Artigo: Tragédia aérea e uma lição de antijornalismo, por Marco Antônio Eid*

Artigo: Tragédia aérea e uma lição de antijornalismo, por Marco Antônio Eid*

Atualizado em 04/10/2006 às 17:10, por por Marco Antônio Eid*.

Artigo : Tragédia aérea e uma lição de antijornalismo,

Por A prática do bom jornalismo recomenda minuciosa e responsável apuração dos fatos antes de se veicularem matérias, em especial se o tema implica repercussão de impacto na vida de um cidadão, empresa, governo ou toda a sociedade. Por mais incrível que possa parecer, numa era em que a informação constitui-se no mais precioso bem da humanidade, esse conceito não é tão óbvio assim, pelo menos para o repórter norte-americano Joe Sharkey, um dos sete passageiros do Legacy 600 que bateu no Boeing 737-800 da Gol. Antes de conhecer as conclusões da Força Aérea Brasileira sobre o acidente, o profissional publicou ufanista matéria no New York Times , dia 3 de outubro, aclamando como heróis os pilotos norte-americanos Jose Lepore e Jan Paul Palladino, da empresa de táxi aéreo ExcelAire, condutores do avião executivo comprado à Embraer.

O conteúdo da matéria, porém, foi integralmente desmoralizado ante as informações confirmadas pela Aeronáutica, que constatou erros absurdos no procedimento dos pilotos dos Estados Unidos. Conforme farto noticiário da imprensa brasileira, eles desligaram o equipamento "transponder" do Legacy, impedindo que o radar do avião da Gol identificasse o risco de impacto e que o Cindacta 1 de Brasília tivesse condições de especificar a altitude de vôo do jatinho. Além disso, os aeronautas norte-americanos não atenderam a inúmeros chamados de rádio dos controladores de vôo, antes do lamentável acidente.

Toda essa imprudência parece ter sido mesmo a causa do choque aéreo e da morte das 155 pessoas que viajavam no avião da Gol. Ou seja, nada há de heroísmo na ação dos pilotos norte-americanos! Felizmente para ambos e os demais ocupantes da aeronave Legacy, tiveram habilidade, inversamente proporcional à sua responsabilidade, para pousar e sobreviver. É triste, contudo, que os passageiros do Boeing não tivessem a mesma sorte.

Além do desrespeito à dor dos familiares das 155 vítimas fatais e do luto de toda uma nação, a irresponsável matéria do repórter Joe Sharkey fere a imagem do sistema brasileiro de controle do tráfico aéreo e da empresa Gol, cujas assessorias e porta-vozes, de modo sereno e prudente, tentaram, desde o trágico acidente, evitar conclusões precipitadas. Nenhuma das instituições brasileiras, até o momento em que a Aeronáutica divulgou informações mais precisas, ousou culpar ou inocentar alguém. As fontes e a mídia nacionais tiveram atuação exemplar no caso, buscando divulgar notícias equilibradas, antes de fazer quaisquer afirmações levianas. Tentaram, ainda, prestar serviço aos parentes dos passageiros, apesar da imensa dificuldade para localizar os destroços do Boeing e sinalizar a mínima esperança de encontrar sobreviventes.

O mesmo New York Times que, há pouco tempo, teve de pedir desculpas aos seus leitores, confessando em editorial que publicara informações inverídicas sobre as razões que levaram o Governo Bush à invasão militar do Iraque, parece não ter aprendido com o erro. Sem qualquer apuração e a devida responsabilidade jornalística inerente a matérias sobre o mais grave acidente da aviação brasileira, o jornal publicou texto emocional do repórter, que sequer buscou apurar o que de fato ocorrera.

Competirá à Aeronáutica, aos especialistas, às autoridades competentes, à Polícia Federal e, conforme a conclusão das investigações, à Justiça de nosso país, a decisão sobre o grau de responsabilidade dos pilotos norte-americanos no acidente e se o seu ato foi ou não um crime, culposo ou doloso. Não cabe à mídia julgá-los, mas sim noticiar fatos concretos, como as conclusões iniciais da Aeronáutica, até provas cabais estabelecerem culpa ou inocência. Perante esta postura coerente da imprensa brasileira e considerando as regras mínimas da ética e qualidade técnica no exercício do jornalismo, é lamentável verificar a freqüência com que notícias vêm sendo distorcidas em veículos de comunicação de alguns poucos países do primeiro mundo. É como se os povos que ainda buscam o desenvolvimento não tivessem direito à verdade!

*Marco Antônio Eid, jornalista e executivo da área de comunicação, é diretor de Operações da Ricardo Viveiros - Oficina de Comunicação.