Artigo: Jihad a liberdade de imprensa?, por Renato Barreiros

Artigo: Jihad a liberdade de imprensa?, por Renato Barreiros

Atualizado em 10/02/2006 às 11:02, por Renato Barreiros*.

Artigo: Jihad a liberdade de imprensa?, por Renato Barreiros

Por Há semanas que a imprensa mundial tem como um dos temas centrais de discussão os incendiários protestos de radicais islâmicos contra as charges sobre o profeta Maomé publicadas no jornal dinamarquês Jyllands-Posten .

No Brasil, um país sem conflitos religiosos, o tema dominou os principais veículos de comunicação, ganhando a capa da Veja e estando presente diariamente na pauta do "Jornal Nacional".

A intolerância de certos grupos radicais islâmicos é uma velha conhecida dos jornalistas que lutam pela liberdade de imprensa, pois não é de hoje que métodos coercitivos, como as atuais manifestações que vêm ocorrendo, têm o intuito de dar um cala boca em quem não concorde com a palavra de Alá e seus discípulos.

Segundo o ranking sobre liberdade de imprensa divulgado anualmente pela ONG Repórteres sem Fronteiras, os países seguidores das leis do Alcorão ocupam as últimas posições, concorrendo com regimes totalitários como o que vigora na Coréia do Norte.

Uma das teocracias islâmicas mais conhecidas da atualidade, o Irã ocupa hoje a posição de número 164 do ranking , estando a apenas três postos do último colocado.

Outros países "devotos" de Maomé, como Arábia Saudita, Líbia, Afeganistão, Iêmen e Paquistão também estão qualificados negativamente e disputam os últimos lugares na classificação da ONG.

A falta de um estado laico regulado pela lei secular em vez da moral religiosa parece ser o principal entrave para que a liberdade de imprensa aflore nos países islâmicos. Como conseqüência disso, o que se vê é uma cultura dominada pela verdade única, a de Alá, que não tolera crítica ou diversidade.

Além dos protestos contra as charges, mais uma situação crítica para a liberdade de imprensa pode estar sendo gerada com a chegada do Hamas ao poder na Palestina.

Se na época em que o Fatah, partido de cunho nacionalista do falecido líder Yasser Arafat, governava a Autoridade Palestina, o país já ocupava o vergonhoso 132° lugar no ranking sobre liberdade de imprensa da Repórteres sem Fronteiras, agora, com a chegada ao poder de um grupo islâmico radical, a situação tende a piorar com a implementação da "censura islâmica" que deverá ser aplicada pelo Hamas.

Outro fato que colaborou para aumentar a intolerância por parte dos islâmicos ortodoxos contra os meios de comunicação independentes foi a invasão norte-americana ao Iraque, que teve como resultados uma maior radicalização interna dos países islâmicos, fazendo com que eles se fechassem ainda mais, e a propagação da idéia de que qualquer jornalista é um inimigo em potencial, haja vista o número significativo de profissionais seqüestrados no Iraque. O próprio Iraque, sob intervenção dos EUA, aliás, ocupa um desonroso posto de número 137 na classificação do Repórteres sem Fronteiras, mostrando que o conflito atual transcende o "Choque de Civilizações" proposto por Samuel Huntington, já que o ocidente quando, lhe convém, se esquece de princípios básicos, como o direito à informação.

Diante de tal quadro, só nos resta esticar nosso tapetinho em direção à Meca três vezes ao dia e rezar para que Alá seja mais compreensível com a imprensa e que nos deixe trabalhar de forma livre e transparente. Na dúvida, também devemos acender uma vela a Ave Maria, para que ilumine George Bush e seus Falcões, evitando os abusos e excessos da superpotência.

*Renato Barreiros é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Buenos Aires e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP. Foi correspondente da revista IMPRENSA na Argentina.