Aperitivo da próxima edição: Marcelo Rubens Paiva explica por que colocou seu diploma no banheiro

Aperitivo da próxima edição: Marcelo Rubens Paiva explica por que colocou seu diploma no banheiro

Atualizado em 04/08/2006 às 18:08, por Pedro Venceslau e Raquel Paulino / Redação Portal IMPRENSA.

Aperitivo da próxima edição: Marcelo Rubens Paiva explica por que colocou seu diploma no banheiro

Por Quando lançou "Feliz Ano Velho", no começo dos anos 80, o estudante de engenharia agrícola Marcelo Rubens Paiva não tinha grandes pretensões literárias. Aos 20 anos de idade, tudo que ele queria era transformar em livro o diário que escreveu nos meses seguintes ao acidente que o deixou paraplégico. "Eu era um menino", conta. O livro se transformou em best seller internacional e Marcelo em celebridade instantânea. Vinte e sete anos se passaram desde de seu primeiro livro. Marcelo amadureceu, cursou comunicação social, escreveu peças de teatro, produziu e apresentou programas de TV, foi editor e repórter de cultura, escreveu outros seis livros e decidiu pendurar seu diploma de jornalista no banheiro. "Esse diploma não vale nada. O jornalismo perdeu o rumo, saiu do trilho", explica.

Para poder retomar sua atividade preferida, a de escritor, Paiva teve de abandonar a reportagem cultural diária da Folha de S.Paulo em 2003 e se tornar um jornalista free-lancer. Valeu a pena. Sem as amarras do fechamento, conseguiu tempo para lançar dois novos livros - "Malu de Bicicleta" naquele mesmo ano e o mais recente, "O Homem que Conhecia as Mulheres", da Editora Objetiva, que acaba de relançar todos os seus livros. Além de uma nova peça de teatro, a décima. "No Retrovisor" está em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Carlos Gomes.

Aos sábados, Marcelo assina uma coluna no Estadão , no espaço que era de Rachel de Queiroz. "Acho que tenho uma alma feminina", diverte-se. Nesta entrevista para a Revista Imprensa , Paiva conta por que pendurou o diploma de Comunicação Social no banheiro, opina sobre o jornalismo na televisão e nos jornais e conta as razões que o levaram a se desencantar com o PT.

O diploma pendurado na parede do banheiro


IMPRENSA - Recentemente, você declarou também que não gosta mais do livro "Feliz Ano Velho", que o projetou. O que aconteceu?
Marcelo Rubens Paiva
- Mudei meu estilo literário, cresci, amadureci. Algumas dúvidas existenciais de "Feliz Ano Velho", hoje em dia, parecem ridículas. Eu era um menino. Meu quarto não é mais o quarto de quando eu tinha 20 anos. Não tem mais pôster do Led Zeppelin, carrinho matchbox, livros beats. Meu quarto hoje tem um quadro bonito. Com o "Feliz Ano Velho" é isso: eu cresci, mas aquele quarto continua igual. Isso é meio aflitivo.

IMPRENSA - Notamos que seu diploma de Comunicação Social está pendurado na parede do banheiro. Por que você o colocou lá?
Marcelo
- Porque meu diploma não vale nada. Pra que eu fiz faculdade de Rádio e TV, de Jornalismo? Pra nada. Hoje em dia, o jornalismo perdeu o rumo, saiu completamente do trilho. O jornalismo, hoje, é um "Estado independente". Isso é um pouco resultado de anos de ditadura, de controle das famílias poderosas, que sempre têm ligações muito promíscuas com o Estado. Um país tão traumatizado pela censura, pela violência, pelo cerceamento da liberdade de expressão, não consegue montar um controle ético da mídia. Não consegue evitar que o Datena fale os absurdos que fala.

IMPRENSA - Você, que trabalhou muito tempo na TV Cultura, defende que a emissora tenha comerciais, como os das Casas Bahia?
Marcelo
- Sempre defendi isso. O problema da TV Cultura é a forte ligação com o governo: na época do Maluf eram malufistas, na época do PSDB eram psdbistas. Com comerciais, dá pra ter mais liberdade.

IMPRENSA - Qual foi a diferença entre trabalhar na TV Cultura (onde foi apresentador dos programas Leitura Livre e Fanzine) e na Rede TV! (onde foi chefe de redação do canal e do programa Super Pop, com Adriane Galisteu)?
Marcelo
- A Cultura é aquilo que a gente sonha em TV: em primeiro lugar vem o compromisso ético, e depois a audiência. A gente queria que desse audiência, lógico. Mas não forçava a barra. Eu, por exemplo, não chamava o "É o Tchan", chamava o Mangue Beat. A gente estava mais preocupado com as questões culturais. Já a Rede TV!, não pensava assim. Quando ela começou, queria ser uma TV Manchete mais qualificada. A idéia era ser uma televisão de qualidade.

IMPRENSA - E hoje, ela é uma TV de qualidade?
Marcelo
- Não. Enquanto no programa da Adriane Galisteu a gente colocava matérias sobre trilhas publicitárias e dava um ponto, na Bandeirantes o Luciano Huck dava cinco pontos com o Exaltasamba. O programa não agüentou e a Galisteu falou "Vamos chamar o Exaltasamba". Ela tinha razão. Aí eu saí, dizendo "Não vou ficar aqui pra exaltar o samba de ninguém".

Veja a entrevista completa na edição de setembro da revista IMPRENSA .