Compulsão sexual: o prazer a qualquer preço / Por Paulo Gannam, estudante de Jornalismo da Universidade de Taubaté
Compulsão sexual: o prazer a qualquer preço / Por Paulo Gannam, estudante de Jornalismo da Universidade de Taubaté
Compulsão sexual: o prazer a qualquer preço / Por Paulo Gannam, estudante de Jornalismo da Universidade de Taubaté
A reportagem entra no universo dos compulsivo-sexuais apontando causas, conseqüências e soluções que especialistas e compulsivos dão para o problema A vergonha, a raiva e o prazer Aos cinco anos, Pedro odiava finais de semana, especialmente domingo. Neste dia, seu pai gostava de ficar em casa, após o porre que tomava durante toda a semana. Pedro sabia que, logo depois do almoço, seu pai vedaria com um pano a janela do quarto em que dormia com a esposa, mãe de Pedro.
Em seguida, ligava a TV em som altíssimo para "assistir aos filmes" que passavam na programação de Sílvio Santos. Porém, o garoto sabia que seu pai teria uma relação sexual com sua mãe. "Eu me sentia agredido, não admitia aquilo. Depois de todo o inferno dos dias de semana, aquilo acontecia numa hora imprópria e me machucava muito", diz magoado.
Pedro, ainda com cinco anos, recebeu uma oferta de um amigo de brincadeiras de rua que o convidou para uma visita em casa, prometendo-lhe uma pipa de presente.
Um dia, Pedro decidiu ir à casa desse seu amigo-vizinho de 17 anos para receber a oferta. Depois de ganhar a pipa, sentou no colo do rapaz, e, sem saber o que estava acontecendo, esse mesmo rapaz começou a se esfregar com o pênis nele. "Na hora, eu não admiti que aquilo estivesse acontecendo comigo, porque eu tinha na minha consciência que eu já era homem e que era errado fazer aquilo com outro homem", conta.
Após esse episódio, Pedro ficou, por muito tempo, com uma angustiante vergonha, e prometeu a si mesmo que não contaria o ocorrido a ninguém.
Um ano depois, era comum seus amigos mais velhos de rua ficarem lhe mostrando o pênis, numa espécie de divertimento mesclado com sátira infantil. Pedro, vendo tudo aquilo, sentia muita raiva, pois não sabia como se defender e não creditava confiança suficiente a seu pai a ponto de confidenciar-lhe o que acontecia.
Certo dia, resolveu pôr tudo para fora. Incapaz de entender o sofrimento do menino, sobretudo pelo alcoolismo que já se encontrava em estágio bem avançado, seu pai dizia aos garotos:
- Não mostra o "piruzinho" para ele que ele chora. "Aquilo lá acabava comigo. Virou um sarro, e isso doía muito dentro de mim, porque eu não podia fazer nada a respeito".
Após esses eventos, Pedro, já bastante confuso com o aspecto sexual, tinha o hábito de se deitar no colo de um primo mais velho. "Quando isso acontecia, percebo que tinha muito prazer em ficar por baixo, em deixar que ele abusasse de mim. Já não era mais uma escolha. Quando eu já estava envolvido, era difícil de sair, pois eu sentia prazer naquilo", recorda chorando.
A prima, o futebol e a violência
Gabriel foi convidado para dormir na casa de sua avó, pois o avô estava viajando e ela não gostava de ficar sozinha. Por algum motivo, sua prima, de 17 anos, também foi dormir na casa. Tarde da noite, os três (Gabriel, prima, e avó, respectivamente) estavam deitados na mesma cama para cair no sono.
Mas, subitamente, sua prima colocou os seios para fora da camisa e começou a esfregá-los em Gabriel, e, ao mesmo tempo, apertava o corpo do garoto com as mãos. "Na hora eu não senti nada, mas sei que fiquei diferente no dia seguinte. Era como se eu estivesse fora de mim, ou seja, o corpo estava num lugar, mas a mente em outro", relata o até então garoto de oito anos.
