Artigo: 37 anos e um mês de espera, por Wagner Sarmento

Artigo: 37 anos e um mês de espera, por Wagner Sarmento

Atualizado em 16/04/2007 às 14:04, por Wagner é estudante do 5° período de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Artigo: 37 anos e um mês de espera , por Wagner Sarmento

Carioca na melhor acepção da palavra. Artilheiro na melhor acepção do adjetivo. Ou simplesmente Romário. Um predestinado ao gol. Se o futebol fosse um império, a pequena área seria seu reinado eterno. Por 1252 vezes ele entrou em campo. Por 999 vezes, balançou as redes. A média de quase 0,8 mostra que o mar dos gols sempre esteve pra peixe. Ou melhor, pro Peixe. Baixinho na boca dos narradores, gigante no coração dos amantes da bola.

A matemática do futebol nunca lhe foi ingrata. Até porque as contas de Romário sempre resultaram em gol. Somando títulos, multiplicando artilharias, subtraindo adversários, dividindo conquistas. Foi assim que o homem virou mito.

A estréia como profissional aconteceu em 1985 pelo Vasco da Gama. Já no ano seguinte, superou o consagrado Dinamite e, dinamitando zagas e goleiros oponentes, foi goleador do Campeonato Carioca. Em quase 22 anos dedicados ao futebol, uma história desenhada em números. Foram 21 troféus por clubes e pela seleção, 28 artilharias e 11 prêmios individuais. Mesmo 11 imortalizado nas costas do marrento atacante de um metro e 69 centímetros de altura. Que alcança os céus na apoteose do gol. Chegou às estrelas 323 vezes pela equipe cruz-maltina, 204 pelo Flamengo, 165 pelo PSV, 53 pelo Barcelona, 48 pelo Fluminense, 22 pelo Miami, 14 pelo Valencia, uma pelo Adelaide. Na seleção brasileira, é o terceiro maior matador de todos os tempos, com 71 tentos marcados. Outros 77 em divisões de base, mais 21 em partidas festivas.

Tão fatal quanto excêntrico. Um homem de gols e frases igualmente geniais. Um homem que fez chorar com bolas na rede e sorrir com tiradas astutas. "Pelé calado é um poeta", disse ele, em 2005, como resposta à declaração em que o Rei afirmou que o centroavante deveria se aposentar. E é justamente o verso que apenas o poeta Pelé escreveu que Romário persegue antes de dizer adeus aos gramados.

O Baixinho busca encerrar sua trajetória no mundo da bola como co-autor do feito atualmente restrito ao melhor artista que o futebol conheceu. Uma vontade apedrejada. A conta é mentirosa, a idade já não permite, a insistência humilha... Cada um que invente seu argumento para menosprezar a ambição de Romário. Mas o desejo do camisa 11 é legítimo. Ninguém pode impedir um indivíduo de ter asas. Eu já me enchi de criticar o sonho do Peixe. O olhar fixo, os cabelos brancos, a marra perseverante. Se ele quer, ele pode.

"Persiga um sonho, mas não deixe ele viver sozinho", aconselhou o - verdadeiro - poeta Fernando Pessoa. Romário segue a recomendação. Quer dividir seu sonho com o Brasil. Quer fazer de seu devaneio uma alegria de milhões. Consagrado nos braços do povo pelo tetracampeonato mundial em 1994, é no colo da multidão que o Cara ganha forças para seguir em frente. No mesmo Vasco da Gama onde o sonho começou. No mesmo Rio de Janeiro onde o Peixe aprendeu a nadar, viver e sonhar. O mesmo personagem, o mesmo palco, a mesma platéia. Por quatro vezes, o milésimo gol escapou de se tornar realidade. O sonho pediu licença e está adiado em, no mínimo, um mês. Mas, se o planeta esperou 37 anos para ver uma nova lenda na iminência de vencer a marca de mil bolas na rede, os pouco mais de 30 dias serão de uma saborosa espera. Faz tempo que o mundo não sente o gosto de gol mil. Vai na boa, Baixinho.

Contato : wagner_sarmento@hotmail.com