Caviar para a mídia II: Suspeitos de um crime perfeito

Caviar para a mídia II: Suspeitos de um crime perfeito

Atualizado em 12/12/2006 às 09:12, por Meyre Anne Brito.

Caviar para a mídia II : Suspeitos de um crime perfeito

Por O corpo do ex-espião russo Alexander Litvinenko, selado à vácuo, foi sepultado na tarde de quinta-feira (07/12) em Londres, em um caixão de chumbo.

Aproximadamente cinqüenta pessoas acompanharam o cortejo fúnebre. Do lado de fora do cemitério, jornalistas de todo o mundo acompanhavam o enterro à distância. Os de TV, maquiando-se para entrar no ar; os de impresso, colhendo informações com suas cadernetas características.

Há quem diga que o foco da mídia no Kremlim é preguiçoso.

Na nota deixada pelo ex-espião russo antes de morrer, o presidente Vladimir Putin é o algoz. Para algumas mentes conspiratórias, Litvinenko teria se sacrificado a fim de incriminar o governo russo.

A verdade é elementar, meus caros repórteres. Não precisa de lupas para ser vista. As pistas do caso - que parecem ter saído dos supenses de Hitchcock ou dos livros de John Le Careé - ao invés de se encaixarem, embaralham-se cada dia mais e mais.

Há mais de três semanas, as mentes brilhantes européias se debruçam na investigação, e até agora ninguém pode (ou quer) afirmar concretamente a origem do elemento radiotivo, o polônio 210.

Uma coisa é certa; segundo decretou a Scotland Yard, foi assassinato. O crime não pode ser qualificado apenas como misterioso e espetacular, mas também como requintado. A dose encontrada no corpo do ex-espião poderia tê-lo matado 100 vezes. A enorme quantidade do raro polônio, descreve o jornal britânico The Guardian , deve ter custado ao assassino 20 milhões de libras - 29, 7 milhões de euros ou quase 100 milhões de reais.

A declaração feita à BBC do outrora chefe do Comitê de Inteligência do governo inglês, Pauline Neville-Jones, gerou um mal-estar nas relações entre a Rússia e a Inglaterra.

Neville-Jones teria dito que Polônio não se encontra em farmácia. Muitos tinham razões para cometer o crime, mas a capacidade para fazê-lo somente um órgão do Estado russo tem; afirmação que o Kremlim classificou como "absolutamente provocativa". Moscou deu um recado claro: Londres não deveria ter deixado a carta de despedida de Litvinenko vazar. Deveriam tê-lo silenciado.

Por essas e outras, os russos decidiram investigar o mistério por conta própria. Os nove detetives da Scotland Yard que se encontram em Moscou não têm permissão de interrogar nenhum dos suspeitos em particular. Porém, podem acompanhar os coleguinhas russos.

Alguns dos suspeitos também sao vítimas. Um deles é um especialista em espionagem, o italiano Mário Scaramella. Em encontro no restaurante japonês Itsu, em Picadilly Circus, ele teria informado Litvinenko que cinco pessoas estavam marcadas para morrer na lista do grupo paramilitar Dignidade e Honra, formado por aposentados da antiga KGB.

Na lista negra, estavam o ex-agente assassinado, o próprio italiano, a jornalista executada a tiros Anna Politkovskaya e o ativista de direitos humanos e escritor Vladimir Bukovsky.

Além de Scaramella, Dimitri Kovtun, um dos russos que foram a Londres para assistir a um jogo de futebol e "casualmente" tomaram chá com Litvinenko na tarde de 1 de novembro, também está contaminado.

Mas os suspeitos não param por aí. De volta ao restaurante japonês Itsu, Scaramella teria mencionado também um assassino russo, membro da unidade especial Spetsnasz , o qual fala fluentemente inglês e português, e é coxo da perna direita.

"Isso soa como um filme", teria dito Litvinenko. Naquele primeiro de novembro à noite, ele adoece.