Gabriel, aos 11 anos, estava jogando bola na rua, quando a pelota rumou à casa de um vizinho. Ao chegar à residência para pegá-la, avistou o vizinho de 25 anos se masturbando no banho e chamando-o para concluir o ato. "Ele pediu que eu fizesse, que eu pegasse, mas saí correndo", expõe.
Nessa mesma época, também jogando bola na garagem da casa de um de seus amigos mais velhos, Gabriel foi arremessado a um colchão, e o pessoal começou a esfregar o pênis nele, que logo saiu correndo e com muita raiva. "Eu acho que se encontrasse, hoje em dia, os caras que fizeram isso, não ia dar boa coisa", insinua.
O futebol, o senhor e o segredo
O guri de nove anos, João, tinha um vizinho de 50, que já possuía a famigerada alcunha de abusador entre os colegas do menino. Um deles lhe pediu que o acompanhasse para buscar a bola de futebol, que havia entrado na casa desse senhor. Na hora de sair do local, com as bolas nas mãos, seu colega lhe disse:
- Vamos embora João.
Sentado próximo a um fogão à lenha, o velho homem começou a conversar com João, enquanto seu amigo ia embora.
- Sente no meu colo, disse o sujeito. "Na hora, eu tive aquele sentimento de acolhimento por parte daquele homem, algo que não sentia com meu pai", desabafa.
Minutos depois, o homem o ergueu à beirada de uma janela e começou a esfregar seu pênis em João.
Enquanto lhe encostava o membro, o menino via, através da janela, uma vista muito bonita, uma grande área verde, sem compreender o que estava acontecendo. Terminado o ato, o sujeito lhe deu um papel para se limpar. "Ao mesmo tempo em que aquilo me provocou excitação, me senti muito sujo, um lixo. E só tinha uma coisa na cabeça: ninguém podia ficar sabendo", confessa.
De acordo com o que diz o psicoterapeuta especializado em compulsões, Paulo Campos Dias, a respeito da caracterização do abuso sexual, todos estes eventos transcorridos na vida dessas três pessoas se enquadrariam como tal.
Para Paulo, o abuso pode ser enquadrado até nos casos em que o abusador é um menor de idade. "Se existe um (a) menor (abusado), e se existe alguém (abusador) - que pode até ser menor do ponto de vista jurídico (14, 15 anos) - mas se o outro (abusado) tiver oito, nove anos, por exemplo, já há uma caracterização do abuso sob o ponto de vista da sexualidade", revela.
Para o psicoterapeuta, a criança acredita que aquele maior não vá lhe causar nenhum dano, nenhum mal. Assim, ela se entrega ao maior de corpo e alma porque esse mesmo maior seria, digamos, o seu "salvador". Em algum momento, essa pessoa abusa da confiança do menor, cometendo atos pelos quais a criança se sentirá ferida, maculada, machucada e envergonhada.
O abuso pode ser por penetração, por toque, por exposição a cenas sexuais; a palavrões e termos chulos de cunho sexual, pela manipulação do membro do menor, entre outros. "O abuso nada mais é do que o rompimento da confiança do menor, que acaba se congelando emocionalmente nesse patamar e não evolui na área da afetividade e da sexualidade", salienta o terapeuta.
O nascimento da compulsão
Após os sucessivos abusos, Pedro começou a manifestar grande dificuldade em se relacionar com outras pessoas, com medo de não ser aceito e baixíssima auto-estima. "Eu me sentia um lixo, não conseguia fazer amigos nem conversar", lembra. Aliado a isso, começou a se masturbar compulsivamente, incentivado também pelos programas de TV. "Eu gostava de ver as paquitas para me masturbar, e saia pouco de casa. E isso foi progredindo", relata.
Aos 10 anos, Pedro já se masturbava todos os dias. Ao ver as meninas na rua, sentia um desejo muito forte de tocá-las. Porém, como não sabia lidar com aquela vontade, se masturbava. "Eu cheguei a me masturbar tantas vezes que feri o meu pênis. No final eu nem sentia mais prazer, era somente dor e, no entanto, eu continuava". No ápice da prática, chegou a se masturbar nove vezes por dia. Nas suas viagens de ônibus, no banheiro, depois de ter praticado sexo com uma eventual namorada, e assim por diante. "Era algo que eu não tinha como me controlar, pois era como se fosse uma droga", garante.
