Consciência Negra: Marcha se inspira em Zumbi buscando inclusão social, por Giovanna Longo*

Consciência Negra: Marcha se inspira em Zumbi buscando inclusão social, por Giovanna Longo*

Atualizado em 28/11/2006 às 11:11, por .

Consciência Negra : Marcha se inspira em Zumbi buscando inclusão social, por Giovanna Longo*

*Giovanna Longo é aluna da Universidade Cidade de São Paulo - UNICID Há mais de três séculos, no dia 20 de novembro de 1965, o líder do Quilombo dos Palmares, símbolo de resistência ao sistema escravista, era assassinado.

Zumbi, como era conhecido, não imaginava que depois de tanto tempo, cerca de 12 mil pessoas tomariam a Avenida Paulista, ponto de encontro de ativistas na cidade de São Paulo, em busca da conquista de direitos, semelhantes àqueles que um dia lhe inspiraram a lutar por um Brasil mais justo e igualitário.

A data da morte de Zumbi deu origem ao Dia da Consciência Negra, feriado municipal em São Paulo, decretado em 7 de janeiro de 2004, pela Lei n° 13.707, na gestão da prefeita Marta Suplicy (PT). Este ano, a data recebeu destaque por ter sido a primeira vez, desde que entrou em vigor, que foi comemorada em um dia útil.

A autora da lei, a vereadora Claudete Alves (PT), esteve presente na III Marcha da Consciência Negra e foi bastante aplaudida pelas pessoas que estavam na concentração, duas horas antes do início caminhada, no vão livre do Masp (Museu de Arte de São Paulo - Assis Chateaubriand).

A vereadora saudou os presentes e afirmou: "O racismo no Brasil é tão cruel, que se ele dói ao homem negro brasileiro, dói muito mais nas mulheres negras". Ela apontou ainda que a presença de uma mulher negra na Câmara Municipal de São Paulo fez a diferença para que a lei fosse proposta e aprovada, ressaltando que "nunca teve seu sangue [negro] congelado" e por isso foi capaz de tornar realidade o sonho de tantos afro-descendentes do movimento brasileiro.

Além da vereadora, estavam presentes outras autoridades: o deputado estadual Vicente Cândido (PT), o deputado federal Jamil Murad (PC do B), o vereador pelo município de São Vicente Rogério Barreto Alves (PPS), entre outros. Todos discursaram.

Hino e Lei de Cotas: Presente e Cobrança
Esse ano, o dia foi presenteado com o Hino à Negritude, composto pelo professor universitário Eduardo de Oliveira. Ele crê que essa "foi a marcha da inclusão, que representa que a consciência nacional brasileira" e que a cidade de São Paulo "reconheceu que precisa retribuir tudo de bom que o negro deu para a formação de nossa nacionalidade", finaliza.

A festa contou com a adesão de cerca de 25 grupos e instituições, inclusive com o apoio de movimentos simpatizantes como o MR8 - Movimento Revolucionário 8 de outubro, na ativa desde a ditadura militar.

Além da comemoração pela conquista do dia como feriado municipal, os movimentos presentes levantaram a bandeira da aprovação do Projeto de Lei n° 73/99, popularmente conhecida como Lei de Cotas.

Suely Santos é negra e resolveu não almoçar, neste dia, para conferir as festividades. Ela estava trabalhando no feriado e acredita que a existência do Dia da Consciência Negra é uma prova concreta de que "existe racismo", porém, é contra a oferta de vagas a negras em universidade públicas, conforme prevê a Lei de Cotas, que segundo o Ministério da Educação, se encontra na Câmara dos Deputados, em Brasília, aguardando votação.

Além do acesso ao ensino superior, a Educafro - Educação e Cidadania de Afro-descendentes e Carentes buscou em seu discurso também cotas para a cultura, pois a meia-entrada para shows e cinemas, garantida aos estudantes, não é suficiente para garantir a inclusão de jovens negros e pobres.

Apesar do engajamento, as comemorações contaram com momentos de descontração, no qual os participantes cantavam em coro "Quem for negro levanta a mão, acabou o tempo da escravidão". O evento contou ainda com apresentações de hip-hop, com as meninas Divina Quadrilha e rodas de capoeira e maracatu.