Artigo: A moda na imprensa, Por Astrid Façanha*
Artigo: A moda na imprensa, Por Astrid Façanha*
Artigo: A moda na imprensa, Por Astrid Façanha*
No Brasil e no mundo a moda conquista cada vez mais espaço editorial. O jornalismo de moda é pensado no ambiente acadêmico e fala-se do "momento brasileiro"Na semana de abertura da Copa do Mundo, pelo menos 800 jornalistas, entre editores, repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, optaram por uma cobertura longe dos campos de futebol. Este foi o número de credenciados para os desfiles da Fashion Rio, incluídas a imprensa nacional e internacional, segundo informou a assessoria da semana de moda carioca, que aconteceu de 06 a 11 de junho.
Em condições normais, a São Paulo Fashion Week chega a atrair 2.500 profissionais da imprensa. As semanas de moda (as fashion weeks), que começaram no Brasil há dez anos, são responsáveis pelo calendário brasileiro de lançamento das coleções e ajudam no alinhamento da cadeia produtiva têxtil e de vestuário. Os desfiles são programados para acontecer duas vezes por ano - no verão, para lançar moda inverno, e no inverno, para moda verão.
Em agosto de 2000, o jornal americano The New York Times publicou, na sua editoria de negócios internacionais, uma matéria sobre a vinda dos gurus da moda internacional ao Brasil. Eles vinham para assistir aos desfiles do então Morumbi Fashion, o atual São Paulo Fashion Week.
O jornal questionava se o Brasil seria forte candidato a se tornar um novo pólo de lançamento de moda, a exemplo de Nova Iorque e Milão. Segundo o The New York Times , o fenômeno da modelo Gisele Bündchen e o crescente sucesso dos estilistas brasileiros, como o paulista Alexandre Herchcovitch, despertaram o mundo para o que o jornal chamou de brazilian moment .
Seis anos depois, ao que tudo indica, o "momento brasileiro" não saiu de moda. Na semana de 15 de maio deste ano, a revista Newsweek fez um especial com vários artigos sobre elegância e estilo de vida. O artigo "fashion forward" dizia que as roupas que hoje tem mais frescor não estão vindo de cidades como Londres ou Paris, mas de mercados emergentes, como a Índia, China, Rússia e Brasil, o único dos países citados a ganhar página inteira na matéria: uma foto do desfile da estilista carioca, Isabela Capeto.
Repercussão internacional
Desde quando a moda chamou tanta atenção? Até pouco tempo, era considerado mero assunto de interesse feminino. Matéria para os cadernos de fim-de-semana. Ou, no máximo, coluna social. Nos últimos anos virou manchete, passou a circular nas diferentes editorias e ganhou edições especiais.
Em 2003, a revista Time lançou uma edição especial na primavera. A edição foi a primeira de uma série de semi-anuais sobre estilo e design. Segundo a editora da Time , Belinda Luscombre, a moda caminhava para o epicentro da esfera cultural e estava se tornando um tópico de discussão crítica. A capa da revista era a modelo alemã Heide Klum. O sumário, porém, abria com uma foto da brasileira Giselle Bunchen. "In full bloom".
O mesmo se dizia sobre a moda brasileira. A edição de 16 de outubro de 2002, da revista Exame , trazia na capa o estilista brasileiro Carlos Miele e uma modelo usando um cocar indígena. A chamada dizia: "A moda brasileira está em alta aqui e lá fora.. O desafio é torná-la um negócio bilionário". A reportagem de capa, escrita pelo jornalista Nely Caixeta, destrinchava para o leitor da revista, o enigmático universo do brilho e do glamour. No mesmo ano, a edição de 25 de outubro, da revista Forbes Brasil , publicava uma matéria sobre a queda do estilista francês Pierre Cardin. Na pauta do hardnews, a matéria mostrava um lado da realidade, ofuscado pelos holofotes das passarelas.
Ainda em 2002, a edição Brasil, da revista AméricaEconomia , de 29 de novembro, trouxe a Gisele Bunchen na capa.. O sumário abria com a seguinte chamada: "O Brasil está na moda". Editada no Chile e distribuída em vários países das Américas, a AméricaEconomia ao seu leitor os números promissores da indústria têxtil e do vestuário brasileiro. Na época, segundo a revista, "com 30 mil empresas e 1.4 milhão de operários". A chamada do sumário ia além: "O país quer ser uma potência global".
Em 2003, a moda estava nas páginas do jornalismo científico da Super Interessante . A edição de setembro da revista levantava a questão: "Fashion! Por que o mundo da moda nos fascina tanto?". No ano seguinte, a capa da edição de 06 de março de 2004, da conceituada semanal britânica The Economist chamava atenção para uma pesquisa sobre moda. A pesquisa realizada pela revista havia resultado em uma série de artigos. Entre estes, Retalhos e Riquezas , por exemplo, afirmava que por mais efêmera que fosse, a moda veio para ficar. Outros artigos revelavam diferentes facetas da moda. Do mundo das celebridades às cenas de rua. Ao fato da moda vender sonhos.
