Artigo: O que é um macaco morto diante de um congestionamento?, por Marjorie Rodrigues
Artigo: O que é um macaco morto diante de um congestionamento?, por Marjorie Rodrigues
Artigo: O que é um macaco morto diante de um congestionamento?, por Marjorie Rodrigues
Por No dia 22 de abril, a Folha de S. Paulo relatou sua visita aos destroços do Boeing 737-800 da Gol, caído na terra indígena Capoto-Jarinã. Os repórteres foram guiados por dois índios que, na hora do lanche, mataram um macaco cuja foto foi publicada no jornal. Os leitores acharam a imagem forte demais, uma crueldade. Ora, quem de nós se revolta da mesma forma diante de um congestionamento ou da lista de espécies em extinção, coisas tão... Corriqueiras? Embora matem macacos para o lanche, os indígenas têm terras com maior biodiversidade.Para os indígenas, não é probido matar os pobres animaizinhos. Proibido é romper o equilíbrio do todo, do qual nós também fazemos parte. Logo, é inconcebível para eles a posse da terra e dos recursos naturais, que não estão aqui somente para nosso usufruto. Com a inegável necessidade de frear os danos ao ambiente, aprender com estes povos é indispensável. Impossível é pensar em desenvolvimento sustentável sem absorver tal mentalidade.
Rinaldo Arruda é professor de antropologia da PUC-SP e especialista em meio ambiente e povos indígenas. Em entrevista coletiva, ele deu um bom exemplo de divergência entre a nossa cultura ambiental e a dos "povos tradicionais" (aqueles cujo modo de vida é menos poluente. Eles comumente produzem para consumo próprio e suas relações de trabalho são baseadas no parentesco). Juréia-Itatins, no litoral sul de São Paulo, abrigava povos assim. Diante do projeto de construção de uma usina hidrelétrica, eles se aliaram às ONGs SOS Mata Atlântica e Pró-Juréia para transformar o lugar - extremamente preservado - numa estação ecológica. Só não lhes foi dito que essa transformação (feita em 1986) implicaria a expulsão dos moradores. Pior: quem não tivesse título de propriedade não receberia indenização. Era o caso da maioria. A revisão do status de estação ecológica só ocorreu neste ano, quando todos já se mudaram.
Outra injustiça ocorre com os próprios indígenas. Para fazerem roça, eles precisam da autorização do Ibama, que lhes concede uma área restrita e proíbe queimadas. Pois, por incrível que pareça, são justamente as queimadas que preservam o ambiente. As cinzas fertilizam o solo, que assim fica por aproximadamente quatro anos. Depois, os índios abandonam o local e utilizam outro, dando àquele tempo para se regenerar. É um nomadismo circular. Ao obrigá-los a usar somente uma área, o Ibama força o uso de adubos químicos, além de gerar um prejuízo cultural: a história, assim como a roça, é contada de forma cíclica, de acordo com o lugar onde as famílias se instalam. Não é à toa que, no norte do país, terra preta (fértil) é "terra de índio".
Rinaldo diz que há muitos discursos por trás do rótulo do "desenvolvimento sustentável". Para ele, demarcar "zoológicos ambientais" (lugares de extrema preservação cujo entorno pode ser destruído à vontade) não é a solução. Ele defende o socioambientalismo, afinal nem toda intervenção humana destrói. É preciso romper com este pensamento. Reservas extrativistas, como as defendidas pelos seringueiros, são ideais, pois geram lucros (não tão exorbitantes quanto o dos produtores de soja, mas mantêm as florestas em pé).
O professor da PUC já fez avaliações de impacto ambiental para empresas e anda preocupado com os projetos do PAC que passam por terras indígenas. "O que temos visto é a tentativa de driblar o rigor da legislação em nome do desenvolvimento econômico". Para ele, a imprensa resume o problema como mero impasse com o Ibama e a ministra Marina Silva. "A questão não é essa. Não sou contra o PAC, mas não dá para crescer às custas da piora da vida e do ambiente locais". Rinaldo conta que muitas empresas pediram que analisasse possíveis impactos ambientais sem ao menos visitar o local onde empreenderiam o projeto. Elas também não assumem os custos sociais, deixando-os para o governo. "Em geral, os moradores nem são convidados para as audiências públicas do RIMA. Quando são, o lugar é inacessível. Por que os maiores prejudicados não têm chance de opinar? Eles são os últimos a saber. O poder está nas mãos das grandes empreiteiras".
Muitas vezes associados às ONGS, os índios são das figuras mais ativas na luta ambiental. Do Xingu, o projeto "Y Ikatu Xingu" (salve a água boa do Xingu) tem alcançado projeção. A associação Warã, dos Xavante, luta pela preservação do cerrado. Não se trata de salvar espécies, mas de manter o equilíbrio. Diz o site da Warã: "O Xavante depende do cerrado e o cerrado depende do Xavante. Os animais dependem do cerrado e o cerrado depende dos animais. Os animais dependem do Xavante e o Xavante depende dos animais. Isso é o Ró. Ró significa tudo para os caçadores Xavante: o cerrado, os animais, os frutos, as flores, as ervas, o rio e tudo mais.
Nós queremos preservar o Ró. Através do Ró garantiremos o futuro das novas gerações: a comida, os casamentos, os rituais e a força de ser Xavante. Se estiver tudo bem com Ró, continuaremos a ser Xavantes". Quer melhor justificativa para a sustentabilidade?
* Marjorie é estudante de jornalismo Universidade de São Paulo.
Contato: marjorie.rm@gmail.com






