"Começaria tudo outra vez" | Por: Paulo Marcio Vaz - FACHA (RJ)
"Começaria tudo outra vez" | Por: Paulo Marcio Vaz - FACHA (RJ)
Atualizado em 05/12/2005 às 10:12, por
Por: Paulo Marcio Vaz.
"Começaria tudo outra vez" | - FACHA (RJ)
"Codinome, Willy. Às vezes, Miro. Também podia ser chamado de Célio ou Levi. Nos tempos da ditadura não era aconselhável o uso do nome verdadeiro. Principalmente quando se contestava o regime de forma tão ousada e corajosa. Ainda estudante, trocou a caneta e o papel por armas mais pesadas. As idas ao Maracanã foram suspensas. As rodas de samba passaram a acontecer na Argélia, Chile, Cuba, México e Suécia, países onde andou exilado, às vezes sem identidade, sem rumo, sem cidadania. Tudo em defesa da liberdade. Da nossa liberdade. Hoje, Cid Queiroz Benjamim já pode se identificar. Professor do curso de Jornalismo da FACHA (Faculdades Integradas Hélio Alonso - RJ), é parte da história em pessoa. História de dor e resistência. De vitórias e derrotas. De dúvidas e certezas, como a de que, se fosse preciso faria tudo de novo, mudando apenas a forma, segundo ele equivocada, que a resistência pela luta armada adotou.NAMORANDO A MILITÂNCIA
Cid nasceu em Pernambuco, 1948. Aos 12 anos, veio para o Rio. Desde o Colégio de Aplicação da UFRJ, onde estudou, já praticava política estudantil. Mas foi a partir de sua entrada no curso de Engenharia da UFRJ, em 67, que se deixou embriagar "por essa cachaça que é a militância política". Seu pai, militar contrário ao golpe, sempre apoiou o engajamento do filho.
"Nunca namorei tanto, enquanto praticava a militância. Continuei tocando meu violão e indo aos jogos do Flamengo. Essa visão que as pessoas tem do militante político como sendo um "mala" que só fala por chavões, é inteiramente falsa. Apesar da militância, éramos um grupo muito feliz e divertido. Tinha até gente que entrava para o movimento estudantil só pra arrumar namorada."
Sua primeira prisão ocorreu em outubro de 68, durante o congresso clandestino da UNE em Ibiúna, SP. Cerca de 1000 estudantes foram presos, mandados para seus estados e soltos após serem interrogados. "Naquela época ficávamos pouco tempo presos. A violência policial existia, mas era nada, se comparada à tortura que chegaria após o AI-5", diz ele. Até meados de 68, as armas dos estudantes eram mais eficazes que as da polícia: rolhas e bolas de gude derrubavam a cavalaria. Bombas de gás eram chutadas de volta e os cassetetes policiais quase não eram usados pois, devido à chuva de pedras portuguesas arrancadas da calçada e arremessadas pelos estudantes, a polícia sempre saía correndo. A situação começou a se complicar a partir do segundo semestre de 68, quando armas de fogo passaram a ser usadas contra os estudantes. As faculdades, até então portos seguros, começaram a ser invadidas pela repressão. Os líderes estudantis se viram forçados a abandonar suas famílias e a faculdade. Cid ainda conseguia, nessa época, ir ao Maracanã e, de vez em quando, encontrar os pais. Mas essa "mordomia" iria acabar.