Conforme crescia, Pedro vivenciava momentos nos quais não sabia se era homem ou mulher, sobretudo aos doze anos. A crise de identidade sexual o atormentava, mas, como precisava provar a si mesmo que era homem, começou a se relacionar muito com mulheres.
Geralmente, mulheres bem-sucedidas, uma vez que Pedro, no final da adolescência, não aceitava sua profissão de pintor e precisava de uma mulher com status para imbuir-se de um sentimento de gratificação. "As relações que eu tinha eram sempre pautadas no sexo. Eu conhecia mulheres bem de vida através do flerte, não tinha amigas, e sempre o sexo estava em meus pensamentos, antes de tudo".
Pedro também desenvolveu padrões como o de guardar as calcinhas daquelas que conquistava, como uma espécie de troféu pessoal. Buscava, por meio desse comportamento, o reconhecimento de seus afetos.
Tornou-se extremamente ciumento, chegando a imaginar coisas que não existiam a respeito de suas namoradas. Fato que, entre outras coisas, lhe custou a perda de vários relacionamentos.
Para Gabriel, a masturbação também foi crescente, chegando a cerca de quatro vezes ao dia. "Havia sempre um pretexto inconsciente na minha cabeça. Ansiedade, nervosismo, pensamentos obsessivos por sexo, ereções ao ver uma menina na rua; e a própria lembrança do abuso", conta.
Em sua vida adulta, passou a seduzir garotas nas aulas de informática que lecionava. Traiu inúmeras namoradas e tinha sempre a necessidade de novas conquistas para obter o reconhecimento próprio e dos outros. Com os "olhos de radar", como ele denomina, buscava em qualquer lugar, a qualquer hora, a possibilidade de visualizar algo atrelado ao sexo. "Calcinhas aparecendo, mulheres sem sutiã, saias curtas, eu queria ver tudo a qualquer hora", confidencia.
João também passou a se masturbar compulsivamente, chegando a ferir várias vezes o pênis, assim como Pedro. Desenvolveu práticas sexuais com animais, assistia a filmes e revistas pornográficas; e teve, aos 12 anos, uma relação homossexual, também por problemas de identidade sexual. "Eu passei a misturar sexo com amor e fiquei muito assustado com o que eu seria capaz de fazer para poder obter prazer e dar um sentido à vida horrível que eu tinha", conta bastante concentrado nas recordações.
Na fase adulta, buscava insistentemente convencer sua esposa de praticar sexo com outros homens e mulheres, ia atrás de prostitutas, e, muitas vezes, as levava para casa, na presença dos filhos - que já chegaram a presenciar o pai se masturbando quando assistia a filmes pornográficos.
De acordo com Paulo Campos, quando um indivíduo desenvolve a compulsão sexual, com o passar do tempo, ele começa a perder muito do seu dia-a-dia para imaginar como conseguir alguém, como se relacionar.
Todos os padrões de comportamento descritos por Pedro, Gabriel e João também seriam pertinentes à compulsão. "Voyeurismo, exibicionismo, uso de objetos, masturbação e sexo compulsivos, variedade de relacionamentos simultâneos, sexo com animais; pensamentos obsessivos, excitabilidade ao flertar, exposição a lugares e situações perigosas e a doenças sexualmente transmissíveis; e relacionamento com travestis ou outras pessoas do mesmo sexo em virtude da crise de identidade sexual decorrente do abuso", argumenta.
Os três indivíduos entrevistados pela reportagem atribuíram ao abuso quase que 100% do seu comportamento sexual, e também afirmaram ser a dependência do sexo muito parecida com a dependência de drogas.
Estudos atestam que a compulsão sexual esconde traumas vivenciados na infância. O dependente pode ter sido criado num ambiente opressor, de pouquíssima troca afetiva. Ou, o oposto, podem ter tido a sexualidade impulsionada prematuramente.