Momento Brasileiro
A partir de 2004 não se tem mais dúvida, a moda está na moda e o Brasil está dentro. Um artigo publicado no dia 04 de julho, na revista online da BBC, (British Broadcast Corporation), indagava: "Quem decidiu que o Brasil era cool?" (Who decided Brazil was cool?). Naquele mês, a Selfridges, cadeia inglesa de lojas de departamento, promovia um festival brasileiro. O artigo da BBC comentava que tudo o que vinha do Brasil, no momento, era "quente". O cinema, a moda os esportes, a música e o próprio povo brasileiros eram "hot, hot, hot", segundo o artigo.
No Brasil, a edição de julho de 2004 da revista Cult trazia a apoteótica chamada: "História, antropologia e arte mostram por que a moda é a grande tendência na cultura". Era a primeira vez que a revista publicava a crítica de um desfile de moda.
Os artigos repercutiram e proliferaram. No ano seguinte, no dia 04 de julho de 2005, uma longa reportagem no jornal econômico chinês, The Standard , reforçava: "A moda brasileira ferve" ( Brazilian fashion hots up). A matéria citava alguns dos responsáveis por tudo aquilo acontecer. Dos estilistas aos modelos e desfiles.
No Ano do Brasil na França, em 2005, a revista Vogue Paris dedicou a edição de junho/julho ao homenageado do ano. A manchete na capa confirmava: "Brasil pegando fogo"( Brûlant Brésil).
Em 2006, ano de Copa, a moda brasileira, continua notícia quente. Para confirmar, a edição de maio deste ano da revista Elle americana trouxe um especial sobre as novas gerações de estilistas brasileiros.
Com a moda na pauta do dia, será que o jornalismo brasileiro está preparado para entrar em campo? A exemplo do que acontece na literatura, no cinema, no teatro e nas artes plásticas existe uma crítica especializada?
O que pensam e dizem estudiosos e profissionais da área.
No capítulo "O campo fluído do jornalismo de moda", a inglesa Angela Mc Robie, autora do livro British Fashion Design (Londres, Editora Routledge), observa que o jornalismo de moda é separado do resto do jornalismo. No livro, publicado em 1998, Mc Robie, professora de Comunicação no Goldsmiths College, da Universidade de Londres, levanta a suspeita de que o jornalismo de moda se encontra bem mais próximo da indústria da moda do que seria natural acontecer nas outras áreas do jornalismo.
Segundo a autora, o baixo status da categoria dentro do campo hierárquico da imprensa acabou empurrando o jornalismo de moda para perto daqueles que trabalham com moda. De forma que editores, jornalistas e fotógrafos dividem o mesmo "mundo da moda" que os estilistas, empresários e assessores de imprensa.
No livro "Jornalismo e Produção de Moda" (Rio de Janeiro, Nova Fronteira), a jornalista carioca Ruth Joffily, mestre em Comunicação Social e professora do curso superior de Moda da Universidade Veiga de Almeida, já havia comentado sobre o preconceito contra o jornalismo de moda na redação. A autora identifica "a grosso modo" três tipos de matérias de moda: tendência, serviços e comportamento. Até pouco tempo, o livro de Joffily era uma das raras referências sobre o tema.
Este ano, pela primeira vez, uma dissertação de mestrado sobre jornalismo de moda foi defendida no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, Escola de Comunicação e Artes da USP. Em abril, o jornalista e professor universitário, Tarcísio DAlmeida apresentou a dissertação com o título Das Passarelas às Páginas: um Olhar sobre o Jornalismo de Moda. A pesquisa teve como referencial teórico a constituição e legitimação da especialidade do jornalismo de moda.
Segundo levantou DAlmeida, o embrião do jornalismo de moda se encontra na literatura, através dos relatos de costumes. A gazeta Mercure Gallant, publicada em Paris, em 1670, na época da corte de Luís XIV, já trazia reportagens sobre moda. Outra questão abordada no estudo é a função que o jornalista de moda exerce enquanto trendspotter. Espécie de "observador de tendências".
No Brasil, a Página Feminina, criada em 1929, pelo jornal A Gazeta, foi a primeira seção feminina a ser publicada em um jornal de grande circulação. As matérias abordavam temas de interesse da mulher, como corte e costura. Passaram-se anos, até a moda ser assunto para os cadernos "Metrópole" e "Cotidiano", dos jornais Folha e Estado.