LUTA ARMADA
A partir do AI-5, em 69, os líderes estudantis ficaram definitivamente isolados. "Fazer política dentro das universidades ficou impossível. Não havia como fazer oposição através dos canais legais e institucionais." Era o início da luta armada, à qual Cid se integrou a partir de 69. O ápice do movimento foi o seqüestro do embaixador americano, Charles Elbrick. "A partir daí, a repressão fechou o cerco. A bem sucedida operação do seqüestro deu uma falsa impressão de poder que a resistência, na verdade, não tinha. A casa que serviu de cativeiro foi logo descoberta e vigiada 24 horas por dia. A embaixada americana deu ordens expressas aos militares brasileiros, proibindo a invasão. Mesmo assim, a tensão foi grande." Os momentos da libertação do embaixador estão bem guardados na memória de Cid: "Parecia cena de filme americano: estávamos em dois carros. O Jonas, comandante da ação, saiu com o embaixador no carro dirigido por nosso melhor motorista. Eu dirigia o carro de cobertura, carregado com granadas e metralhadoras. Os agentes da repressão nos seguiam. Quando percebemos que um grande esquema estava sendo montado para nos pegar, diminuí a velocidade e fiz sinal para nos ultrapassarem. Iríamos abrir fogo contra eles. Mas o agente fez sinal pra mim, dizendo que não. Nessa história toda, perdemos contato visual com o carro onde estava o embaixador. Então, dei uma guinada para a direita, entrei numa rua e, ao final, todos nos perdemos de todos(risos)! Depois nos reencontramos num ponto previamente marcado, e tomamos uma cervejinha pra comemorar." O seqüestro do embaixador resultou na libertação de 15 presos políticos e na leitura, em rede nacional, de um manifesto contra a ditadura.
TORTURA, EXÍLIO E RETORNO
Em 21 de abril de 70, Cid foi preso novamente. Dessa vez, numa situação bem diferente de Ibiúna, ele era um dos homens mais procurados pela ditadura. Levado para a sede do DOI-CODI, foi cruelmente torturado. A dor foi tanta, que chegou a pedir a seus torturadores que o matassem. Mas esse "direito" lhe foi negado: "Aqui você só vai morrer quando nós quisermos...", foi a resposta. Transferido para o DOPS, Cid ainda conseguiu, mesmo preso, colaborar com o seqüestro do embaixador alemão. O êxito dessa operação, possibilitou nova libertação de presos, inclusive a do próprio Cid, imediatamente deportado.
Argélia, Chile, México, Cuba e Suécia. A via crucis do exílio durou 9 anos. Alternando momentos de legalidade e clandestinidade, Cid sempre teve a intenção de voltar ao Brasil.
Em 1979, com a anistia, pode finalmente retornar. Se inicia então, a vida do jornalista Cid Benjamim. "Me tornei jornalista por uma questão de necessidade. Comecei trabalhando no movimento sindical e me virei também fazendo traduções, até que um amigo me recomendou para o Evandro Carlos de Andrade, na época diretor de redação de O Globo. Fui contratado como redator de Política. Foram 10 anos em O Globo e 2 anos no JB, onde fui editor de política."
ETERNO REVOLUCIONÁRIO
Hoje, Cid se diz satisfeito com seu trabalho na FACHA. Como jornalista, atua como "free-lancer" e também é o Secretário-Geral do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro: "Abrimos recentemente espaço para a pré-sindicalização de estudantes de Jornalismo. Os interessados podem acessar o site do sindicato (www.jornalistas.org.br)."
Eterno apreciador das coisas boas da vida, Cid não deixa de bater ponto semanalmente nas rodas de samba cariocas e ressalta que, mesmo nos períodos mais turbulentos do exílio, seu violão nunca deixou de ser parte da bagagem. Como um dos fundadores do PT, se diz decepcionado com o atual governo e indignado com outra ditadura: a do capital financeiro. Em relação às mudanças esperadas que, segundo ele, não aconteceram, diz: "Não se trata de dar cavalo de pau em transatlântico, como diz o Zé Dirceu. Mas se trata de mudar o rumo do navio." Ainda segundo Cid, no início dos anos 80 havia mais perspectivas de mudanças do que agora, no sentido da resolução dos problemas sociais: "Hoje as perspectivas são piores do que eram em 1980, quando se fundou o PT. Uma tragédia."
Se considerando um eterno revolucionário, Cid é simples e direto ao dar um conselho para a nova geração: "Lutem por seus direitos e exijam o cumprimento de todas as promessas que fizerem a vocês."
Com a palavra, os estudantes...
Por Paulo Marcio Vaz* é estudante de jornalismo da Faculdades Integradas Helio Alonso/FACHA (Rio de Janeiro/RJ).