Patrick Carnes, um dos mais conhecidos especialistas norte-americanos em compulsão sexual, publicou em seu livro Isto não é Amor (Editora Best-Selller) o resultado de uma pesquisa com mil dependentes, durante pouco mais de 5 anos. Na análise, ele aponta que 82% dos dependentes sofreram abuso sexual na infância.
Em algumas famílias, embora não houvesse casos de abuso direto, há relatos de pais que mantinham relações sexuais na presença dos filhos ou deixavam revistas e filmes pornográficos aos montes pela casa. "A grande maioria dos casos que vem a tratamento são, estimativamente, vítimas do abuso e a grande semelhança existente entre esta dependência e a do álcool ou a de outras drogas é que também é a doença da negação", esclarece.
Para o psicoterapeuta, a pessoa portadora dessa disfunção se utiliza de mecanismos inconscientes que a fazem acreditar que o que está fazendo é normal. O machismo existente, o apoio de amigos que homenageiam e endossam o comportamento daquele que consegue se relacionar com várias mulheres, a cultura latino americana, um Brasil entremamente sexualizado, entre outros fatores, contribuiriam para essa negação da realidade e, por extensão, da depedência.
O segredo e a falta de intimidade que permeia esta área seria uma das semelhanças com a dependência de drogas. "O doente não se expõe, não fala dos seus medos, anseios; monta histórias, o lado positivo de sua vida, a cada momento se relaciona com uma pessoa para que ninguém saiba quem ele é", acrescenta.
O preconceito que existe em relação à compulsão sexual é, para Paulo, outro ponto comum com a dependência de drogas. "Primeiro, o sujeito (seja homem, seja mulher) desconhece que se trata de uma doença, fazendo, assim como as pessoas à sua volta, um julgamento moral. Considera-se mal-caráter, sem-vergonha, tarado, quando, na verdade, se trata de um problema de saúde", define.
A depressão, o vômito e o buraco negro
Com 27 anos, Pedro vivia muito mal. Sobrevivia, na verdade. Além dos problemas de cunho sexual, tinha desenvolvido a compulsão pela bebida. "Na primeira vez em que bebi, tomei um copo de cerveja e passei mal. No final, estava tomando 25 chopes e não sentia nada", conta.
Tudo o que condenava ocorrer em sua casa, com seu pai alcoólatra, vinha praticando há algum tempo. Seu trabalho como pintor - do qual tanto se envergonhava - ia de mal a pior; estava muito dependente emocionalmente das pessoas, obcecado por sua namorada, e com acessos violentos de ciúmes. "Foi quando perdi a namorada que mais gostei, porque na casa dela tinha tudo que na minha não tinha".
Lá as pessoas se reuniam para almoçarem juntas, conversavam, havia o diálogo. "Eu queria um lar e lá tinha aquela união. Então eu fazia do meu namoro a minha vida", relata chorando.
Pedro se agarrou ao relacionamento como se fosse tudo o que tinha. Quando sua namorada pôs fim à relação, seu mundo ruiu. Entrou em depressão profunda e só pensava em morrer.
Gabriel, aos 31 anos, namorava sua atual esposa, mas as consecutivas traições começaram, pela primeira vez, a lhe incomodar profundamente. "Tive uma crise de consciência, senti que o que estava fazendo era errado e vomitei muito", expõe.
O vômito, segundo ele, estaria representando o desejo de se limpar daquela sujeira, quando se sentia mal pelo que fazia. Com o tempo, acabou contando tudo à esposa.
Para João, o fim de sua militância compulsivo-sexual, associada ao uso de álcool e medicamentos, foi uma loucura total. A perda do emprego de gerente de banco, a busca animalesca, às madrugadas, por mulheres na rua; as constantes traições e orgias arbitrárias ocorridas em sua casa; as várias tentativas de suicídio; e os acidentes de carro o levaram ao fundo de poço. "Um buraco negro consumia tudo aquilo que ainda me restava de humano.
Ao andar na rua, eu não via mais uma flor, uma paisagem bonita. A única preocupação era a com a mulher que tinha acabado de passar", recorda.