"A Cobertura de Moda nos Jornais Diários - Do Comentário Ameno ao Status de Notícia", foi o tema da dissertação de mestrado da jornalista Eleni Kronka. Com a linha de pesquisa apoiada no jornalismo comparado, foi mais um estudo sobre jornalismo de moda a passar pelas bancas da ECA. A dissertação foi defendida em maio deste ano
Editora-chefe do jornal World Fashion , respeitada publicação dirigida aos profissionais do setor de moda, Eleni Kronka comenta que nos últimos anos, surgiu uma nova forma de edição da notícia de moda, quando foram criados novos espaços para comentários sobre os desfiles e as coleções. Durante o São Paulo Fashion Week surgiram "colunas", como, "Fashion Flash", no Metrópole, e "Fashionista", na Ilustrada, por exemplo. Segundo a editora, outra coisa que não se cogitava antes era apresentar a moda como chamada da primeira página dos jornais.
Sobre a crítica de moda, Kronka acredita que no Brasil temos bons comentaristas. O processo, no entanto, ainda é de evolução. Segundo a editora, "chegará o dia em que haverá, realmente, a crítica de moda, aprofundada e contextualizada, como acontece na cobertura política, econômica ou das artes plásticas".
Legitimado com a pesquisa científica o jornalismo de moda é repensado na imprensa e discutido nas faculdades.
Convidado para conversar com alunos e professores da pós-graduação em criação de imagem, da unidade de moda do Senac-SP, o atual editor de moda da Folha de S.Paulo , Alcino Leite, falou sobre as mudanças ocorridas no jornal. E do ajuste na cobertura jornalística de moda. O editor acredita que moda tem uma relação intensa com a cultura que não deve ser negligenciada.
Na Folha, desde 1989, Alcino Leite passou pelas editorias dos cadernos Letras, Ilustrada e Mais!. Foi escalado para assumir a editoria de moda no momento em que o jornal mudava a sua cobertura. Responsável pelo caderno Última Moda e pela revista Moda , afirmou que a idéia central do jornal é democratizar a informação de moda.
Segundo o editor, existe um certo altruísmo na moda. "Ela é gerada para o próprio universo da moda e não amplia o seu campo de interesse para os demais leitores".O público médio da Folha tem mais informação sobre política, cinema e literatura do que moda, comentou.
Se a moda é de fato, assunto de interesse público, a verdade é que sempre ajudou a vender revistas. Durante uma palestra para alunos de Moda da Faculdade Santa Marcelina, Thomas Souto Corrêa, vice-presidente do Conselho Editorial da Abril, chamou atenção para a longevidade de revistas femininas de moda, como a Harpers Bazaar e a Vogue , que existem há mais de 100 anos .
Hoje, porém, ficou muito difícil se diferenciar na moda, segundo Souto Corrêa. Pois as revistas publicam as mesmas informações. Segundo o especialista, que há vários anos pesquisa a histórias das revistas: "É preciso criar olhares diferentes na maneira de mostrar a moda ou senão fica tudo igual". Ele não acredita nas revistas monotemáticas. Diz que a moda continuará a gerar projetos. Porém não serão projetos só de moda. Terão que ter algo a mais para fazer sucesso.
Não é só o universo feminino que a moda seduz. Na Playboy brasileira, a coluna "Estilo", editada pela jornalista Roberta Rislow, faz um apanhado sobre produtos e tendências da moda masculina. Com um texto direto e sem afetações, explica para o público masculino como a moda pode ser útil, segundo esclarece a editora. Outro segmento que dialoga abertamente com a moda são as revistas de celebridades.
Serviço de moda e estilo com informações sobre celebridades, é a fórmula da revista Estilo de Vida , da Abril, responsável pela tiragem superior a 100 mil exemplares. Enquanto a Elle , da mesma editora, trata da moda nas passarelas, a Estilo de Vida mostra o que as celebridades estão usando em festas e eventos sociais.
Laurentino Gomes, diretor de marketing de uma unidade de negócios da Abril é responsável por vários segmentos, inclusive o que abrange as revistas Contigo! , Tititi e Minha Novela . Ele afirma que a moda se tornou um tema importante nas revistas de celebridades. Primeiro porque as pessoas precisam de informações sobre o que comprar e como combinar peças do guarda-roupa.
Sem falar que a linguagem estética da moda ajuda no posicionamento das revistas, porque está associada a um ambiente de elegância, sofisticação, ousadia e criatividade. "É um ambiente que apela simultaneamente aos leitores e aos anunciantes das revistas", diz o diretor. Segundo ele, as revistas em busca de um posicionamento de mercado mais qualificado sempre incluem moda entre seus temas editorias.
* Astrid Façanha é jornalista, com especialidade em moda, mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e IBICIT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia). Em 1999, como bolsista do CNPq, defendeu a dissertação de mestrado com o título Entre Pigmentos, Scrapt Books e Passarelas. 





