Artigo: RCTV - cobertura feita com o fígado, por Pedro Venceslau

Artigo: RCTV - cobertura feita com o fígado, por Pedro Venceslau

Atualizado em 05/06/2007 às 13:06, por Pedro Venceslau e  editor-executivo da revista IMPRENSA.

Artigo : RCTV - cobertura feita com o fígado, por Pedro Venceslau

Por Na ampla, estridente e intensa cobertura sobre o caso RCTV, cada um observa Chávez como lhe convém. Quem navega pela blogosfera, lê os jornais diários, assiste os telejornais e folheia as semanais de informação tem a sensação de que existem duas Venezuelas. Dependendo do ângulo da foto e da boa vontade do observador, uma passeata pode ter centenas, milhares ou dezenas de milhares de pessoas.

Enquanto a chamada "grande imprensa" se refere a RCTV como mais "antigo e popular" canal de TV do país, os combativos observadores midiáticos da esquerda preferem o termo "golpista". Justiça seja feita. A RCTV foi, de fato, golpista. Mas isso foi em 2002. O canal anti-chavista não é o mais popular da Venezuela. Esse título pertence a também golpista Venevisión, que aliou-se a Chávez e teve sua concessão renovada por mais vinte anos. Sobre isso, fala-se pouco.

A cobertura sobre a guerra entre Chávez e a mídia privada do seu país tem sido feita com o fígado. A revista CartaCapital , por exemplo, deu seu jeito de nadar na contracorrente. A edição que foi para as bancas nesta semana colocou Bush, Chávez, Sarkozy e Renan Calheiros no mesmo barco. "A mídia faz política" foi a chamada de capa. Mino Carta não enviou ninguém a Caracas. Preferiu usar o clichê da moda nas rodas bolivarianas: "Hugo Chávez não renova a concessão da RCTV e é tachado de autoritário. Mas poucos lembram o papel central destas e das outras emissoras no golpe fracassado de 2002".

Blogueiros como Luiz Carlos Azenha e Eduardo Guimarães seguem a mesma linha, mas uma oitava a cima. Ex-correspondente da Globo nos EUA, Azenha segue como funcionário da emissora, mas tem se dedicado em tempo integral ao seu blog "Vi o Mundo", que se tornou referência e parada obrigatória para quem precisa azeitar argumentos para defender o fim da concessão da RCTV. "Ora, a quem interessa derrubar Chávez? Alguém tem dúvida de que eliminá-lo é um dos principais objetivos da política externa norte americana? Não é por acaso que a mídia americana, a mídia venezuelana e a mídia brasileira mentem descaradamente".

Já o blog de Eduardo Guimarães, o Cidadania.com, tem se dedicado a esculhambar a cobertura da Folha de S.Paulo . "As notícias que pincei do arquivo da Folha contam uma história de falsidades, de uma indústria de mentiras que trabalha diuturnamente com sua tentativa vil de desinformar os brasileiros".

Na mesma linha, o jornalista Altamiro Borges, autor de "Venezuela: originalidade e ousadia", editor da revista Debate Sindical e membro do comitê central do PCdoB, dispara: "A manipulação da mídia brasileira é descarada. Basta ver as duas edições da Folha de S.Paulo deste final de semana. No sábado, uma manchete espalhafatosa e mentirosa: "Venezuela impede protesto da oposição"(...) No seu editorial de sábado, o jornal da "famiglia" Frias, exige do governo uma posição mais dura". Trata-se de um flagrante exagero. Altamiro não estava lá, portanto não viu o cordão de isolamento montado pela polícia para evitar que os estudantes fossem para a rua. O próprio chefe local da polícia afirmou que não permitiu a passeata porque os estudantes "não pediram com antecedência" para protestar. A cobertura da Folha sobre a Venezuela tem sido exemplar, profunda e correta. Nenhum destes jornalistas que tem esculhambado o trabalho do jornal paulista conhece tanto a realidade venezuelana como o experiente Fabiano Maisonnave, o único correspondente brasileiro em Caracas.

O furo e o fígado da Veja


A revista Veja pertence ao Grupo Abril, que por sua vez faz integra os quadros da Sociedade Interamericana de Imprensa, a SIP, cuja sede está localizada em Miami. A RCTV também é associada a SIP. Na edição desta semana, Veja apresenta a maior entrevista já publicada no Brasil com Marcel Granier, dono da RCTV.

Assim como os chavistas da blogosfera, Veja também cobre Chávez com o fígado. A revista se recusa a assumir que houve um golpe midiático em 2002. Prefere dizer que as emissoras lideraram um movimento de resistência ás "constantes investidas de Hugo Chávez contra a democracia".

O fato é que a decisão de não renovar a concessão da RCTV deu a revista argumentos, imagens e aliados para a sua cruzada contra Chávez, que vem desde 1998, quando foi eleito pela primeira vez, com a maioria esmagadora dos votos.

PT sai do armário


Demorou, mas finalmente o PT saiu do armário, rasgou a fantasia e declarou apoio ao fim da concessão da RCTV. Em nota divulgada ontem, o partido do governo diz que a Venezuela "é um país democrático" e que a não renovação da licença da emissora seguiu "todos os trâmites previstos pela legislação venezuelana".

A nota diz, ainda, que a medida combate o "monopólio da comunicação por grandes empresas". Resta saber se o PT aprecia o modelo bizarro de TV pública da Venezuela, onde a tosca programação sempre termina com uma saudação ao presidente Chávez.