De acordo com Paulo Campos, como a doença é progressiva, em algum momento, acaba tomando todo o tempo da pessoa. "É muito comum a perda financeira e de empregos, acidentes e brigas, uso associado de álcool e de outras substâncias; prisão (caso entre num quadro de pedofilia abusando de menores); perda de relacionamentos conjugais, o contágio das DST", explica. Para ele, as conseqüências seriam iguais as de qualquer outro tipo de droga.
Pedro ficou sabendo que um amigo, também cheio de problemas, havia ido a uma clínica de recuperação e que estava vivendo melhor. "Eu sabia que se não pedisse ajuda iria morrer", lembra.
Na clínica, baseada na literatura dos 12 Passos oriunda de Alcoólicos Anônimos, Pedro descobriu que era portador da compulsão sexual, doença que consta do Código Internacional das Doenças, na sua 10ª edição (o CID 10). "Foi um alívio eu saber que não era tarado, sem-vergonha, mal-caráter. É uma doença, mas tem tratamento, tem solução", assegura.
Ao contar tudo o que ocorria em sua vida, Gabriel, por intermédio da esposa, também rumou a uma clínica de recuperação. Lá foi sugerido que, ao sair, ele freqüentasse o DASA (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos), irmandade derivada de Alcoólicos Anônimos cujo enfoque é especificamente para pessoas com compulsão sexual ou anorexia sexual (aversão ao sexo ou ao afeto, manifestada, também, muitas vezes, em virtude do abuso). "Descobri que é uma doença emocional e de progressão fatal. Só Deus sabe o quanto eu pensava o quanto eu fazia sexo e o quanto sofria com isso, destaca.
João estava perdendo sua família. Então ouviu falar duma clínica de recuperação. "E aí eu vejo o quanto foi a mão de Deus porque eu não queria ir, mas, no final das contas, eu procurei saber como era a clínica e disse a mim mesmo que iria", remonta.
Algo que ajudou muito João foi entender que era doente e não um pervertido, um maluco, e que também poderia ajudar outras pessoas que estivessem passando pelo mesmo problema. "No DASA eu recebi ajuda da literatura do grupo, sobre abuso e sobre a dependência de amor e sexo, além da de pessoas que tinham problemas iguais aos meus", garante.
A reportagem acompanhou reuniões do DASA na cidade de São Lourenço, no sul de Minas, localizada na sala de uma creche, às 3ª e 6ª feiras, às 19:30h. Ao entrar na sala, logo se avista um cartaz no chão, que preconiza: "Quem você vê aqui, o que você ouve aqui, quando sair daqui, deixe que fique aqui".
Os encontros têm a coordenação de um membro mais experiente e cada pessoa tem, em média, 10 minutos para dar seu depoimento - que incluiu histórias de vida, problemas atuais e superação dos mesmos.
Funciona, digamos, como uma terapia de espelho, onde a pessoa, ao se identificar com os relatos dos outros, começa a se sentir mais à vontade para colocar seus problemas mais íntimos. Os depoimentos ouvidos pela reportagem convergiam muito com os de Pedro, Gabriel e João.
O programa de DASA recomenda uma série de procedimentos que devem ser adotados como, por exemplo, evitar lugares, pessoas e hábitos da ativa, não mantendo, portanto, nenhuma parafernália de ativa (revistas e filmes pornôs, objetos de uso sexual, palavras de uso sexualizado ou sensualizado, etc.).
Para Paulo Campos a eficácia do tratamento consiste na abstinência dos padrões sexuais. "E entra nesse quadro de abstinência o programa de 12 Passos do DASA, a freqüência a profissionais competentes na linha cognitivo-comportamental, terapia ambulatorial e de grupo", enfatiza.
Segundo ele, existirão profissionais que dirão: "Não, é só você ter controle, faça como eu, pegue uma só por dia, masturbe só 2 vezes ao invés de 10". Isto, segundo ele, poderia travar o processo de recuperação.
