tem dúvidas: "todas as Copas são organizadas para a imprensa. Nunca houve grandes problemas". Para manter a tradição, os conterrâneos de Guttenberg prometem fazer bonito. "A Alemanha quer ser campeã de alguma forma. Se não o forem dentro de campo, certamente serão na organização", afirma Cyro Martins, que visitou o país em dezembro. "Não temos do que reclamar", diz o jornalista.

Privilégio global

O que seria da Copa do Mundo sem as velhas críticas à exclusividade da TV Globo? "O privilégio da Globo é total", polemiza Chico Lang, comentarista da TV Gazeta, já que a emissora carioca é a única detentora dos direitos de transmissão em TV aberta. "Mas é só. Jornalista competente de qualquer veículo consegue uma entrevista com os jogadores sem problemas", avalia.

De acordo com Rodrigo Paiva, assessor da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e grande responsável pelo meio-campo entre os jogadores e a imprensa na Copa, a TV Globo enviará 170 funcionários à Alemanha, com equipes em todas as cidades-sede. "A Globo consegue mais material porque investe em futebol", diz Paiva. "Enquanto outros veículos têm um repórter para fazer entrevistas no final dos jogos, a Globo tem oito", conta. Questionado sobre a preferência da CBF pela emissora, o assessor rebate: "Nós não damos privilégios a veículo algum. Não temos o poder de mandar nos jogadores, apenas de instruí-los".

Para Arnaldo Ribeiro, editor da Placar, as recorrentes críticas à emissora não têm tanto fundamento. "O fato é que os jogadores não são bobos. Na hora de dar entrevistas, eles procuram a Globo porque sabem que terão projeção no Brasil inteiro", opina. g

A polêmica na web

Nas vésperas da Copa de 2002, os veículos de Internet que buscaram obter os direitos de transmissão dos jogos foram barrados pela Fifa. Além disso, a entidade também restringiu drasticamente o número de credenciais para os webjornalistas.

Ambas as medidas geraram muita polêmica, pois, segundo se especulava, a Federação não proporcionou o acesso e a negociação dos direitos visando concentrar em seu site (www.fifa.com) a cobertura virtual do espetáculo, já que possuía parceria, tanto de conteúdo quanto de infraestrutura e comercialização, com o gigante portal Yahoo.

Entretanto, para 2006, a Fifa mudou as regras passando a comercializar os direitos de imagem e a ceder a tão sonhada credencial. "Na Copa da Alemanha, a entidade determinou dois tipos de credenciamento para Internet: com ou sem direitos", explica Alexandre Gimenez, editor-executivo do site Pele.Net e UOL. Segundo o jornalista, "os veículos que adquiriram os direitos pediram credenciais para empresa Infront, enquanto os demais fizeram solicitação diretamente à Fifa".

* Gabriel Mitani e Rafael Costa são estagiários da Revista IMPRENSA