Buraco do metrô: "A premência da notícia pode nos levar a confundir o público", diz Mauro Bastos, da assessoria de imprensa do consórcio Via Amarela

Buraco do metrô: "A premência da notícia pode nos levar a confundir o público", diz Mauro Bastos, da assessoria de imprensa do consórcio Via AmarelaPor O jornalista paulistano Mauro Bastos tem 55 anos, 35 de profissão.

Atualizado em 31/01/2007 às 19:01, por Gabriel Penna / Redação Revista IMPRENSA.

premência da notícia pode nos levar a confundir o público", diz Mauro Bastos, da assessoria de imprensa do consórcio Via Amarela Por O jornalista paulistano Mauro Bastos tem 55 anos, 35 de profissão. Após percorrer diversas redações do país, ocupa hoje, como ele mesmo diz, o "outro lado do balcão". Bastos passou por cargos de repórter, editor-executivo e chefe de redação em veículos como O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Veja, TVs Globo, Record e Bandeirantes. Hoje, é o chefe da assessoria de imprensa do Consórcio Via Amarela, grupo responsável pelas obras da estação do Metrô em Pinheiros, zona oeste de São Paulo.

No último dia 12, pouco depois das 15h, o jornalista estava no consultório médico com sua mulher, que havia sido operada após sofrer inúmeras fraturas em um grave acidente automobilístico. Seu rádio-comunicador tocou. Era um dos engenheiros da obra, integrante do comitê interno de comunicação criado para situações de emergência. Antes das 16h, Bastos já estava no local, onde uma cratera de 80 metros de diâmetro havia engolido caminhões, carros e parte de uma rua do bairro. Ainda não se sabia que debaixo dos escombros estavam sete pessoas.

IMPRENSA - Qual foi a primeira providência ao chegar no local?
Mauro Bastos -
A principal preocupação era encontrar possíveis vítimas e, a partir daí, dar uma primeira satisfação ao público. Chegando lá, buscamos as primeiras informações dos engenheiros que estavam na obra. Tínhamos organizado um comitê de comunicação com contato via rádio entre todos os engenheiros de frente e os diretores do consórcio, mas naquele momento era difícil falar nas causas. Montamos um trailler no local, com um computador e a comunicação com os públicos externos era toda feita via celular.

IMPRENSA - Como vocês responderam às demandas da imprensa?
Bastos -
No primeiro momento, procuramos responder a todos. Em três dias, atendi sozinho 400 ligações de apuradores de tv, produtores, repórteres de tv, repórteres de jornal, pauteiros. Como não tínhamos informações confirmadas sobre causas e vítimas, soltamos o primeiro comunicado somente no dia seguinte ao acidente. Mas houve uma corrida por declarações não autorizadas de pessoas que não tinham qualquer conhecimento sobre o caso. Uma pessoa entrevistada por redes de tv se apresentou como engenheiro do Exército. Depois foi parar na delegacia por falsidade ideológica. No segundo dia, passamos a avaliar cada questão e nos pronunciar somente por escrito, para não alimentar especulações.

Também percebemos que precisávamos divulgar informações técnicas, pois havia muito desconhecimento e erros na cobertura. Alguns veículos insistiram em dizer que o desmoronamento tinha começado no túnel do metrô. Mas ele está intacto. O que desmoronou foi a parede da estação. A imprensa chegou a essa conclusão e induziu especialistas a analisarem o desmoronamento do túnel, que não aconteceu. Nesse momento, nós promovemos encontros com a equipe técnica do consórcio. Colocamos cinco especialistas - geólogos, engenheiros, projetistas - para conversar com os repórteres, mas com o compromisso de que os nomes fossem preservados. Não foram entrevistas coletivas. A preocupação era esclarecer e não "fulanizar", ou seja, responsabilizar alguém que está alí apenas para prestar uma informação.

IMPRENSA - Qual era a estrutura de comunicação do consórcio antes do acidente?
Bastos -
Até o dia do acidente, a assessoria de imprensa do consórcio se resumia a mim. Toda a comunicação era feita principalmente via metrô, que é o dono da obra. Eu escrevia os press-releases sobre o andamento da obra e encaminhava à assessoria do metrô, para que eles divulgassem. Mas após o acidente, ganhamos "uma certa autonomia". O consórcio reforçou a equipe com a contratação de dois jornalistas da agência Companhia de Notícias. Além disso, todas as assessorias das cinco construtoras que compõem o consórcio ofereceram apoio. Alugamos um escritório no edifício Passareli, ao lado do buraco. Havia uma conversa colegiada entre a equipe da assessoria e três dirigentes da área de comunicação da Odebrecht. Os comunicados eram redigidos e enviados à diretoria do consórcio para aprovação. Até hoje, foram 15 comunicados divulgados.

IMPRENSA - Como você avalia o trabalho da imprensa de fora das redações?
Bastos -
Estar do "outro lado do balcão" causa um certo impacto. Aquela idéia de que nós jornalistas somos infalíveis não se confirma. A premência da notícia pode nos levar a cometer erros e, ao invés de esclarecer, confundir o público. Um repórter muitas vezes acha que tem uma informação bombástica, mas quando nos procura, vê que aquilo não tem toda a aquela importância. Mas ele não se conforma e liga de novo, sucessivas vezes, para tentar cercar aquela informação de veracidade. Há um inconformismo quando a tese não é confirmada. Até grandes jornalistas, experientes, têm esse hábito. Em um momento como o que estamos vivendo, também é comum o uso político do fato, por isso temos de avaliar bem antes de responde. E a imprensa em geral também tem de ter mais cuidado.