Vida Nova
Tempos depois de assídua freqüência aos grupos e à terapia ambulatorial oferecida pela clínica, Pedro começou a sentir algo que acreditava ter perdido. "Isso me deu um norte, um caminho, oposto ao meu. Antigamente eu não dormia. O inferno na minha casa começava na 5ª feria", referindo-se a seu pai.
Depois que Pedro entrou em recuperação, seu pai, sua mãe e seu irmão foram também à clínica e passaram a freqüentar grupos anônimos. Hoje, todos os membros da família de Pedro almoçam juntos. "Eu quase matei meu pai pelas coisas que ele fazia, e hoje conseguimos ter uma boa amizade. Tudo o que eu queria para a minha família quando era criança hoje eu tenho", conta emocionado.
No trabalho, Pedro canalizou toda a sua compulsão sexual no desenvolvimento de habilidades na pintura. Vai fazer cursos de textura, está montando uma equipe, e não se envergonha mais de ser pintor. "Esse programa de 12 Passos me trouxe motivação para viver e me faz acreditar que eu posso ser diferente daquilo que eu era", prevê.
Gabriel voltou a ter um relacionamento melhor com a esposa e planeja filhos. "Tudo o que eu tenho hoje agradeço a Deus e à minha esposa, pois estamos fazendo um trabalho para desenvolver uma família", exprime. Para Gabriel, aquele vazio que sentia na ausência das práticas compulsivas acabou. "Antes eu sentia um vazio, um rombo no peito e tapava com sexo. Hoje, procuro melhorar meu relacionamento com minha esposa, busquei uma religião de preferência e sempre estou nos grupos", afirma.
João readquiriu o respeito dos filhos, ganhou entendimento sobre o que ocorreu em sua vida. "Antes, eu vegetava, mas agora voltei a sentir amor pelas pessoas, venho tratando bem os meus filhos e minha esposa, voltei a ter vontade de viver e a conquistar metas no meu novo trabalho", revela.
João voltou a ter um contato consciente com o Deus de sua concepção e partilha semanalmente suas dificuldades nos grupos. "Eu precisei passar a fase inicial, que foi muito difícil, a da abstinência. Sentia medo de abusar dos meus filhos, e então me afastei deles num primeiro momento", declara.
João sabia que se abusasse de um de seus filhos os levaria ao mesmo buraco em que havia se encontrado há algum tempo.
Em entrevista concedida à revista Domingo (jan./2002, por Cláudia Miranda), Aderbal Vieira Junior, psiquiatra e psicoterapeuta responsável pelo ambulatório de tratamento do sexo patológico do PROAD (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que se uma pessoa não estiver satisfeita com seu comportamento sexual, deve buscar diagnóstico e tratamento especializado. "As modalidades de tratamento são basicamente medicamentoso, psicoterapia cognitivo-comportamental e a psicoterapia psicodinâmica".
O sucesso do tratamento, segundo ele, varia muito, dependendo da boa vontade do paciente, dos recursos internos, além de outras variáveis, como a competência do terapeuta.
Para Paulo Campos, buscar um terapeuta é fundamental, mas orienta: "Se não encontrar um profissional competente, busque literatura específica a respeito. Na internet existem grupos que trabalham a sexualidade de forma honesta como o DASA". Na web, segundo ele, também podem ser encontradas as 40 ou 50 perguntas do grupo de DASA em que se pode estar fazendo um auto-diagnóstico.
Conforme o psicoterapeuta, existe a possibilidade de se escrever para o grupo e solicitar literatura a respeito. "Quando tiver oportunidade, vá até as cidades onde tenha o grupo, freqüentando-o, se possível. Veja a possibilidade de trazer este grupo para a sua cidade, de montá-lo, de estar participando, e dando a outras pessoas a condição de buscar uma recuperação", recomenda.
OBS: Embora não existam estatísticas oficiais, a estimativa baseada em pesquisas americanas revela que a compulsão sexual acomete de 3% a 6% da população brasileira. Para um país de 174 milhões de habitantes, isso corresponderia a aproximadamente 8 milhões de pessoas.
*Para preservar os três entrevistados pela reportagem, os nomes foram modificados. 





