Artigo: pautas platônicas, por Renato Barreiros

Artigo: pautas platônicas, por Renato Barreiros

Atualizado em 01/02/2006 às 16:02, por Renato Barreiros*.

Artigo : pautas platônicas, por Renato Barreiros

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Para o bem ou para o mal, de tempos em tempos os editores dos cadernos internacionais latino americanos escolhem um líder como emblema de uma conjuntura.

O líder do momento na América Latina é o polêmico Presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

A figura de Chávez é uma das mais vistas pela mídia de nosso continente. Mais do qualquer outro, ele conseguiu se firmar como expoente da "onda vermelha" - seja o que isso for - que vem "tomando conta" da América do Sul com a ascensão de governos ligados a partidos de esquerda.

No campo das esquerdas - sobretudo a festiva - Chávez tem o mesmo status que o ex-presidente argentino Carlos Menem tinha para a direita durante a "Década Neoliberal", encerrada há alguns anos.

Na década de noventa, Menem era figura fácil em todos os telejornais sul americanos. Ele era o porta voz do discurso sobre a desregulamentação do Estado, o corte no gasto público, o liberalismo econômico como fórmula mágica para sanar as carências dos países em desenvolvimento...

Além de aparecer discursando em prol do Consenso de Washington, Menem também exibia sua vida particular, seus relacionamentos amorosos e seu estilo de vida à moda playboy americano.

Com a crise de 2001, que deixou a Argentina à beira do caos, Menem passou de herói a vilão em pouquíssimo tempo. E a mesma imprensa que antes o canonizou como santo capaz de transformar um peso em um dólar, dedicou suas páginas a atacá-lo constantemente.

Hugo Chávez ainda desfruta de uma boa receptividade por parte dos jornalistas de fora de seu país. Seu discurso para que o Estado volte a assumir um papel central na economia causa frisson nos jornalistas militantes da esquerda.

Resta saber até onde vai o encantamento. A história mostra que a popularidade relâmpago de líderes extremistas rende pautas e paixões na mesma proporção. Como toda paixão adolescente, porém, um dia, não mais que de repente, o encantamento se desmancha no ar.

*Renato Barreiros é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Buenos Aires e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP. Foi correspondente da revista IMPRENSA na Argentina.